A moçambicanidade nos diálogos geracionais

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Vários literatos já tentaram responder, em vão, à pergunta para que serve a literatura? Até então nenhuma resposta conseguiu abranger o todo da questão, por mais inteligente e sofisticada que seja.

Francisco Noa, um dos que entre nós contribuiu na busca de uma solução, concluiu que na arte da escrita reside um fascínio pelo desconhecido, impensável e uma relação com os nossos “eus”.

Cada época produz a sua resposta sobre o papel da literatura. Com o atravessar de gerações, os significados alteram-se num processo contínuo. “Geração XXI: Notas sobre uma nova geração de escritores moçambicanos”, de Lucílio Manjate, entra na rota a partir da busca dos signos, que a literatura moçambicana de hoje transporta.

Nesta colectânea de artigos publicados no “Notícias” e noutras publicações, estão trabalhados diálogos que os textos moçambicanos estabelecem entre si. Cada artigo descortina os traços característicos e tenta atingir parte do alcance, que os referidos discursos pretendem atingir.

Através de uma escrita leve, como é característico em Lucílio Manjate, estas notas sugerem que o sistema literário moçambicano já tem algumas marcas próprias. Nesta romaria, recorre-se, por exemplo, a Gilberto Matusse, para referir que a almejada moçambicanidade literária é parte das preocupaões da nova geração.

Situando as gerações entre os dois conflitos bélicos, que assolaram o país, que as podemos designar “pós-independência” e “pós-acordos de Roma” – já que ainda há receio em assumir-se que já existe uma “pós-Charrua” -, de forma lúcida e coerente, decalca a herança da segunda em relação à primeira.

De acordo com “Geração XXI”, os escritores que começaram a publicar em livro na primeira e segunda decáda deste século têm em nomes como Luís Bernardo Honwana, Mia Couto e Ungulani Ba Ka Khossa, por exemplo, as suas referências.

Está-se nesta obra a referir-se aos prosistas e poetas Aurélio Furdela, Mbate Pedro, Hélder Faife, Dom Midó das Dores, Rogério Manjate e os colectivos Movimento Literário Kuphaluxa, Arrebenta Xithokozelo, bem como, a antologia de contos criminais moçambicanos “O hambúrguer que matou Jorge”. Ao receber a estafeta, a “nova” geração prossegue com alguns discursos de outrora.

Este exercício é flagrante quando Manjate recorda que uma das crónicas da colectânea Pandza, impressa em livro, de Hélder Faife, cita o texto “Nós matamos o Cão Tinhoso” – bem posicionado no nosso cânone – de Luís Bernardo Honwana.

Esta juventude apresenta, nalguns vértices e noutras nuances, casos em que desconstrui anteriores formas de pensamento.

O discurso exposto nesta obra conduz a reflectir a forma de pensar e perceber os mundos dos moçambicanos, através da literatura. Ao discutir, por exemplo, a forma como Mia Couto e Clemente Bata tratam da gravidez, pode-se ter um roteiro para compreender como a sociedade percepciona esse tipo de questões.

A religiosidade, que é objecto de Dom Midó das Dores, na obra “A Bíblia dos Pretos”, o diálogo sobre a morte, a questão da vitimização face às adversidades da vida, são outros momentos em que a estrutura do pensamento social vê-se reflectido na mais recente obra de Lucílio Manjate.

Com efeito “Geração XXI” torna-se uma voz importante para perceber a zona de contacto entre ambas gerações que – obviamente – são fruto de contextos sociais, históricos e, consequentemente, culturais diferentes.

Os pontos de convergência patentes na obra pecam por ignorar a influência de outras literaturas na construção dos “pós-acordos de Roma”. Há certamente um contributo da América Latina, da Rússia, lusitana na formação dos escritores, que já reivindicam um lugar ao sol, que lhes é negado pela academia ao não estudá-los.

De alguma maneira Lucílio Manjate nos recorda, a partir desta colectânea, a resistência que, noutros tempos, os críticos e outros gatekeppers da época apresentaram face aos escribas que começavam a surgir. A história é cíclica: a geração Charrua teve de enfrentar a geração da poesia de combate.

O livro está dividido em três partes: Diálogos, Roteiros e Outras Notas. Sendo o segundo e o terceiro dedicado a discutir as obras e os movimentos literários, que marcam esta geração surgida no novo século.

Não escapou ao crivo analítico os espectáculos gratuitos de péssimo gosto que as estações de televisão, rádios, eventos comemorativos oferecem de pseudo-poetas.

Lucílio desconfia que a “novíssima geração” mandou “passear” as referências anteriores. Está presa ao imediatismo. Estão ansiosos por aqueles 15 minutos de fama descritos por Mia Couto. Essa geração conquista o seu espaço nas redes sociais alimentada por likes e partilhas.

Por outro lado, esta obra pode ser lida como uma acção política, a levar em consideração, que vários relatos de estudantes e escritores queixam-se da Faculdade de Letras e Ciências Sociais da Universidade Eduardo Mondlane (FLCS-UEM) estar a ignorar a nova vaga de escritores.

“Geração XXI: Notas sobre a nova geração de escritores moçambicanos”, é como disse o autor na cerimónia de lançamento, “um risco necessário”. Para quê que serve a literatura? Talvez para perceber a forma de pensar de uma época.

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

 

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