CASA DE MADEIRA E ZINCO: Um património cultural a preservar

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A casa é o primeiro mundo que se conhece de forma consciente. A estante à moda antiga. O sofá gasto com a esponja à espreita. A escrivaninha no corredor com um vazo de flores artificiais. A foto do clube favorito do pai e o “jeitinho” de abrir e fechar a porta são memórias que “habitam” a gente lá de casa.

Para os residentes da Mafalala, é na casa de madeira e zinco que estes símbolos estão instalados. E eis porque razão pretende-se elevar estas moradias a património cultural.

Num seminário decorrido há dias na Sala Nobre do Conselho Municipal da Cidade de Maputo, para reflectir sobre o “Património Cultural Suburbano” desta urbe, a necessidade de preservação das antigas casas que configuram a periferia, sobretudo, o emblemático bairro da Mafalala, foi defendida por alguns académicos lá nascidos e crescidos.

No livro “A velha casa de madeira e zinco”, o escritor e intelectual Luís Bernardo Honwana, conta que na segunda metade do século XVIII estes imóveis eram habitados pelos colonos portugueses, “instalados lá para os lados do Alto-Maè”.

Com o desmantelamento dessas casas, prossegue a narração, no espaço urbano, em que já começava com a tendência de edificação de residências de alvenaria, o material foi vendido a famílias suburbanas, que, gradualmente reproduziram o modelo. “Naturalmente reproduzido com inevitáveis adaptações”, detalha o escritor.

Apelando à necessidade de se incluir o quotidiano das periferias de Maputo na história oficial do país, Luís Bernardo Honwana escreveu, no texto que dá título ao seu segundo livro – “A Velha Casa de Madeira e Zinco” – escrito depois do emblemático “Nós Matamos o Cão Tinhoso”, que até há década 30 do século passado, os subúrbios já eram configurados por madeira e zinco.

O escritor descreve que as construções típicas eram a barraca de quarto e sala, designada “casa de uma água (reflectindo o número de caimentos) ”, ‘compondes’ –quartos singulares. As famílias de renda mediana tinham casas com um ou dois quartos e uma sala de jantar.

Por unanimidade, continua Honwana na sua narrativa, a cozinha e a casa de banho eram exteriores. No quintal, dos ligeiramente abastados, havia uma dependência que servia de quarto de hóspedes.

“As casas mais bem elaboradas, designadas ‘chalés’, tinham maior número de quartos e um tecto de inclinação mais pronunciada, com várias superfícies de caimento. Eram habitadas por famílias de maiores posses”, lê-se no artigo de Luís Bernardo Honwana.

Possuir uma casa de madeira e zinco, ainda que na periferia de “Kam’phumo”, era indicativo de idoneidade social e respeitabilidade, daí constituir orgulho e razão de segurança do agregado familiar.

A simbologia à volta da casa

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Hélio Nguane, jornalista e técnico superior em Publicidade e Marketing. Foto de I. Sitoe

Hélio Nguane, jornalista deste matutino e antigo morador do bairro da Mafalala, na qualidade de orador do tema “A casa de madeira e zinco como património histórico e cultural de Maputo”, falou à volta do significado que essas casas têm para os moradores.

“A casa é o primeiro núcleo, o primeiro espaço em que ganhamos contacto com o mundo”, disse para contextualizar a importância que o edifício de madeira e zinco possui para quem nela cresceu.

Pelo facto destas moradias fazerem parte do bairro, o orador convida a sociedade a olhar para a casa de madeira e zinco como um ícone a se ter em conta, enquanto personagem, que recheada de significados para as gentes que habitam a Mafalala.

Não pretendendo recusar, com isso, o desenvolvimento uma vez que, pela localização geográfica do bairro, não deixa de ser apetecível aos olhos da indústria imobiliária luxuosa e ostentosa que dia-pós-dia está a fazer nascer mais um prédio, a intenção é que se catalogue algumas e se guarde para a preservação, enquanto património cultural que integra a narrativa sobre a cidade capital.

Durante a sua locução, Hélio Nguane destacou o capital económico que daí pode advir, pois, poderia ser explorado como objecto que alimentaria o turismo urbano, que vai para além do paisagístico, passando a dedicar atenção, também, aos elementos históricos.

De forma a colocar as casas de madeira e zinco no mapa da aldeia global, a sugestão do também técnico superior em Publicidade e Marketing é apostar nas redes sociais e na internet para a sua difusão.

A internet fez perceber que surgiria como montra onde se exibiria este património com recurso a uma descrição profunda, na qual se deixaria claro não tratar-se apenas de “um conjunto de zinco enferrujado e madeira velha”.

Foi neste contexto que, reconhecendo a possibilidade de, devido à antiguidade das casas, algumas já em avançado estado de degradação, a sua sugestão foi de que se restaurasse, sempre respeitando a sua arquitetura original.

Mudar Lei do Património Cultural   

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Interior de uma residência de Madeira e Zinco na Mafalala. Foto de Mauro Pinto

Em reacção à provocação de Hélio Nguane, Ivan Laranjeira, presidente da Associação IVERCA, responsável pelo Festival da Mafalala – que organizou o seminário – disse ser esta uma das agendas na mesa da agremiação.

O que se pretende, explicou, é que o Conselho Municipal dê um passo no sentido de conceber políticas de preservação dos patrimónios culturais instalados na cidade de Maputo.

Entretanto, “a Lei 10/88, que responde pelo Património Cultural do país, não prevê que o município atribua esses títulos, pois a deliberação é de nível nacional”, referiu. Neste contexto, criticou este facto, uma vez que, na sua percepção, essa é uma questão que deveria ser gerida de forma descentralizada.

Deixando de lado a casa de madeira e zinco, disse que há alguns espaços, um pouco por todo o país, que são revestidos de simbolismos para os residentes das cercanias que não têm nenhum significado para o resto do país, se não para os seus habitantes. “Como é que eles ficam?”

Por outro lado, prosseguiu, ao defender que “são considerados património cultural em Moçambique edifícios com mais de 200 anos que tenham sido construídos em alvenaria”, a mesma lei torna-se excludente.

O seu argumento foi de que esta lei descrimina qualquer outro tipo de património, como, por exemplo, as casas de macuti da Ilha de Moçambique, e “tantos outros exemplos que poderiam ser dados”.

Ivan Laranjeira acrescentou que, neste sentido, em relação ao tempo que se deve esperar (200 anos), muitos imóveis podem ruir e desaparecer, pelo que, na sua opinião, a lei deve ser revista. Já!

Explorar memórias alternativas  

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Dulamito Ardichir, pesquisador do Instituto de Investigação Sócio-Cultural (ARPAC). Foto de I. Sitoe

Por sua vez, Dulamito Ardichir, pesquisador do Instituto de Investigação Sócio-Cultural (ARPAC), sugeriu que se observe outros ícones, que não os habituais. Dulamito falava na mesa subordinada ao tema “Mafalala e memórias alternativas”.

Depois de ter participado de um Inventário do Património Cultural e Imaterial da Mafalala, o investigador constatou que há necessidade de se dar “voz a personagens que normalmente são marginalizadas pelas outras pesquisas e fóruns de discussão”.

Por isso, a sua proposta é de que se busque outros protagonistas que tragam novas memórias de registos mais recentes.

“O facto de se basear as pesquisas sobre o património cultural e histórico apenas nos mesmos ícones ofusca a própria história”, considera Dulamito, pois, na sua óptica, no senso comum das comunidades habitam outras narrativas de grande relevo para si.

Entre as propostas que levanta constam o tufo, a capulana e o m’siro, que, conforme sustenta, são de grande significado para as mulheres da Mafalala.

Para quem se destinam as requalificações?

Mas não só a casa de madeira e zinco constitui preocupação da situação dos subúrbios de Maputo. O passado é, como se sabe, uma referência, para o futuro que se pretende construir. Daí que moradores de Maxaquene, Chamanculo e Polana Caniço perguntaram às autoridades municipais para “quem se destinam as propaladas requalificações dos bairros já que, quando se fala sobre isso, um dos primeiros aspectos que se foca é a retirada dos antigos habitantes dessas áreas?”

O questionamento resulta do facto de, por exemplo, no bairro da Polana Caniço, ao largo da parte recém-reabilitada da Avenida Julius Nyerere, os antigos residentes terem sido retirados, dando espaço a construção de mansões que pertencem a gente de posse.

Conforme Álvaro Garcia, espanhol residente no bairro Polana Caniço, “estamos a ver edifícios a surgir cujos donos são pessoas que podem” disse, antes de partilhar que “eles constroem prédios quando a maioria das casas, de construção precária, ali têm as casas de banho descobertas, o que é constrangedor”.

O interlocutor disse que a opinião comum dos moradores é de que, de acordo com o que têm visto, as requalificações urbanas não são para os incluir, muito pelo contrário, são para os retirar das proximidades do centro da cidade.

A sugestão de Álvaro Garcia é de que as autoridades concebam planos de requalificação que não expulsem as pessoas da cidade, até porque isso depois compromete os hábitos, a rotina, os planos e o futuro dessas pessoas.

Frank Sidumo, residente no bairro de Maxaquene, disse, por sua vez, que as autoridades municipais estão a falhar na partilha de informação com os afectados pelos reassentamentos ou pela destruição parcial das suas casas para dar lugar aos arruamentos.

“De repente, funcionários do município aparecem a marcar os espaços e dizem que vão destruir para construir estradas e que nós devemos abandonar o local em um mês”, disse, defendendo que esta situação constitui um atraso.

E assim o debate aconteceu, com as autoridades municipais, no fim, a reconhecerem os erros cometidos e a prometerem rever procedimentos, sobretudo no que tange ao património cultural suburbano.

 
 

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