Os espíritos não conhecem mulheres brancas

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Ao sair da sala do encontro, Zeca, deu de cara com o seu ajudante de campo e ordenou que este avisasse ao governador de Inhambane que no dia seguinte iria à Massinga, pelo que precisaria de uma viatura protocolar para o transportar lá. Despediu-se dos correligionários, com abraços e sorrisos. O motorista trouxe a viatura até a porta, abriu para que o PCA entrasse. Poucos instantes depois percebeu que seu rosto não era o mesmo de duas horas atrás, quando o levava a sede do partido. Habituado a esses corredores, compreendeu que em pouco tempo estará a conduzir outro veículo, com outro ocupante no acento de trás. Não comentou, apenas perguntou para onde iam. Ouviu de uma voz meio morta “para casa. Me leve para casa!”.

A viagem foi feita sem nenhuma troca de palavras, o que só confirmava as suas suspeitas.

Zeca era bom de papo, sempre puxava uma conversa qualquer quando estivessem juntos, são ambos de Massinga. Por acaso o motorista até vem de uma família tradicional por aquelas bandas, a família Muvale. Mas desertou, não quis herdar o ofício da família: curandeirismo. Sempre temeu não conseguir controlar os espíritos e também aquela vida nas cabanas nunca lhe agradou. Quando veio à Maputo, sua ambição era, a semelhança dos conterrâneos, conseguir um bom emprego e estudar. Mas as coisas não saíram conforme planeara. Por acreditar que nunca é tarde, aos 39 anos, depois de formar família com uma machangana e ter posto os filhos a estudar, no fim do dia, senta-se na carteira da Josina Machel para completar o nível médio do ensino geral, na esperança de depois cursar direito na universidade.

Zeca ao chegar em casa, a encontrou somente com os empregados, sua esposa tinha ido ao salão cabeleireiro, informou a governanta.

Como sempre, sentou-se na sala e pediu que a governanta fosse tirar do bar uma garrafa de whisky, rótulo preto. Preferiu sem nenhuma pedra de gelo. Ela achou estranho, o patrão gosta com três pedras, porém obedeceu. Leu no seu rosto que a maré estava brava.

Ao invés do noticiário da CNN, como era habitual, nesse dia pegou no remoto do rádio, foi fazendo zapping nas frequências e parou na RDP África que homenageava Papa Wemba, o músico congolês que perdera a vida em palco, no Costa do Marfim.

 Embora tivesse aceitado, no encontro, não concordava com a sua situação, não cabia na sua inteligência que logo ele que sempre fora fiel ao ex-chefe, fosse o sacrificado, com desobedientes a pulular por ai. Mas sabia que não tinha alternativa, ou aceitava ou seria isolado e carregaria a culpa na mesma, mas sozinho. Ou ainda pior, conhece os radicalismos do ex-chefe, poderia estar nas capas de jornal com o rosto irreconhecível, maquiado de sangue e mascarado de balas.

Zeca se sentia perdido, lhe prendeu atenção o coro da música que tocava na rádio, “Show me the way”. O whiskey, Black Label, não lhe afogava a frustração. Esgotada a garrafa quadrada, levantou-se, a governanta que estava sempre por perto, depois de dar ordens a cozinheira, se aproximou para saber do que precisava o patrão. Zeca dispensou sua ajuda, com passos cambaleantes, as pernas já não se aguentavam, o corpo se mantinha curvo. A camisa estava totalmente desabotoada, sua enorme pança se exibia, a gravata estava deitada na alcatifa e o blêizer posto no braço esquerdo do sofá.

Em direcção ao bar, parou, fixou o olhar nela, com a mão direita segurando o copo, assustada com aquele olhar, sem conseguir decifrar seus pensares a governanta insistiu:

– O senhor precisa de alguma coisa?

– Sabes – continuou com o fio da sua saliva pendurada no lábio inferior se prolongando até a enorme barriga – que o John Walker é o whisky da família real do Reino Unido? Sabes? Claro que não sabes. Eu e a família real sorvemos o mesmo sabor. Então diz-me se achas justo que eu vá preso? É?!

– Não responde – prosseguiu – não quero resposta. Preciso de algo forte, maltes da terceira idade, talvez esses me possam dar a luz, me mostrar o caminho. Vou-me servir o King George V. Tu não és digna de segurar nessa garrafa. Para já, desaparece do meu ângulo de visão, preciso ficar sozinho. Amanhã estarás rindo da minha cara.

Ela retirou-se, como gritava, com voz grave, a porta da sala, espreitavam os empregados ao patrão. O homem passou o resto do dia sorvendo a sua coleção de John Walker.

Na manhã seguinte desembarcou em I’bane. Crianças o esperavam, cantando para lhe saudar, estudantes e professores, para além de outros funcionários públicos que largaram os seus ofícios para lhe receber. A pequena cidade parou. Foi presenteado e partiu imediatamente, de carro, para Massinga, escoltado por seis viaturas da segurança do governador e pelas motorizadas da polícia de trânsito.

Já era final da tarde quando chegou a casa de seus pais. O velho, seu pai, estava sentado debaixo da sombra de uma frondosa mangueira, no centro do quintal, diante da enorme casa de alvenaria construída por Zeca. Ali acomodou-se para revelar o que se estava a passar.

– É essa mulher branca que foste arranjar, os espíritos não reconhecem. Isso traz azar. Eles não conseguem passar a barreira desse anel que trazes no dedo. Quando chegam ai se dão com espíritos brancos, fortes, que impedem de proteger-te. Já tínhamos falado sobre isso, mas não quiseste ouvir este velho do mato. Agora quem vai ficar a cuidar de nós? (Em Xitsua)

– A qualquer momento serei preso, mas as vossas despesas serão pagas, pai. Não se preocupe. Vim pedir para me proteger lá dentro. Me falaram de um ano, enquanto a poeira baixa. Temo que me envenenem, exige muito em troca do meu sacrifício e silêncio. (Em Xitsua)

   Ficaram em silêncio. O velho o acalmou e prometeu levar-lhe a casa do Muvale a altas horas da noite para os devidos banhos e bênçãos dos espíritos.

Nisso seu irmão chegou, pálido para informar que a mãe, que se encontrava de baixa no Hospital Provincial a espera da operação que estava marcada para aquele dia piorara, pois o cirurgião atrasara no aeroporto, ainda em Maputo, e não chegara a tempo. Assim a operação foi adiada para o dia seguinte.

O atraso deveu-se ao facto de Zeca ter viajado no voo comercial, somente com o ajudante de campo, usando a aeronave que estava destinado aos passageiros de Inhambane.

 

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