VALETE: Ainda sou marginalizado devido à cor da minha pele

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Por Hélio Nguane e Deanof Potompuanha
Idealista, com o apoio de amigos, gravou o seu primeiro álbum: “Educação Visual” (2002). A repercussão do trabalho discográfico motivou-o e mais tarde surgiu “Serviço Público” (2006), que levou a sua música às massas. Há uma década que o rapper português Valete prepara o seu terceiro disco, que promete lançar em breve.
Apesar dos holofotes da fama e dos milhares de seguidores que tem na lusofonia, quem visualizar o seu rosto, encontra um indivíduo tímido, introspectivo, reservado e humilde. Hoje, mais maduro, encara o mundo de forma mais crua e, até, de certa forma, sombria.
Nos momentos de solidão, recorda do pai que foi levado por um cancro no fígado. O trauma da perda lhe persegue até hoje. Tentou mergulhar-se no álcool e na frustração, mas a música o resgatou. No inédito tema “Johnny Walker” retrata alguns episódios desta fase da sua vida. “Estava completamente destruído, destroçado, o meu pai acabava de falecer. Vivi um estágio de depressão profunda. Na altura, pensei que nunca pudesse sair daquele martírio: se puderem baixar as luzes, eu quero que vocês sintam a mesma escuridão em que estava naquela altura”, disse, o artista que, recentemente, esteve no país e foi um dos astros que brilhou no palco da oitava edição do Festival Azgo.
Apesar dos seus cerca de 20 anos de carreira, Valete ainda se sente mais um cidadão negro em Portugal, que diariamente é ostracizado, marginalizado e tem dificuldade para exaltar a voz e expressar com liberdade o que lhe vem à alma.
Apesar das dificuldades luta por um ideal, revolucionar através da música Rap, protestar, contar histórias censuradas pela media e ajudar a potenciar e emponderar os jovens, principalmente das zonas suburbanas. “O Hip-hop é uma contracultura, um movimento progressivo que tenta criar o novo”, defende, acrescentando que o hip-hop está cada vez mais vazio e os seus fazedores estão a optar pela exibição, consumismo, práticas que concorrem para a destruição do planeta.
 
O artista crítica o rap actual, considerando estar cada vez mais superficial (foto: Isaías Sitoe)
Conforto financeiro torna hip-hop vazio
O rapper português com descendência são-tomense considera que a sociedade é hostil, não favorece as pessoas, não é humanista. Todavia, o jovem de 37 anos, considera que o hip-hop tenta criar essa coisa nova.
“É um movimento progressista que temos que transformar. Como agente desta cultura tento cumprir essas premissas”, reconhecendo que é uma realidade que se vive apenas em Portugal.
Valete aponta que, talvez, em Moçambique e em outros países africanos sente-se mais. “O hip-hop começa a ter dificuldades em países com relativa estabilidade financeira. Na minha opinião, o movimento vai se esvaziando quanto mais conforto financeiro as pessoas têm. Os rappers começam a tornar-se vazios. Sinto muito isso em Portugal, em geral, as músicas tem pouco conteúdo”.
O autor da música “Rap Consciente” acrescenta que há já uma classe média alargada e uma juventude com poucas causas, conquistar e com pouco para se emancipar. Convidámo-lo a fazer a mesma reflexão no contexto africano.
“Conheço mal África, mas genericamente. No entanto, mais do que pobreza, a desigualdade social e é assustadora, tanto em Moçambique como em Angola. Portanto, acho que o hip-hop nestes contextos deve se manifestar de uma forma lúcida”, apontou, referindo que fica assustado por saber que existem poucas vozes que representam “as massas, os problemas das classes mais desfavorecidas”.
A fraca leitura contribui muito para o que ele chama de “rap vazio”, onde há muita oferta de entretenimento e pouca leitura. O avanço das tecnologias, aponta, participa para a destração dos mais novos. Falando da sua realidade, refere que em Portugal, num telemóvel, os miúdos têm jogos, séries, músicas e outras coisas para ocupar o seu tempo. Assim, a relação com os livros é cada vez menor.
“Mas dizer aos rappers, que o profundo está nos livros. Aquilo que é profundo está nos livros. E se eles não chegam lá arriscam-se que as músicas gravitem ali no superficial, é pena que os rappers não conheçam este mundo fantástico dos livros”, aconselhou.

RAP CONSCIENTE” TEM UMA MENSAGEM INTERNA
Um dos seus dois “singles” que marcam o seu regresso 10 anos depois “Rap consciente” gerou muita polémica, a qual Keydji Sedi Lima, seu nome de registo, tenta distanciar-se.
“O rap consciente tem uma mensagem interna, de MCs para MCs, numa altura em que o hip-hop é provavelmente um dos movimentos mais nocivos para o planeta terra. O que os rappers têm abordado, em todo o mundo, é uma das coisas que tem afectado negativamente a juventude e que mais agride o planeta terra”.
O nosso entrevistado afirma que estamos, se calhar, na pior crise ambiental do planeta, e os padrões de consumo deverão mudar. Contrariamente, continua, os rappers estão com um discurso de aumentar os padrões de consumo.
“É uma coisa completamente reacionária: mais carros, mais dinheiro, mais joias, quando chegamos a um estágio das nossas vidas em que vamos ter de reduzir, e o discurso dominante no hip-hop é totalmente contrário”.
Como forma de reverter este cenário apela à mudança de consciência. Em sua visão, as pessoas têm que perceber o que está a acontecer no planeta e optarem por outro comportamento.
“A juventude, pelo menos no cenário português, está a consumir muito “Internet”, sendo que a televisão, a rádio e os jornais estão a ser menos procurados. E na Internet procuram, essencialmente, entretenimento: música, séries, comédia, pornografia. E buscam muito pouca informação”, observou, referindo que é resultado de uma ignorância colectiva.

SOU MAIS UM RAPPER
Apesar da influência que tem no hip-hop lusófono, o rapper não assume que o cenário a que chegou o movimento não tem relação com a paragem de uma década da sua carreira.
“Eu sou mais um rapper e com todas as minhas capacidades, tento, às vezes, mal feito, passar mensagens positivas e conscientes nas minhas músicas. Sinto que sei muito pouco e preciso de aprender muito. Estou mais numa posição de aprendizagem do que de ensinamento”.
Para Valete as pessoas estão a reproduzir uma ignorância extrema por falta de informação. “Há um rapper de ostentação em Portugal, que lhe disse se toda a gente viver como tu queres viver o planeta já não existiria. Ele não tinha esta informação. Quando eu disse isso fez-se luz na cabeça dele. Acredito que o comportamento dele será relativamente diferente daqui em diante. Pode não ser uma mudança drástica, mas pelo menos já tem esta informação e ele pode ser um vilão consciente, mas pelo menos já sabe. O problema é que temos muitos vilões inconscientes”.
Vidis, como também é conhecido Valete refere que este grupo de rappers acha que está a fazer uma coisa “fixe”, curtir a vida, mulheres, carros…e no contexto em que vivemos e a forma como o hip-hop afecta os jovens é muito nocivo.
Valete (1)
 
MORTE DO MEU PAI ALTEROU A MINHA PERSONALIDADE
A morte do pai de Valete alterou a sua personalidade. O rapper acompanhou a luta do seu progenitor contra o cancro, mas a doença foi mais forte. E quando a morte chegou, o nosso entrevistado não conseguiu superar. “Tive uma depressão muito ‘lixada’. A situação fez-me pensar sobre muita coisa: a vida, morte, o nosso papel na terra”.
Vidis diz que se tornou uma pessoa mais reflexiva e apesar de ainda continuar num estágio depressivo, acredita que o sentimento vai afectar a sua música, que deverá ser cada vez mais escura.
“Sinto que não vou recuperar, o episódio mudou a minha vida. É dessas situações que fazem as pessoas alterarem a sua forma de encarar o mundo, mudem”, disse, assumindo que são precisos estes tipos de acontecimentos para levarem os seres humanos a fazerem reflexões profundas, que façam chegar ao auto-conhecimento e até ao sentido das coisas, da vida, da importância que tens para as outras pessoas e para a sociedade.
O rapper que começou a rimar na década de 1990 diz que não havia marcas ideológicas nas suas letras. Mas teve influências. “Lembro-me de ter tido um professor de filosofia que me marcou muito e levou-me muito a correntes da esquerda mais combativa e revolucionária. Fiquei ligado a isso e a minha música também”. Reconhece.
Hoje, mais velho, mais experiente, sinto que o pior erro que podemos cometer é venerar Homens e seguir Homens. “É importante seguir ideias, chegares ao auto-conhecimento para saberes o que faz sentido para si. E esta coisa humanista está em mim e acredito que o hip-hop existe para transformar o que existe”.
No seu primeiro álbum “Educação Visual” expôs-se pouco, facto justificado pelo artista por ser negro em Portugal, que é uma coisa muito difícil, e num contexto cultural, musical.
“Há muito poucos negros músicos com relevância em Portugal. Não por falta de talento! A integração do negro naquele país europeu é uma coisa muito incompleta. Apesar de estar a viver há muito tempo, ainda é muito difícil encontrar celebridades negras”, relata amargurado.
A ideia da rejeição parece ainda bem patente, chegando a emocionar-se ao falar do assunto. O artista relata que naquela sociedade, os negros sentem o perfume imundo do racismo e da rejeição em todas as dimensões.
Conhecedor da matéria em todas as suas nuances, afirma que vem estudado o assunto o que lhe dá a certeza de que “o português racista não é um vilão, é uma vítima. Foram séculos de escravatura, uma quantidade de anos de colonialismo. Assim, era impossível que o país não produzisse racismo”, explica.

VÍTIMA DA OPRESSÃO RACISTA
Valete defende que na sua nação existe um racismo institucional, que vai levar algum tempo para deixar de ser realidade. A situação persiste, pois as pessoas são vítimas e diariamente são bombardeadas por uma construção social negativa do homem negro, que o transforma num individuo anti-social e violento.
O rapper chama atenção para a necessidade de desconstruir o racismo institucional, responsabilidade que atribui ao Estado.
“Portugal ainda hoje tem nome de ruas de pessoas que foram esclavagistas. A forma como se apresenta a história da África, do homem negro em África é muito ofensiva, o país tem de mudar isso rapidamente. E mais, o racismo é crime, mas não há ninguém que tenha sido criminalizado por prática de racismo. Isso tem a ver com educação, porque as pessoas não nascem racistas”, referiu.
Em 2015, foi anunciado que Francisca Van Dunem, negra de origem angolana, será a próxima ministra da Justiça de Portugal. A nomeação foi uma das surpresas do Governo liderado por António Costa, que também abriu espaço para maior participação política dos ciganos.
Para muitos, as medidas são alguns passos, embora tímidos, que podem ajudar mostrar que o país está a lutar contra o racismo e os estereótipos. Valete olha para os factos com cepticismo e espera que acções não sejam meramente decorativas.
“É difícil a ascensão de um negro a figura pública em Portugal, isso é mesmo muito difícil. Então, as pessoas crescem a ver isso, e acreditam que a sociedade funciona assim”, afirma, explicando que “o negro, por vezes, quer ir a uma discoteca para se divertir, disposto a gastar o seu dinheiro, mas é barrado, há tipos de emprego que os negros ainda não conseguem.
O artista diz ser produto deste comportamento social que existe em Portugal, e a sua música vai se manifestar desta forma.
“Eu sinto que eu não sou um cidadão português que consegue manifestar tudo o que tenho cá dentro. Não consigo porque eu me sinto oprimido”.
 
 
Veja a nova música de Valete:

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