E a religiosidade africana?

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A capital do país tem estado a assistir a um crescimento significativo de igrejas. Ao virar da esquina há um “mensageiro” a pregar, de forma oral ou com panfletos, a palavra de Deus. Muitas vezes sem o mínimo cuidado de pedir autorização ao transeunte para se dirigir a ele com a tal “Boa Nova”, ignorando que o limite da liberdade de cada um é o princípio  do outro.

Parte dessas ceitas se assumem evangélicas e se diferem pela maneira como interpretam as figuras divinas apregoadas pelo cristianismo romano católico no qual todas buscam a matriz.

A pluralidade religiosa há de sempre ser celebrada num Estado laico, que pretende respeitar as diversas formas de ver, sentir e interpretar o mundo. E esse é o nosso caso. Pese embora a tendência dominante seja a ocidental, nesse raciocínio é inevitável recordar que Eduardo Mondlane chamou atenção para o facto de a opressão colonial ter desembarcado com uma Bíblia na mão.

Uma pergunta incontornável é o lugar da religiosidade africana no meio dessa efervescência. Quando se repara para os panfletos publicitários, fica-se com a impressão que foram relegadas ao esquecimento ou ao oculto.

Não deixa de ser estranha essa realidade. Não deixa de ser espantoso e inquietante que ao chegar-se a uma casa os proprietários tenham um profundo domínio do estilo de vida da família vizinha e desconheçam a doença de um dos seus filhos.

Na busca de possíveis respostas para essa questão, entramos para a história e ao percorrer o passado nos deparamos com uma tentativa de asfixia da religiosidade africana a partir de olhos ocidentais incapazes de perceber um sistema cognitivo diferente do seu.

Durante vários anos e gerações fomos sendo (des)educados numa estrutura de pensamento que é milenar no nosso solo, a nossa terra. É como diz o adágio, “uma mentira repetida várias vezes torna-se verdade”. Por diversas vezes foi repetido que a religiosidade africana é a personificação das trevas.

Às escondidas, entretanto, foi sobrevivendo mas, gradualmente, perdendo o seu valor. Sem consciência, ao “verdadeirizar” essa mentira, íamos (e continuamos) a matar quem somos, pois a religião é inerente à nossa cultura, à nossa forma de pensar e perceber o mundo.

Em meio a este apagamento há uma questão que é culpa nossa. Depois que descobrimos a escrita, poucos se dedicaram à documentação dessas manifestações. É preciso reconhecer que a literatura – “O outro pé da sereia”, de Mia Couto, e “Sétimo Juramento”, de Paulina Chiziane, são apenas alguns exemplos -, nas artes plásticas – Jacob Estevão nalgumas obras do acervo do Centro Cultural Brasil Moçambique e Bertina Lopes, meros exemplos – desempenharam o seu papel. Mas e a antropologia? Continua refém de Henri-Alexandre Junod?

Luís Tomás Domingos, Doutor em Antropologia e Sociologia Política, moçambicano a dar aulas no Brasil, explicou, numa entrevista ao programa Religare – Conhecimento e Religião sobre religiosidade africana, disponível no Youtube, que, por exemplo a morte na religiosidade africana não é percebida como um fim em si, mas como uma viagem (para o invisível), na qual o finado vai enviando correspondências para os vivos (o visível). A partir deste dado podemos perceber, porque há casos de “maridos da noite”, só para citar um exemplo.

O mundo é dinâmico e hoje não somos o que fomos, mas o que fomos participa do que somos. Daí que matar a religiosidade africana é inventar um novo africano sem passado. É possível?

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

 

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