Entre as gavetas do passado

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MAURO BRITO

Pelo músculo erudito do poeta Rui Knopfli, descobri o sabor metafórico das mangas destas terras, de Norte a sul. Do Zumbo ao Índico. Alimentando o imaginário continuamente, ano após ano.

Enunciou por versos belos e intensos em “Mangas verdes com sal” (1964), muito embora pelo meio de figuras de estilo, desenrolou as suas impressões de uma Lourenço Marques por vezes agressiva e amarga. Rui manteve-se sempre fiel à forma e o cuidado linguístico em sua obra.

Não é das mangas, dos seus versos que quero falar, mas das impressões destas como ponto de partida. O facto é que uma das mais esperadas frutas do ano é a manga. Julgo que não há outra mais tão bem falada e desejada. A manga verde, que a estas alturas enche as copas das mangueiras e pinta os quintais. O seu aroma espalhando-se a partir de princípio de Setembro.
Na verdade não é verde nem madura. É um misto de ambos, que assume vários nomes de acordo com os contextos, o tipo, e a qualidade. As mangas convidam a todos com os olhos bem vivos e o apetite aguçado, dos miúdos aos graúdos. Regra geral são especificamente de uma qualidade as que povoam as esquinas de Maputo, nas escolas e as coloridas bacias das senhoras que movimentam-se numa coreografia própria. Memória são tantas… no menu: mangas, sal, uma faca bem afiada.
É “De vez” ou “vece”, que consiste no estágio entre verde e madura, em que não está mais tão ácida como a verde, e ainda não está doce e mole como a madura. Esse é o estado perfeito, e os mais experientes conhecem só de tocar a fruta e o momento certo de arrancar dos ramos.
Quase sempre é notável nas Escolas uma azáfama pelas esquinas onde vende-se de tudo um pouco. As vendas só crescem apesar das recomendações dos pais, que dizem fazer mal (naquela altura) comer manga verde com sal. Para nós tinha aquela sensação de proibido. Apesar de sentir uma gastura desagradável nos dentes quando comíamos demais, não dava para recusar devido à comilança. E tanta vezes as refeições foram ignoradas em troca delas…

Rui Knopfli me levou, pela luz dos seus versos, me levou a outra questão, referente,  a proveniência do dito fruto, ora dos vizinhos, dos outros amigos, de conhecidos, supermercado não, que nessa altura o agronegócio ainda se definia. Tinha que ser tirada da árvore, que muitas vezes, era da casa de algum vizinho chato e mau. Por azar ou por sorte havia sempre esse contraste ( os que tinham as melhores mangas nos quintais, eram egoístas, com excepção de um e outro que tinha um bom coração).

O furto era praticado de várias maneiras. Quando não havia ninguém em casa, era na base da pedrada; quando era necessário ser silencioso, com varas, e, quando corria o risco da manga cair sobre um telhado e fazer estrago, era acoplada uma lata/garrafa PET cortada na ponta da vara, para que, ao picar a fruta, esta caísse no vaso sem desfazer-se. Eram técnicas variadas, uma para cada situação. E nunca eram ensinadas, nascia-se com ela.

As fotografias do poeta fez-me rever ainda os dois tipos de comedores. O tfotografiaradicional, que usava sal puro, e o mais sofisticado. Esse último não se contentava em roubar um bocado de sal escondido do saleiro da mãe. Gostava de variar os temperos como se de um prato se tratasse. Nesses casos, o risco de ser descoberto era bem maior, pois era facilmente percebida a redução nos temperos ( tudo era tão pouco e limitado) quando a mãe ia fazer o almoço no dia seguinte. O grande truque era chamar a malta e cada um era responsável por trazer um bocadinho de tempero diferente de sua casa. Dessa forma ficava mais difícil das mães suspeitarem.

Por ter tanta intimidade com essa iguaria, que habita os nossos imaginários, e que todos os anos é reactivado, confesso que fico com ciúmes quando, em minhas andanças por aí, vejo as meninas e meninos em debadada só por conta das mangas, e logo as memórias reactivam-se mas penso na metáfora e no sal que elas carregam, com votos de que possam condimentar as vossas memórias ainda verdes.

MANGAS VERDES COM SAL
Mangas verdes com sal
sabor longínquo, sabor acre
da infância a canivete repartida
no largo semicírculo da amizade.
Sabor lento, alegria reconstituída
no instante desprevenido,
na maré-baixa,
no minuto da suprema humilhação.
Sabor insinuante que retorna devagar
ao palato amargo,
à boca ardida,
à crista do tempo,
ao meio da vida.

Rui Knopfli, in “mangas verdes com Sal”

 

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Mauro Brito

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