NÚCLEO DE ARTE Uma relíquia que se queixa de abandono

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FOTOS DE ISAÍAS SITÓE

UMA cidade metropolitana como Maputo é repleta de prédios, vivendas e vários outros tipos de edifícios. Alguns destacam-se pela sua arquitectura, pelos seus residentes e, sobretudo, pela sua história. E é pela sua história que o Núcleo de Artes se evidencia, clamando, entretanto, por financiamento para se manter.

O Núcleo de Arte é, desde a sua fundação, em 1921, um lugar que se abre para receber artistas e apreciadores de arte que convivem em harmonia, discutindo técnicas usadas nas obras, filosofia e processos criativos no mesmo espaço onde as produzem. No entanto, nos seus primeiros anos – pelo menos até por volta da década de 40 do século passado – o Núcleo de Arte não era um espaço “acessível a todos os que queriam ser artistas”, segundo escreveu a historiadora moçambicana Alda Costa para o portal Buala. Somente os europeus e os mestiços da antiga Lourenço Marques é que tinham acesso ao local. Só mais tarde, por volta dos anos 50, visitando o lugar, é que já se podia ver um Malangatana – ladeado, provavelmente, pelo seu amigo, o arquitecto Pancho Guedes – a operar as suas obras, cantarolando algumas canções em Ronga, sua língua materna.

Malangatana entrou no Núcleo de Arte directamente para a escola de pintura, pois, conforme detalha Alda Costa no mesmo artigo, admirava João Ayres, que ali leccionava.

De uma ou de outra forma, este é um marco para a história moderna das artes plásticas moçambicanas, pois é nessa altura que se começa a assistir à fusão, em termos de convívio social e relações artísticas, de africanos com europeus.

Para além deste que mais tarde tornar-se-ia representante das artes plásticas moçambicanas, pode ainda se falar de presenças de figuras como Abdias, Mitine Macie, Augusto Naftal ou Alberto Mati.

Seria leviano enveredar por uma narrativa sobre as artes plásticas moçambicanas desviando-se desta instituição, uma vez que desempenhou o seu papel no processo de consciencialização dos negros provenientes dos bairros periféricos feitos de madeira e zinco de Lourenço Marques sobre a necessidade de se emancipar.

90 por cento do apoio é estrangeiro

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André Macie

APESAR de toda esta rica história, “hoje parece que estamos esquecidos”, desabafou André Macie, presidente do Núcleo de Arte, em conversa conosco no seu escritório, cujas paredes brancas destacam ainda mais a quantidade de quadros de pintura e estatuetas por todos os cantos.

 O seu gabinete está no fundo da galeria do Núcleo de Arte, que mantém uma exposição permanente aberta todos os dias. Foi ali que nos atendeu. “Na altura em que o país tinha falta de quase tudo, tínhamos apoio e financiamento estatal, o que hoje não acontece”, exemplificou.

No intervalo entre 1975 a 1986, na vigência do saudoso Presidente Samora Machel, prosseguiu, a comitiva presidencial incluía artistas plásticos.

Observando os curricula dos artistas em alta nessa altura nota-se a passagem pela União Soviética e uma mão cheia dos países socialistas escalados pelo ex-Presidente.

“Hoje só vão os empresários”, ironiza, indignado, e, pelo que comentou, não percebe a razão de se deixar de lado a cultura e o poder que a mesma detém.

Enquanto conversávamos com André Macie do lado de fora, as vezes ouviam-se algumas risadas alegres. Entrava um artista, ilustrando a liberdade sem formalismos que ali habita. Até porque, afinal, são artistas. Pássaros livres a voarem.

Ao entrar para muitas instituições públicas é possível contemplar algumas obras de pintura, escultura, actualmente com o ar já cansado e mal conservados. As mesmas são desse período, que hoje os artistas lembram com nostalgia, quando o Estado era um dos maiores compradores de obras de arte.

“Nos anos 90, com as privatizações das empresas estatais, a coisa mudou de figura e nunca mais voltaram a comprar obras. Os dirigentes esqueceram as artes”, explicou.

O caminho seguinte foi, como muito bem canta a Orquestra Timbila Muzimba, por “Conta Própria”.

A única instituição que ainda compra algumas obras de artistas moçambicanos é a Presidência da República.

A sobrevivência do Núcleo de Artes foi sendo garantida pelos antigos membros, que, gradualmente, com a sua influência, foram trazendo as embaixadas dos países nórdicos, que são actualmente os maiores parceiros desta instituição.

“As embaixadas e algumas organizações não-governamentais é que nos suportam, quer nas exposições, assim como nos nossos projectos. Estamos a falar de apoio na ordem dos 90 por cento”, esclareceu, referindo que há uma e outra instituição nacional que vai prestando o seu apoio, embora timidamente.

Em 2010, por exemplo, o Fundo Para o Desenvolvimento Artístico e Cultural (FUNDAC) reabilitou uma parte do edifício, que já se encontrava aos pedaços, avançando rapidamente para ruinas, devido ao tamanho de fissuras e o nível de degradação.

No ano seguinte o Mileniumm Bim finalizou as obras, dando o aspecto arejado que a vivenda hoje possui.

De forma a reverter a situação de penúria a que estão voltados, os artistas plásticos pensam que, à semelhança da Associação dos Escritores Moçambicanos (AEMO), que recebe dotações do Estado, poderiam igualmente beneficiar desses fundos.

Numa altura em que falar de indústrias culturais é o pão de cada dia do Ministério da Cultura e Turismo, que tem estado a investir dinheiro em seminários, encontros de consulta e publicação de livros sobre o assunto, a sugestão do Núcleo de Arte é que se comece da base.

“O Estado tem que semear para poder colher. Estão a apostar nisso (indústrias culturais) mas a deixar que as mesmas sejam dependentes de empresários, quando quem deveria investir é o Estado”, observou.

Passagem da estafeta

A TRANSMISSÃO de testemunho está no cordão umbilical do Núcleo de Arte. Basta recordar que foi neste espaço que os escultores Shikhani, Chissano, Jorge Nhaca, entre outros, moldaram os caminhos a dar às suas palmas de modo a conferir forma e relevo às suas obras.

“Este é um espaço de passagem… O artista vem aqui aprender, depois de criar o seu espaço sai”, explica André Macie.

É preciso referir que esta é uma tradição bem antiga. Malangatana fez o mesmo. Ao sentirem-se preparados, os antigos discípulos buscam os seus próprios caminhos.

A historiadora Alda Costa narra que “Malangatana abandonou, algum tempo depois, o Núcleo de Arte, por conselho do arquitecto Pancho Guedes, para encontrar um caminho tanto quanto possível livre de influências”.

À sua saída, os novos mestres levavam a sua legião de aprendizes, que, no seu novo ateliê, seguiriam os seus passos, até descobrir o seu caminho. E dessa forma o ciclo ia funcionando.

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A GALERIA

Nos últimos anos, porém, o cenário tem estado a mudar. Com o advento da Internet, maior circulação de informação e maior facilidade no acesso a livros, a tendência é outra. Os mais novos já não vão com os mestres. Optam por desenvolver as suas habilidades ali mesmo.

A dado passo, a conversa foi interrompida por um potencial cliente que perguntava por uma obra que o tinha interessado na galeria. O potencial comprador, já a entrar para a terceira idade, espantou-se ao saber que o quadro que o cativara era de Samuel Djive, pois, sob ponto de vista técnico, era diferente da que acabara de ver do lado de fora minutos antes.

Para Macie, em parte, este tipo de situações pode resultar deste novo cenário. “Os mais velhos tinham as suas marcas, que só com um simples olhar se identificava o autor, o que não há em muitos dos artistas mais novos”, observou, e acrescentou que “só o tempo dirá se um artista é bom ou não. São os novos valores”.

As artes e os artistas circulam tão livremente que já há registos de artistas que se descobriram frequentando o lugar. Disso são exemplo as gémeas Nelsa e Nely Guambe, que ali deram as suas primeiras pinceladas e hoje são referências no meio.

Em virtude de a formação neste espaço não ser necessariamente formal, busca-se nas palestras e oficinas a cientificidade que falta. A intenção era levá-las também para as províncias, porém se volta ao velho problema: “não há fundos” para isso.

Contar o quotidiano

ERA meio da tarde, o Sol já não estava intenso, se bem que, na mesma, não teria muita interferência, pois as mangueiras cobrem todo o quintal do Núcleo de Arte, quando chamou atenção o sopro de John Coltrane, que era libertado por pequenas colunas ao lado da oficina.

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Mulungo

Ao aproximarmo-nos, deparámo-nos com Mulungo, que esculpia uma obra que até à altura não tinha título. Até porque: “não dou títulos porque cada um tem a sua leitura da obra e se eu dou tema posso estar a limitar as pessoas”, esclareceu.

Conta que desde 2009, diariamente, sai da Matola 700, onde reside, para trabalhar no Núcleo de Arte. A música, explicou, desde que começou a fazer esculturas em 1999, sempre o acompanha enquanto trabalha.

Enquanto conversa a sua atenção não se desvia da obra de madeira que produz. Uma mão segura a estatueta com mais de três rostos, na altura em que a grossa vai moldando a sua superfície.

“Basta eu sair de casa que o trabalho começa, o que observo na minha zona, com os meus vizinhos, pelo caminho, no ‘chapa’, é o que passo para as minhas obras”, explica, sempre concentrado na obra.

Molungo contou que o aprendizado ocorre todos os dias. Quando estão a trabalhar, os colegas emitem as suas opiniões sobre as suas obras. Não há reservas, há liberdade de expressar a sua opinião, o que enriquece ainda mais a cada um dos que participa do debate.

Há que incentivar

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Samuel Djive

SAMUEL Djive, como a maioria dos membros da nova geração, já visitava muito antes de passar a trabalhar no Núcleo, em 2012.

A sua tela estava ao lado do restaurante, as tintas no chão, de tempos em tempos dava alguns passos para trás, segurando o queixo, cruzando o rosto com o pincel que segurava, reparava, como se buscasse algo perdido e, na volta, eram passos de certezas que terminavam com um traço novo.

Nas suas costas os seus colegas, alguns acompanhados por uma garrafa de cerveja ou a fumar um cigarro e outros ainda com o ar sério, tracejavam as suas telas. Cada um do seu jeito, com o seu estilo.

Desde que passou a trabalhar neste espaço sente que a sua técnica e as formas de expressão mudaram. Em parte, assume, tal se deve às críticas que os seus colegas foram fazendo do seu trabalho.

Consciente do poder da sua arte, lamenta que haja poucos jovens a enveredar por esta via. Em parte, acusa alguns media de dar primazia apenas à música, pois, de forma implícita, está a dizer que ela é a mais importante das artes.

“Há que fazer perceber que com a arte eles podem tudo, e quando eles perceberem que estamos muito longe do conceito de marginalidade que nos é associada irão surgir bons artistas”, acredita Samuel Djive.

Enquanto isso, prosseguiu, teremos uma sociedade em que todos apostam na Medicina, no Direito, Contabilidade….

É neste sentido que defende a importância da educação para a transformação e libertação do Homem de qualquer tipo de escravidão. Até porque “a arte é a melhor forma de expressão”.

Djive, já sentado, sugere que as famílias devem apostar em obras de arte se quiserem que os seus filhos tenham almas mais sensíveis. Recordou, por exemplo, que o seu interesse pela pintura começo de uma forma inusitada.

“Uns vizinhos meus tinham uma dívida com os meus pais e porque não tinham dinheiro para pagar, a minha família penhorou os seus bens”. Entre os móveis havia um quadro de pintura que sempre tentou imitar. Assim nasceu o artista.

“Foi um impulso, depois conheci Malangatana nos livros da escola e todos os outros que foram mediatizados nos anos 90”, revela. Apenas mais tarde é que teve contacto com Gemuce, Idasse Tembe, Titos Mabote, Roberto Chichorro, que foram seus ídolos.

É até evidente nas suas pinturas a influência dessa geração, que entretanto segue outras perspectivas, mais modernas.

Outra geração

NUCLEO DE ARTE 6.JPGQUANTO às mudanças que a sua geração está a imprimir nas artes plásticas, pelo menos a nível do Núcleo de Arte, defendeu que tal tem a ver com a época que se está a viver.

“Os antigos estavam à procura de identidade e nesse processo eles encontraram um estilo próprio com o qual foram e vão trabalhando”, situou, adiantando que “nós vamos à escola, lemos, convivemos com outras coisas e não estamos fechados a explorar outras possibilidades. Eis a diferença”.

Há nesta geração uma necessidade de levar discussões académicas para as suas obras, de tal forma que vão prestando atenção no movimento de estudos sobre a sua área, que depois desempenham o papel de bússolas para as suas obras.

Mas sente que o seu desenvolvimento no país está condicionado pela ausência de um jornalismo crítico de arte. “Os críticos é que fazem a história e enquanto não os tivermos o nosso desenvolvimento será muito limitado”, disse.

Por outro lado, Samuel Djive defende a necessidade de os artistas, independentemente da arte que fazem, unirem-se em movimento para que o desenvolvimento ocorra. “Temos que crescer”, acrescentou.

 Quanto ao Núcleo de Arte, disse que pelo facto de as obras de arte ainda não serem produtos de primeira necessidade nem sempre dá para vender e, consequentemente, a parte administrativa vai funcionando de forma deficitária.

“Isto não é tomate, é arte” começou, para concluir que “alimenta apenas almas doentes, e porque nem todas estão doentes…”

*Publicado no Jornal Notícias de 06/09/17

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