Viajar por Kukavata (4)

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Kandjane

Por Dadivo José

Radicado na Espanha, cumprindo um repouso obrigatório por questões de saúde, David Macuácua foi chamado para fazer festa neste álbum, interpretando a canção que mais poder de profecia tem. É uma recriação de original de Zeca Alage, numa toada mais calma, mas com todo sentido de questionamento. 

O que salta ao ouvido nesta versão é a possibilidade que Macuácua nos dá de percebermos algumas das passagens que o texto diz. Zeca foi respeitado no seu estilo, a banda foi criativa ao assumir que, o que Zeca profetizava em 1991 (até os Chineses inundariam o país num Shokokai ao ritmo do desflorestamento), já estava efectivamente acontecendo. David ja diz “ nambi ma China ma fikili”- os chineses já chegaram com o seu Shikokai. Vale a pena reflectir, uma vez mais sobre este tema.

Ghorwane ALBUM [XIGUBONEWS]

A música começa com um coro de reconhecimento de que existe um ser superior, a quem sempre recorremos. O dono dos templos, o dono das nossas aspirações. Deus, colocamos as nossas lamentações e, se for algum castigo por alguns males cometidos por nós, bayeti, nos rendemos a vossa magnitude e clamamos pelo vosso perdão. Zeca assume que conhece Deus, assume que é uma criatura de Deus e que pode usar da sua voz para pedir uma intervenção divina.

Mas o clamor vai também para os fabricantes das armas assassinas. Nesses, também nos rendemos e pedimos que parem de ser os autores primários destas matanças. Tudo que nós queremos é estudar, brincarmos e produzirmos. Sim, toda criança moçambicana sonha estudar e brincar, enquanto a machamba está toda verde para garantir a alimentação. Isso não passa de sonho, porque o campo para cultivo está ocupado por aqueles que adoptaram as armas como seus filhos queridos.

Ainda que reclamemos as guerras que devastam, ainda que estejamos competindo e discutindo pela melhor interpretação bíblica, não temos respostas. Fica sempre a pergunta: Kandjani– como? Quando estamos em desespero por causa da guerra, da fome, acabamos aprendendo outras coisas por aqui. A minha pergunta é: que coisas? E uma situação de grande sofrimento, como a fome que o Zeca se recorda dela, a de 1983, certamente, que provoca desmandos no lar, provoca impaciência e consequentemente uma tensão social e sugere soluções de via fácil e rápida: banditismo e prostituição. Não há paz cá na nossa terra e não há tolerância. Aqui o Zeca acertou no ponto. A intolerância é que leva ao extremo de posições, cada um esticando a corda para o seu lado. Falta a grandeza só ao nível dos grandes Homens, a capacidade de ceder para o bem do seu rebanho.

Por causa desta intolerância, os outros países também escutam o barulho das armas e até os Chineses qualquer dia chegarão para nos ajudar com as suas artes marciais. Este é o profeta Zeca. Sim, o barulho de Moçambique ecoa em toda África Austral, porque acaba criando um desequilíbrio regional. As guerras criam problemas nas fronteiras e espalham refugiados (ainda que se negue a sua existência) que depois viram um problema para os outros. Nesse contexto, acabamos por pedir apoios em várias nações, ainda que não tenham sido testemunhados pelo profeta Zeca, estão aos olhos de todos os moçambicanos.

De facto, os chineses estão praticando Shikokai, mas não nas questões da desmilitarização da Renamo, mas no abate das árvores, transformando em madeira que enche contentores, não sabemos a troco de quê. Estádio de Zimpeto? Aeroportos? Ministérios e outros tantos edifícios… Ninguém sabe. O certo é que o Zeca, já em 1992 tinha se apercebido desta situação e chamou-nos atenção: “ lembremo-nos caros patrícios, que devagar vai-se longe”. Sim, tem razão Zeca, andamos ao reboque de um camaleão bem lento chamado negociações para a paz no centro de conferências Joaquim Chissano, afinal devagar vai –se longe. Como? Uma pergunta que até as próximas gerações terão que responder já que está garantida a dívida para eles e para outras gerações vindouras. Se conseguimos a paz de 1992 depois de quase 2 anos de maratona negocial, dá para acreditarmos que sempre resulta. A disciplina vocal no coro dá a esta música uma beleza harmónica e toca o coração. Isso não quer dizer que perdoamos a distração do Macuácua na organização da letra da música. A sequência do Zeca não foi propositada, tem uma cadência dramática justificável e que foi atropelada na nova versão.

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