A CONVERSA COM A PERIGUETE

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Por: Mussa Chaleque

Vi-te caminhando sobre a areia da praia, em jeito de desfile. Parecias estar numa passarela. Te lançavas a um e outro homem que julgavas ter dinheiro. Até que, te aproximaste do local onde eu me encontrava, debaixo do enorme guarda-sol, para insistires um papo comigo. Para ser sincero, o calor que fazia naquele dia já era suficiente para me incomodar o bastante.

Fui à praia porque não queria puxar conversa com ninguém. Mas, logo me apercebi que estavas com disposição para me incomodar. Decidiste estender a tua capulana e colocar o teu guarda-sol bem ao lado do meu. Mesmo assim, fingi não te notar. Continuei tranquilamente a contemplar os lindos flamingos sobrevoando o mar,  os rochedos e o céu azul.

Dado a forma como te apresentavas, toda provacante, os homens olhavam-te famintos. Consumiam-te com os olhos. E sabe-se lá o quê mais eles pensavam a teu respeito.

– Oi baby, tudo bem? – comprimentou-te humildemente um jovem banhista procurando te conquistar.

Sem reservas, dirigiste-lhe palavra torpe. –– Seu probretão doentio. Afasta-te de mim!

Baixei os óculos escuros que trazia, e lancei um tímido e disfarçado olhar sobre ti. Atenta que és, captaste logo o meu olhar. Beijaste a palma da mão e simulaste um sopro. – blow! – lançaste o beijo em minha direcção. Logo concluí que eras de facto uma assanhada daquelas bem atrevida.

Te ignorei.

Mulher fácil e interesseira, conheço à distância. E não tem nenhuma chance comigo. Sou homem que se preza. Daqueles que não se atiram a qualquer mulher carente. Ajeitei os óculos e mantive-me em pleno silêncio. Notei que olhavas atentamente para os pertences ao meu lado, o celular moderníssimo, a carteira com diferentes cartões bancários, documentos com logotipo e nome de uma grande instituição internacional.

Li nos teus lábios que pronunciavas o nome escrito nos documentos que eu trazia. Ba, ba, ban – co. Mun, mun, dial, dial, mun-dial. Banco Mundial. – leste gaguejando. Ficaste toda electrizante com a descoberta.

Quanto a mim, deciparam-me as dúvidas, eras uma daqueles mulheres não instruida, para não dizer burra, e bem interesseira.

Tirei o protector solar da minha bolsa e apliquei-o sobre os meus braços. De súbito, saíste do local onde te encontravas e te ofereceste a me prestar um favor. – posso aplicar o protector sobre as tuas costas? – perguntaste.

– Não. – repliquei.

– Podemos mergulhar juntos no mar?

– Também não. – respondi berrando.

– Que fazes aqui? – insististe.

– Não vês que estou cá para frescar. – reagi impaciente.

Procurei uma forma de te espantar de uma só vez, já não te suportava.

– Que fazes da vida? – prosseguiste com os questionamentos.

– Sou pescador. Nos tempos livres trabalho no matadouro.

– Que fazes lá? – perguntaste-me surpreendida.

– Mato boi, cabrito, porco e alguns outros animais. – respondi.

– E esses pertences, os documentos ao teu lado? – Inquiriste-me.

– São do meu patrão.

Simulei um forte aspiro. – Atchim,  atchim, atchim…

– Tudo bem contigo? – perguntaste procurando me ajudar.

– Não. Isso é manisfetação de tuberculose. Na verdade, não só tenho esta doença. O que me viste aplicar não é protector solar, é  medicamento para câncro de pele. – concluí a mentira.

– Querido, permita-me que eu vá à casa de banho? Volto já! – rogaste.

– Sim, fique à vontade querida. – te respondi.

Foste e não voltaste nunca mais.

 

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