“COMBOIO DE SAL E AÇÚCAR” Entre os melhores do mundo e sem dinheiro para divulgar  

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TER uma produção nacional na rota dos Óscares do cinema mundial é digno de prestígio para qualquer país do mundo. “Comboio de Sal e Açúcar”, escrito e realizado por Licínio Azevedo, atirou Moçambique para território. Mas da nomeação para o Óscar, a distância é grande e exige investimentos.

A meio da manhã de ontem fomos à casa do cineasta Licínio Azevedo. Já à entrada, o aroma da cozinha perfumava a casa. Ele estava, como diria um brasileiro, “a pilotar o fogão”, numa conversa descontraída com a sua parceira.

Depois de nos permitir, mais uma vez, assistir à longa-metragem, do género “western”, Licínio Azevedo assumiu que é, “para nós como produção, assim como para o país, um grande orgulho ‘Comboio de Sal e Açúcar’ estar a concorrer para um Óscar. Ainda que não ganhemos”, sublinhou.

Constar dos 92 filmes que estão a concorrer para o mais prestigiado galardão do cinema atribuído pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, fundada em Los Angeles, Califórnia, a 11 de Maio de 1927, é obra, mas não basta.

Estão entre eles mais cinco filmes africanos, sendo um deles “A Ferida”, do realizador sul-africano John Trengove, que recebeu o Troféu de Prata na última edição do Festival Internacional de Cinema de Carthage, na Tunísia, de onde o moçambicano trouxe Ouro, para além de outros prémios.

Porque se trata de muitos filmes, os votantes da Academia não poderão vê-los todos senão os que circularem pelas salas de cinema nos Estados Unidos de América, e num circuito que os atinja.

Foi nesse contexto que o Governo sul-africano desembolsou 150 mil dólares que serão investidos na divulgação do seu filme nos Estados Unidos.

Mas mesma sorte ainda não teve Licínio Azevedo, que até quer quantias mais módicas, atendendo às limitações do país, ou seja, “25 mil a 30 mil dólares seriam suficientes para aquilo que queremos”.

O dinheiro será para questões logísticas e para contratar uma empresa de relações públicas especializada na área divulgação do cinema nos Estados Unidos. Essa possibilidade já daria alguma esperança acrescida, pois os votantes teriam a oportunidade de ver a produção.

Um Sol intenso se fazia sentir na cidade. Mas o verde da casa do cineasta era protector. A leve brisa que circulava roçava um conjunto de bambus pendurados de forma artística e que emitem algumas melodias. “Dizem que espantam espíritos”, disse a parceira do cineasta.

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Licínio Azevedo

Obviamente que não é nada como a banda sonora composta por João Carlos Schwalbach para o filme, mas cria outro ambiente no lugar. Voltando ao filme, Licínio disse acreditar que essa divulgação poderia abrir mais oportunidades.

Entre os critérios de peso para o Óscar, “Comboio de Sal e Açúcar” já vai em relativa vantagem, pois já possui alguns prémios internacionais, o que dá mais prestigio e é sinónimo de reconhecimento internacional.

Os galardões estacionaram-se na casa do cineasta desde a estreia do filme, no Festival Internacional de Cinema de Locarno, na Suíça italiana, na qualidade de Melhor crítica. Depois foi Melhor Ficção, em Joanesburgo, Melhor Realização, na cidade de Cairo, mais uma vez Melhor Realização, com o acréscimo do guião, em Marrocos. Tendo concluído na Tunísia.

No percurso do “Comboio”, vários acontecimentos desenvolvem-se para alimentar a trama e dar corda à tragédia. Cada um com a sua peculiaridade. Chama atenção minuciosidade com que o argumento foi construído.

Embora a história seja do amor entre um tenente e uma enfermeira, há várias outras que brotam, ombreando protagonismo.

Há, neste filme, a ilustração, como descreve a parceira de Licínio, Sandra, “uma certa demonstração da luta da mulher moçambicana”.

O seu argumento tem como sustentáculo o facto de a maioria dos passageiros civis, com papéis de realce, serem mulheres à busca do açúcar, na troca pelo açúcar, assim como uma mãe que perde a vida fugindo do seu esposo que se recusava assumir a paternidade.

Há ainda a enfermeira que é introduzida numa realidade que desconhece. Em meio a isso, desenrolam-se situações de abusos sexuais por parte de alguns militares que tinham a missão de proteger o embarque.

Aliado a essa temática, “Comboio de Sal e Açúcar” ilustra a laicidade na qual o país sempre soube viver. Há na tripulação um cristão, um muçulmano e um animista. Todos em constantes orações. Embora diferentes as crenças, o propósito era o mesmo: chegar ao destino com vida.

Os relatos que chegam de Mocímboa da Praia, onde ao que se suspeita trata-se de radicalismo religioso, vai em contra-mão dessa coabitação sã. “Há muitos anos que prevíamos que poderíamos ter episódios daqueles”, disse o cineasta.

A sua constatação, segundo contou, foi a quando da produção do documentário “A Ilha dos Espíritos”, na Ilha de Moçambique. Licínio, pelo que recorda dessa película que estreou no IV Dockanema, em 2009, o propósito era justamente chamar atenção para esse risco.

O que estava a acontecer era o envio de muitos menores para estudar em madraças isoladas do resto do mundo, nalguns casos em regiões com focos de radicalismo e extremismo.

“Como é que essas pessoas regressam? Quem são elas?”, indagou Licínio Azevedo, para quem aquele é um caso a observar-se com mais rigor.

Na sala dos melhores do mundo

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NIPITA

ANTÓNIO Nipita representou o personagem do Comandante “Sete Maneiras”.

Uma figura de pouca fala no filme, mas já despido desse papel, Nipita é, na realidade, bem mais social. Por isso, não nos espantámos quando se juntou  à conversa.

O actor assumiu o seu orgulho de ser parte da primeira produção nacional que concorre a um Óscar.

Até porque, pelo que disse, “na infância não me imaginava actor, a vida é que me levou a esta profissão”.

Com um personagem de relevo nesta produção, que, seguramente, entra para a história da cinematografia nacional como o primeiro filme moçambicano a ir a Hollywood, o “Comandante Sete Maneiras” confessa que gostaria que houvesse apoios para a divulgação desta obra, pois isso possibilitaria ilustrar o filme aos votantes da academia.

Esta produção, diz Nipita, coloca o país na rota internacional do cinema, pois, de agora em diante, haverá mais atenção aos filmes feitos em Moçambique.

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