Ressacas de Janeiro: O que foi feito do teatro em 2017?

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Por Guilherme Roda

Estamos em Janeiro, o tradicional mês da miséria e ressaca, bolsos e panelas vazias são os resultados do exacerbado consumismo que nos enferma, quando chega a quadra festiva (festas de natal e fim do ano). Por isso, eis-nos aqui obesos e ociosos, ansiosos para que o tempo se dissolva tão rápido quanto sal na água. E, é de água e sal que são cozidos os nossos dias.

Porque em meio da desgraça não há só escombros, Janeiro é também o mês da retrospectiva e da perspectiva, época ideal para avaliar o ano que já aconteceu, assim como planear o que acaba de iniciar. É nesta senda que com muito agrado tenho lido interessantes textos, em blogs e no facebook, que reflectem sobre o ano de 2017, principalmente, no que diz respeito às artes e letras (o mar em que me quero naufragar).

Chamou-me especial atenção o texto do escritor Pedro Pereira Lopes que de forma tão leve e incisiva nos faz viajar pelos fantásticos mundos dos livros que lhe marcaram o ano e, com uma subtileza de mulher que sabe ser “bela e maldosa ao mesmo tempo” como diria João Paulo Borges Coelho, Lopes consegue ser crítico sem contudo cair na pretensão. Olha que o tipo nem fala dos seus livros, que são das obras literárias mais bem conseguidas em 2017, mas enfim, ser humilde e verdadeiro é arte de poucos.

Agora, voltando a razão disso tudo, há uma questão que me assaltou a mente enquanto lia essas missivas ressacas do ano de que me referi acima, o que foi feito do teatro em 2017? Eis a questão, a razão deste rabisco que decidi esboçar, no chão duro e amargo deste Janeiro de arrependimentos. O que se segue não é uma tentativa de resposta, mas sim uma forma de emprestar mais substância à questão.

Cresceu a programação teatral

Dois mil e dezessete foi um ano de muito teatro na Cidade de Maputo, com espectáculos que preencheram o calendário dos centros culturais de Fevereiro à Dezembro. Tendo chegado a uma média de dois espectáculos de teatro por semana, o que foi uma grande conquista para uma cidade ou país que há anos anda empobrecido de uma programação regular de teatro.

Houve teatro porque houve espaços para o receber, os centros culturais, à Fundação Fernando Leite Couto e Centro Cultural Brasil-Moçambique foram os maiores protagonistas desta proeza, ao abrir suas portas para os grupos e ao incentivá-los com pequenos subsídios, que ajudam a suportar a produção e a semear ânimo nos estômagos dos actores.

Esses espaços “alternativos” têm sido uma grande esperança para os fazedores e amantes do teatro, ao permitir que os grupos (na sua maioria emergentes) apresentem suas performances perante um público eclético e em construção. Um gesto indispensável para o florescimento da arte dramática no nosso país.

Na Beira, o teatro paga-se!

A Cidade da Beira, a segunda maior Cidade do país, faz jus ao título procurando manter viva a chama do teatro. À título de exemplo temos o Auditório Municipal Novo Cine que acolhe quase todos fins de semana, espectáculos de teatro dos grupos Haya-Haya e Chamuarianga, e em 2017 não fugiu à regra, tanto que das vezes que lá estive me deliciei com alguns espectáculos, que embora contem com a participação de grandes actores, falta-lhes direcção, um olhar de um encenador e a mestria de um bom texto. Nada que não se possa remediar.

Felicito ao público beirense que aflui em massa ao teatro e tem a cultura de comprar o bilhete, por favor, contaminem com esse exemplar gesto os “cacatas” dos maputenses.

Mutumbela Gogo - Os Pilares da Sociedade_foto Adiodato GomesDSC_8577

Comentários sobre alguns espectáculos e eventos

Pilares da Sociedade” foi a proposta do Mutumbela Gogo em 2017. A nossa mais antiga Companhia de Teatro (que começou o ano com uma grande perda, o doloroso falecimento da actriz Graça Silva – que deixou, sem dúvidas, um grande vazio em toda sociedade moçambicana) fez reviver o clássico de Ibsen sob o pretexto de denunciar a corrupção que tomou conta do nosso país (e virou moda, quem não alinha é matreco). Segundo uma conversa informal que tive com o filósofo, professor Severino Ngoenha, nos intervalos de aromas e paladares do Akino Café, “foi um bom espectáculo porque trouxeram um texto, é uma raridade teatro com bom texto em Moçambique, mas pecaram em não o adaptar à realidade moçambicana, com que público estão a comunicar?”

Mahamba também deu alguns suspiros de vida com o espectáculo “Pétalas de Sangue” texto escrito por Dadivo José e encenado por Maria Atália, numa produção resultante de uma residência artística que envolveu artistas de Moçambique, África do Sul e Zimbabwe. Não cheguei a assistir, porque me faltaram rands para ir à terra do Madiba, mas pelo feedback dos artistas envolvidos foi uma grande produção e oxalá que neste ano seja exibida aqui em casa.

Quanto a festivais, continuamos com o velho FITI (Festival Internacional de Teatro de Inverno) que realizou ano passado a sua 14ª edição. Há mais ou menos dois anos tem conseguido ocupar o Teatro Avenida, Centro Cultural Franco Moçambicano e Gil Vicente, mas sua produção ainda está enferma de grandes problemas técnicos e financeiros. Sobrevive sem apoios, já faz uma década e meia que vai definhando e agonizando sob os ouvidos surdos do ministério da cultura.

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Organizadores do Festival Internacional de Teatro de Inverno

– “epha, não há orçamento para brincaderinhas, temos coisas mais sérias por tratar…”

– O turismo? Opha… está bem, vamos mudar de assunto.

Mas esse não é o grande problema, os que conhecem o Festival que não me deixem mentir, há uma necessidade de repensar o conceito e toda uma ideologia, se o FITI quiser parar de sobreviver para gozar a vida – o prazer de ser o mais antigo e contínuo Festival de Teatro em Moçambique. Sobre isso falaremos noutra ocasião, mano Quim…

A 14ª edição do FITI contou com mais de 20 grupos de teatro, dentre eles nacionais e internacionais. Do estrangeiro recebemos espectáculos de Angola, Alemanha e Portugal, e desse último país, fomos abrilhantados por uma belíssima performance cujo texto foi adaptado de “Nós Matamos o Cão Tinhoso” de Luís Bernando Honwana, que mais do que uma homenagem a essa grande figura das letras moçambicanas, foi uma demonstração da infinidade de possibilidades estéticas que o teatro contemporâneo nos oferece: o corpo, a música, a luz e a palavra, todos esses condimentos, bem combinados, podem criar uma incrível sinfonia. Parabéns à CIA JGM.

Um dos grandes feitos deste Festival é a oportunidade de intercâmbio entre os grupos nacionais e internacionais, troca de experiências que possibilita o melhoramento da qualidade dos grupos. A propósito da qualidade, há que se repensar na qualidade dos trabalhos que são levados ao FITI pelos grupos.Um Festival, por mais que seja demonstrativo, tem o dever de ser uma referência de qualidade. O problema da qualidade não é só dos espectáculos que passam no FITI, em geral, o nosso teatro está enfermo disso.

Certa vez, depois de ter ido ver o espectáculo “Greve Solitária” encenado pela Gigliola Zacara, escrevi no meu perfil do facebook que “não vamos ao teatro para ser reduzidos”, estava ofendido com o que acabara de ver e essa foi a forma que encontrei para desabafar, queria ter escrito um artigo sobre o “espectáculo”, mas o bom senso falou mais alto. Sou também encenador, se escrevesse, me acusariam de ser pretensioso, mas agora, já que estamos em Janeiro, acho que serei melhor entendido, (risos).

Um espectáculo de teatro deve ser concebido como uma obra de arte, feito com génio e sensibilidade, deve ser algo que nos diga alguma coisa nova, que nos faça repensar a condição do Homem, que seja sublime, e não uma repetição de clichés e lugares-comuns. Se o artista repete a vida para que serve a arte? Responda essa, Dionísio Bahule.

O Festival Literatas, que realizou sua 3ª edição no ex-Cinema 700, actual Auditório Municipal CarlosTembe – Cidade da Matola, tem sido um espaço de promoção da literatura, mas também doutras artes, como é o caso do teatro. No ano passado, acolheu a apresentação do espectáculo “Psicose 4:48” uma encenação de Maria Atália, um marco do teatro contemporâneo moçambicano, que tem feito sucesso dentro e fora de portas desde a sua estreia há mais ou menos 6 anos. É sem dúvidas uma obra atemporal, mas os fãs da sempre irreverente encenadora, tal como eu, pedem por novos trabalhos.

Maria Atália esteve também envolvida em outros projectos como é o caso do “Afriqueer Interacção 1.9: A Criação das Estrelas”, uma produção que juntou artistas de Moçambique, Africa do Sul e Botswana. Este espectáculo de teatro contemporâneo teve a direcção de Warren Nebe e Maria Atália como assistente de encenação. A performance discute a condição dos homossexuais nas sociedades actuais e propõe um mundo mais tolerante e humano, combinando dança e teatro. Teve como palco o jardim Tunduro e o jardim do Centro Cultural Franco Moçambicano. E foi sem dúvidas um apelo ao uso de espaços alternativos, afinal a arte acontece em qualquer lugar. Por mais que nos neguem às salas, a arte nunca morrerá. Há que felicitar o Centro Cultural Moçambicano Alemão por ter acolhido a iniciativa.

Para fechar o ano “em grande estilo” o Kinani – 2017, abriu espaço para teatro, e lá estiveram os espectáculos “A Crise” dos (In)Versos (não estou autorizado a tecer comentários sobre este grupo) e “Mima Pedra” de SufaidaMoyane e Rogério Manjate, deste último posso falar e vos digo, vale a pena ver, é lindíssimo. É autobiográfico, revela-nos algumas peripécias da vida da actriz e para a nossa surpresa nos faz viajar nos clássicos da dramaturgia universal, avivando-nos o espírito com falas da “Antígona”, “Medeia” ou mesmo citando alguns excertos de Bernard-Marie Koltés em “Combate de Negros e de Cães”. Com uma linguagem rica em simbolismo produzido essencialmente pelo corpo, é um espectáculo daqueles que nos faz suspirar com orgulho “há bom teatro em Moçambique”.

Poderia falar do grupo Katchoro, que ao longo do ano 2017, muito fez pelo teatro moçambicano tanto dentro como fora do país, mas não, minha ressaca não o permite, que os outros, banhados de bom senso o façam.

Para 2018 os votos são de que os impostores sejam desmascarados, precisamos de artistas sérios, comprometidos com a arte. Precisamos de actores ou encenadores que nos proporcionem grandes momentos de espectáculo e de reflexão, que a partir da arte dramática se invente e se alcance a transformação do indivíduo e da sociedade.

Guilherme Roda

04 de Janeiro de 2018

5 COMENTÁRIOS

  1. Reflexão bem conseguida, levantaste quase todo o programa artístico”teatro” e com sabedoria soube detalhar minuciosamente o que aconteceu e o que podia acontecer. Espero que esta reflexão bem ressacada tenha chegado aos demais, porque precisam saber o que está acontecer e que existem pessoas como tu que não estão cegas. Forças é o que desejo meu amigo. O megas já estão acabando. Risos.

  2. Boa tarde meu caro, obrigado pela partilha e parabéns.
    Relativamente à peça do Mutumbela Gogo acho que o grupo saiu-se bem com aquele monólogo final do Carlos Cardoso na peça Os Pilares da Sociedade. Tu assististe? O problema é que esse grupo é um crescendo, as peças nunca são iguais e vêm sempre evoluindo. Eu achei magnífica a inclusao desse texto, encaixa que nem uma luva na nossa sociedade mas o que acontece é que a nossa malta está desatenta…
    Acho bem o que disseste sobre o ano teatral entre nós. No entanto, eu daria una nota de especial apreço para a Gigliola Zacara e a sua companhia pelo trabalho desenvolvido: a última peça, baseada no texto da Noêmia de Sousa foi um trabalho de vanguarda que trata de um tema muito delicado, o da homosexualidade. Acho que está aberto o debate.
    Bem haja, e parabens de novo pela peça O crime.
    Aquele abraço
    Matteo

  3. Gostei muito deste texto. Em Moçambique há uma grande falta de massa crítica, se é um amigo que faz diz-se logo que é bom. Gosto de ver um crítico dizer claramente «Não gostei». É indispensável para a formação e públicos e para o artista, claro!

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