Próximo Ano

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(Irmão, foi um prazer conhecer-te)

Convicto de que não sairia de casa, recordei-me que há muito não via um irmão que as circunstâncias me deram de presente. É meu sangue.

A expectativa era meia hora e acabou sendo o dia todo. Há muito que não nos víamos. Conversa, boa mesa, debates na STV sobre a mulher (digamos, lindas mulheres, não me parecem rabisco. Provavelmente foram desenhadas por um buda  ou por aquele do Monastério de Aliocha).

Uma cerveja, após certa insistência, nós agradecemos e festejamos desta forma, desceu-me, gelada, goela abaixo. Pecado cometido, embora consciente.

Na tasca, lá estavam os patrões da zona, a castigar o fígado desde que o dia nasceu. Bravos valentes, acreditam-se.

Depois dos cumprimentos e papos de praxe, apresenta-se o Próximo Ano. “Na minha zona, onde cresci, me chamam Próximo Ano”, disse. Quase descobri, naquele instante, como Samora Machel, ali em frente ao majestoso e belo edifício do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, consegue manter-se na mesma posição, ignorando comichões. Estupefacto. A temperatura baixou ainda mais, um ar gelado tal qual aquele para o qual Aldino Muianga, na Contravenção”, nos transporta ao descrever Lichinga.

“Eu já vivi muita coisa na vida e ela mudou daqui-para-aqui”, prosseguiu, sem ninguém lhe tivesse questionado. “Assim fugi para estar mais à vontade, lá, onde moro e na zona da velha, onde construí a minha primeira casa, tenho que cumprir papéis, em função do meu status. As vezes me apetece beber na barraca, por isso estou aqui, no Maxaquene!”

Próximo Ano foi explicando que na sua vida, muitas vezes, tem de colocar máscaras, para representar em diferentes palcos. E que o seu nível era demasiado elevado. Conforme o acordo rubricado, continuou, abdicou de muito que gosta para se inserir na sociedade. A contrapartida são estes, disse, breves momentos de lazer.

– O autoconhecimento é essencial para elevares o teu patamar. É preciso dominar a linguagem corporal.

Alguém, que cuidadosamente acompanhava o relato do meu amigo, a título de exemplo, contou como escapou da polícia usando estas armas.

Próximo Ano é homem de conversa, ele manipula o verbo, reconheça-se!

Acabamos nas suas explanações sobre como se atinge tal estágio, segundo explicou, no final do dia, sempre tem uma conversa consigo mesmo, cujo momento mais chocante, é quando dos seus dois “eu”, o mais comportado, lhe questiona as suas atitudes.

– Pergunta-me mesmo, qual é a cena irmão? Isto não fazia parte do plano, não consta do acordo.

Nos intervalos da entoação das suas odisseias pausava para sorver os goles da “xigazana” de 2M que segurava em sua mão direita, quando a esquerda repousava no balcão. Igualmente, nesses instantes, lançava galanteios a dona da barraca, já seduzida pelo Galã.

Meu estado de espírito, ainda queria saber, porquê Próximo Ano? Será alguma frustração que lhe faz adiar a atitude? Será uma esperança?

– Em um ano construí a minha casa, comprei o meu carro, tive a minha filha e tudo aconteceu – daqui-para-aqui.

Não queria pecar com mais uns goles e quando me retirava, ele disse, “próximo ano será melhor”.

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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