02:14h: A Escrever

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Por: Estêvão Azarias Chavisso

Esta é mais uma madrugada perdida. Estou, uma vez mais, sentado diante da tela do meu computador, na terceira xícara deste café barato e à espera de uma “grande ideia”. Agasalhado até ao pescoço contra o tímido frio das madrugadas de Maio, o conforto da minha secretária dá-me a aparente sensação de estar inspirado para escrever. De quando em vez, ensaio um parágrafo, que pouco tempo depois é apagado sob espetro desesperado de um olhar que se quer autocrítico. Nada de jeito me ocorre.

Tanto faz, desabafo, enquanto acendo mais um cigarro. “Um dia isto ainda me corre bem”, murmuro e deixo-me levar por um instante.

Não sei ao certo o que realmente me motiva a perder mais uma noite a procura de palavras que me parecem tão distante do que sinto, mas tenho a inibida impressão de que isto ainda vai resultar. Eu insisto! Escrevo, como se de um compromisso se tratasse.

 É uma volta por um universo peculiar, sob o qual repousa a alegórica impressão de se estar a ser fiel ao que se sente. É, sem dúvida alguma, mera impressão, na medida em que, depois de datilografadas, as palavras são todas estranhas para quem as escreve. Tem vida própria. Eu, particularmente, não me reconheço nelas. Não as sinto. É como se um abismo separasse o que escrevo do que sinto. Pior, é como se de dois sujeitos completamente diferentes se tratasse.

 Há sempre dois ou três (bons) amigos que gostam dos teus rabiscos. Um elogio aqui outro acolá são sempre sons agradáveis aos ouvidos – principalmente quando se pode ganhar algumas moedas com isso.

Mas, na realidade, a gente escreve por mero deleite. É a manifestação esplêndida de um perfil narcísico e infinitamente egocêntrico, cuja ambição é “Dizer”. É pura masturbação.

Sem grandes propósitos nem ilusões, eu escrevo para dentro, num encontro com as letras que me projeta o prazer de organizar as palavras. É um processo voluntário, numa escrita pouco pomposa e totalmente recetiva.

Hoje, sem grandes pretensões, continuo viajando neste universo que não conhece limites, fórmulas nem verdades. É um percurso totalmente desinteressado e cada vez mais desvinculado de metodologias que se querem universais. É um exercício subjetivo, simples e honesto.

E é esta honestidade que me obriga a admitir que, sobre esta madrugada, nada mais tenho a escrever. Retiro-me.

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