O cruzamento do B

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OS artistas plásticos Bata (Manuel Fernandes Bata) e Butcheca (Moisés Ernesto Matsinhe Mafuiane) intercalam as suas obras de pintura e escultura na Galeria 1834, no bairro da Malhangalene, em Maputo.

Este é um cruzamento de dois discursos diferentes, tanto sob ponto de vista técnico, quanto estético.

“B” é o título da exposição. Maria Elisa, co-curadora da mostra, conta que, juntamente com outros curadores, o artista plástico Gonçalo Mabunda e o fotógrafo Mauro Pinto, fizeram um sorteio de letras e “saiu B”.

Com efeito, prosseguiu a co-curadora, convidaram Bata e Butcheca para expor o seu trabalho. O primeiro por ser residente do bairro e o segundo pelo facto de a sua escultura conter elementos que se relacionam com Malhangalene.

Em telas de pintura, com recurso à técnica mista, em meio a tintas vivas, com relativa palidez, Butcheca apresenta fragmentos das memórias das suas andanças pela vida, exibindo, na sua colecção, uma obra inédita na qual homenageia a lenda da música moçambicana Fany Mfumo.

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Maria Elisa, Butcheca e Bata

“Ele é uma escola de música. Eu levei muito tempo para perceber isso, simplesmente ouvia, mas hoje acho que Fany Mfumo é o melhor músico que já tivemos”, justificou Butcheca, explicando que o encontra nos seus trabalhos.

O artista plástico manifesta indignação pelo facto de considerar que o autor de clássicos como “Hodi” e “A vasati va lomu”, eternizada na voz de Mingas, ser pouco referenciado quando se fala da música moçambicana.

Sem nenhuma pretensão discursiva, se não de partilhar o seu trabalho, os quadros contam múltiplas histórias, num abstracto com várias pistas que ajudam a indicar o percurso – às vezes tortuoso – que o artista pretende com a sua poesia “transcrita” pelo pincel.

“Pinto aquilo que vivo”, disse Butcheca, comentando sobre uma tela pintada no ano passado, na qual se vê traços e silhuetas com formas de um corpo feminino, de capulana no dorso e uma galinha à sua frente. “Fiz depois de comer uma galinha de Magulu, num desses convívios, é muito boa e dizem que não se pode partilhar, cada pessoa come uma, é para os fortes”, concluiu.

Residente na Malhangalene, a escassos passos da Galeria 1834, de Gonçalo Mabunda, transferiu o seu atellier para o outro lado da margem do rio Espirito Santo, Katembe, onde diz ter mais espaço para o seu trabalho e para a sua criação.

As obras patentes na exposição não levam título, diferente do que é habitual, até porque, conforme disse o artista plástico, faz por gosto, as mesmas não são uma série. “Gosto de pintar em série, mas estas que estão aqui não obedecem esse critério”, esclareceu.

A ruptura de Bata

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Bata

Bata vive em Marracuene e é escultor. A sua formação é a madeira. Foi com ela que ergueu a sua já longa carreira, entretanto nesta exposição apresenta a ruptura, pois passou a trabalhar só com o metal.

“Comecei fazendo colagens de madeira e metal”, conta, antes de revelar que “agora só trabalho com o metal, quero explorá-lo mais”. A matéria-prima são panelas, chaleiras, colheres, fivelas velhas, recolhidas nas ruas, quando se faz a elas e ferro velho comprado nas sucatas.

Com recurso ao alicate, tesoura e pregos faz o seu trabalho. O resultado são discursos complexos, em que, ainda que desinteressadamente, cada peça instalada é um parágrafo.

As obras expostas na mostra são como que telas, nas quais Bata pinta a sua inspiração com a devida transpiração. “ (Nestas obras) há mais lugares para sonho e não se difere muito da pintura”, observa.

As cores das peças que compõem as obras, em tons diferentes, por se tratar de materiais de metais diferentes, conservados em condições variadas, acabam contribuindo na estética dos trabalhos. Estão ali penduradas esculturas e rostos humanos.

Ambos artistas, amigos de longa data, em disciplinas artísticas e estéticas distintas, cruzam-se no resultado do seu trabalho, à medida que o desenho habita o imaginário dos dois, como se depreende.

Inaugurada no dia 2 do corrente mês, a mostra estará patente até ao dia 27, para dar espaço a outra, uma vez que mensalmente há uma exposição.

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