“Até um dia a casa cai”: a metáfora da injustiça

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Por Elcídio Bila

Podia inferir, a prior, que a narrativa da mendicidade já virou um cliché no teatro moçambicano. Lá vão muitas peças em que meninos de rua são protagonistas e suas vidas preenchem os enredos mais fascinantes ao mesmo tempo que dramáticos, caso de “Os Meninos de Ninguém”, de Mutumbela Gogo. Só não caio nessa leitura reducionista por ser esta – “Até Um Dia a Casa Cai” – uma peça teatral pertinente, por não só evocar as peripécias dos meninos de rua, embora um dos personagens não seja efectivamente menino, mas por ir de encontro aos lamentos actuais do país – a injustiça.

Estamos profundamente em crise e o discurso político remete-nos à resiliência. Ora, neste emaranhado de escândalos financeiros a injustiça é uma questão que não deixa sobretudo a sociedade civil acomodada. As detenções actuais, que muitos suspeitam se tratar de malabarismo de pré-campanha, não deixam os moçambicanos “relaxados” quanto ao desrespeito pela coisa pública, conjugado com a falta de ética e princípios de probidade.

A apresentação da peça teatral do grupo Ximbitana, a 6 de Junho último, vem a ser uma extensão da sociedade civil, denunciando casos de injustiça. Mas o grupo usa o velho e doentio Nélio, na carapuça de Ivan Barrama e o jovem e descontraído Joel na pele de Samuel Nhamatate. Os dois parceiros [da rua] vivem numa casa, algures na cidade de Maputo, abandonado e que já reclama desabar. Conheceram-se ao acaso. Quando Nélio decepciona-se com a sua esposa ao encontrá-la na cama com outro homem no mesmo dia que a esperara na porta da cadeia, onde injustamente ficou encarcerado, “tramado” por um ex-colega que lhe queria usurpar o cargo de pompa numa empresa pública, refugia-se na rua. Lá queria ser assaltado, só escapou graças a intervenção de um menino que foi negado os direitos elementares de uma criança – educação e alimentação – e, como se não bastasse sofria violência doméstica pelo pai e a madrasta: essa criança, com as feridas cicatrizadas pelas ruas, é Joel.

A partir desse dia ficaram tão íntimos, numa amizade que extravasa o sentido da própria palavra. Um acaso fruto de injustiça, sublinhe-se. Nélio foi injustiçado pelo ex-colega, pelo tribunal e pela esposa. Já Joel sentiu o peso da injustiça no seu primeiro dia de vida. Injustiçado pelo destino: perde a mãe no seu parto e o pai condena-o por esse infortúnio, negando-o o lar através da violência a todos os níveis.

Ximbitana – o grupo que regressa aos palcos depois de uma paragem substancial enquanto colectivo – reivindica, assim, o lar das pessoas que vivem na rua e o seu espaço na sociedade ao colocar Nélio como a metonímia do servidor público, apenas vítima da sua competência, e Joel como de qualquer criança escolarizada.

Durante cerca de 60 minutos, num diálogo consistente, como um livro que prende o leitor, Barrama e Nhamatate investem no talento que nutrem para não despistar a atenção de uma plateia farta que acorreu a Fundação Fernando Leite Couto num dia de estreia, mas que pareceu já terem rodado até à fartura.

Alguns atropelos de dicção, próprios de primeira apresentação e algum esfriamento lá para o meio (discursos vazios e em voz baixa, por vezes) não derrubaram o trabalho erguido com qualidade profissional. Por isso, depois dos aplausos fiquei a pensar: será este um grupo amador ou profissional? Teria dúvidas em sublinhar a minha resposta, pois alguns aspectos técnicos, como a trilha sonora e a luz foram amadoras. Não propriamente por força do colectivo, mas do espaço que não chega a ser concebido para o que o teatro necessita. Se aquela apresentação fosse, por exemplo, no Avenida ou Gil Vicente, sairia com certeza mais maravilhado.

Ainda sobre a trilha: alguns batuques e timbilas ou outros instrumentos, bem ajustariam na peça, além daquele som industrializado com saídas bruscas. Os adereços, por sua vez, fazem-me esquecer a trilha. Não precisei de ter sido dito que idades tinha cada um, mas arrisco 60 e 17 anos, respectivamente. Só pela forma como estavam trajados. Realço esse pormenor de propósito, afinal na rua veste-se de tudo (o que tem e não o que pode). Ninguém altera sua fisionomia pela (des)graça dos trajes, mas o grupo, mesmo com essa lição bem estudada, conseguiu colocar cada personagem na sua esfera do tempo.

Os diálogos também foram ao encontro dessa preocupação. O Joel era mais solto, abstraído, de bom humor e com um ar jovial. Já Nélio, típico de doente, tossia intermitentemente e o pouco vigor e entusiasmo na voz denunciavam a larga idade. Aliás, os conteúdos da cavaqueira – como se de pai e filho se tratasse – também realçam a esmagadora diferença de idades.

O pecado das narrativas é o desenlace. Bem achava que a peça terminava com a morte do Nélio, afinal há muito estava doente e naquele dia esperava o médico caridoso que nem sequer chegou. Era o óbvio. Se assim fosse, não temeria mal algum em apelida-la má peça. O final, muitas vezes, determina a qualidade do enredo, sabia?! Para o meu agrado, Nélio só tinha desmaiado, tendo despertado no momento ritualístico do Joel, forçosamente pelo seu perfume de moribundo nas suas fuças.

Configura-se nesse episódio outra injustiça: a promessa não cumprida do médico em assistir o doente. O facto desses cuidados serem por caridade não o isenta de falta de zelo (ainda que noutra leitura, se julgarmos esta uma sociedade uma manga pobre, possamos encarar o médico como a parte da fruta que ainda dá degustar). Mas também podemos assumir que Nélio foi vítima do sistema, ao colapsar numa altura que dizia um poema contra o Poder. E já que as palavras têm poder, elas mesmas o deixaram sem poder… (este último referente ao verbo).

Só não percebi como ele tomba, inanimado, e o poema continua a ser lido, por sinal, por ele mesmo. Esta foi a última injustiça detectada na peça. Diferentemente de outras, a injustiça contra o espectador; talvez a mais repugnante.

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