Uma alma velha que não conseguiu beijar os pés do Cristo Redentor (1)

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O convite já estava feito por Tom Jobim, há já alguns anos, quando apresentou-me aquela moça que passa e deixa o mundo inteirinho se enchendo de graça por causa do amor (embora clichê, é sincero).

João Gilberto veio reforçar descrevendo um apartamento onde há muita calma para pensar e tempo para sonhar, a frisar que da janela via o corcovado. “Quero a vida sempre assim (…)”, me disse, eu, encantado, indagava o quê que isso tem de mágico?

Quando desliguei a música, o Fernando Sabino esticou a mão para me levar a ver aquele casal, pobre, soprando a vela num pedaço de bolo, no aniversário da sua filha, num barzeco, algures na Gávea.

Eram esses três retratos que andavam comigo, quando num acto distraído, no chão da Avenida Karl Marx, próximo da queimada Kayum, um ardina exibi-me a capa de Rubem Braga, “Ai de ti Copacabana”.

Cheguei em casa triste porque não deu para comprar, a minha metical debibildade – como diria o Leonel Abranches, na época da Missanga – não me permitiu levá-lo comigo, de mãos dadas.

Quando já não suportava as provocações dos cariocas, convidei o Redentor para uma conversar com Samora Machel. Levei-lhe à Avenida Guerra Popular, a ponte-cais da travessia Maputo-KaTembe, ao Estádio da Machava, de Zimpeto, enfim, passeamos pela cidade e fomos sentar ali na catedral a ouvir Wazimbo, num concerto no “Franco”.

Enquanto descíamos, algumas horas mais tarde, para o Gil Vicente, dávamos gargalhas para aproveitar o máximo porque João Gilberto já tinha avisado que tristeza não tem fim, felicidade sim. Reparamos que as caretas nos rostos tomados pelo sorriso, na mão uma garrafa de algum algo, não se reflectia no Samora. Notamos que ele não se contagiava. Ambos lamentamos que ninguém parava para oferecer-lhe pelo menos um gole de cerveja. Nós até tínhamos as nossas, mas eram as únicas. Eu dei-lhe uma 2M e ele entregou-me uma Brahmas.

Ao amanhecer, ali em frente ao Jardim Tunduro, nos despedimos, na promessa de voltarmos a nos encontrar, num dia desses. E ele foi, de volta, para o alto, lá acima das nuvens.

A cumprir a promessa, sem aviso prévio, senti que minha alma canta quando vi o Rio de Janeiro, o Cristo Redentor, de braços abertos sobre a Guanabara. O Tom Jobim parecia estar a minha espera, de tal modo que preparou-me um samba do avião, que me recebeu ao amanhecer do primeiro dia de Novembro.

Entristeceu-me ver que o Redentor se escondeu nas nuvens que passeavam nos seus joelhos, justamente no dia em que eu cheguei. Acho que escondeu-se para chorar as suas tristezas, porque para fazer churrasco não seria. O carioca sabe que comer é alegria, é satisfação e que o Homem nasceu para o prazer, como já terá dito alguém.

Na procura de outras possíveis respostas para a opção pela solidão do meu conviva, coincidentemente, em Botafogo, na zona sul, cruzei-me com Nelson Mandela à espera dos voluntários da pátria e perguntei-lhe. Ele simplesmente olhou-me profundamente antes de dizer que ainda era cedo para me explicar.

Cabisbaixo, não ignorei que pudesse se tratar daquele assunto bicudo que Waldemar Bastos repetiu ser proibido, como já lhe tinha transmitido a Velha Chica.

Alguns dias depois, no metrô, vindo da Pedra do Arpoador, ali depois do Posto 9, na praia de Ipanema, alguém me pediu que passasse para a direita, se quisesse continuar a andar devagar. Ao reparar as minhas costas, rostos aborrecidos me encaravam, porque eu não tinha deixado a esquerda livre. Será que o Cristo está chateado pela mesma razão?

Com essa questão a passear nos meus neurônios, notei que o sorriso carioca que funciona como uma espécie de chave de afecto para abrir as portas para o outro, esvaziava-se quando, por tropeço – pareceu-me que estivessem todos com problema nos pés – a conversa caia nesta frase: não sei o que será do Brasil no futuro.

Num papo, no Restaurante Ronald de Carvalho, na rua Amir, Copacabana, outra pessoa terá comentando que a esquerda branca também está encurralada. “Estão a vir tempos muito difíceis para o Brasiu”.

Enquanto procurava um parágrafo para concluir este pequeno texto, me recordei que já estou com saudade do Rio de Janeiro. A razão é que, senão em Inhambane, quase nunca tenho a oportunidade de, novamente, encontrar os mais velhos e eternos amigos.

Estas últimas letras são a lágrima de quem não pôde beijar os pés do Redentor, porque ele estava mais ocupado com as suas dores, que não permitiu que eu fosse lá ver-lhe naquele estado frágil, que todos temos resistência em mostrar para o mundo. Me diz, caro leitor, quem nunca se trancou o quarto para chorar?

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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