ROMANCE “VISÃO”, DE MANUEL MUTIMUCUIO Um livro que questiona o trabalho das ONGs

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FOTOS: Isaías Sitóe
O ROMANCE é um agregado de ideias, de universos e de acontecimentos quotidianos. Naturalmente, há sempre um personagem central, porém a história resulta da associação de histórias.
É o que acontece ao Enoque, no romance “Visão”, estreia literária de Manuel Mutimucuio, lançado há dias em Maputo.
Residente na cidade da Beira, Enoque cria uma pequena associação, com fins sociais, a qual deu o nome de Visão. A entidade funciona de forma deficitária por falta de dinheiro.
Enoque sempre quis crescer, elevar a associação, a organização não governamental (ONG), de dimensão nacional, mas não conseguia apoios, até que cruzou com a AfriMozAid, que é uma entidade resulta do apoio que a Lituânia disponibiliza para África no âmbito do combate contra o HIV/Sida.
À frente da AfriMozAid está uma loira, a lituana Agnes Olsson, que veio parar na África à sua revelia. Não gostava de estar neste continente. Mas o trabalho não lhe deu outra opção, a não ser aceitar.
Esta organização lituana drenou verbas em apoiou à Visão. A entidade moçambicana ganhou robustez. Era suposto, em função dos anúncios, que AfriMozAid viesse ao país para erradicar o HIV/Sida, quando na verdade apenas desenvolveu um estudo sobre a doença.
Com os financiamentos vieram as viagens de trabalho para Enoque, que era casado com Lurdes, funcionária da Direcção de Saneamento e Saúde Provincial de Sofala. Nas mesmas levava consigo a Sónia, sua parceira extraconjugal.
Na verdade, eles quase se casaram, mas devido à esterilidade da Sónia os pais dele não aceitaram. O que eles nãos sabiam é que a razão era um aborto de um fecto de Enoque, na altura da faculdade.
A volta destes personagens se desenrola no romance que marca a estreia literária do moçambicano Manuel Mutimucuio.
 
 
O papel da Gorongosa nesta escrita

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Manuel Mutunucuio

A decisão de escrever este romance surgiu ao perceber que já não encontrava nas prateleiras das livrarias o que gostaria de ler. A gestação durou três anos. Começou na cidade de Maputo, mas desenvolveu-o no Parque Nacional da Gorongosa, onde trabalha e reside.
Ter saído do frenesim que é a vida da cidade para um meio em que os animais são a sua companhia regular, sem a pressão de uma infinidade de agendas o dia todo, diante de um tráfego intransitável, os personagens evoluíram e o sujeito poético apenas seguiu a vida que estes iam ganhando.
“No fim da história tive que retificar alguns detalhes do princípio porque os personagens ganharam vida própria e eu apenas fui seguindo o fio”, recordou.
A brisa da Gorongosa e a convivência diária naquele ambiente terá contribuído para que uma nova forma de ver o mundo, a ponto de passar a olhar para a árvore, não mais para a floresta. Este passo permitiu-lhe observar com mais detalhe a peculiaridade dos indivíduos, a particularidade do ser humano, o que está evidente na narrativa.
Iniciou-se pela prosa por considera-la a forma mais corriqueira de participar da literatura, pela abertura que este género possibilita de vivenciar com profundidade a história que se pretende contar.
Ao não trazer apenas personagens corruptas e negativas, o autor pretende ilustrar que “lá dentro há quem quer fazer o bem mas que não encontra espaço para aplicar esses anseios porque há muitos factores que concorrem para o andamento ou não destas entidades”.
A escrita simples foi propositada. O objectivo é contornar a tendência erudita que abona no edifício literário moçambicano. A meta é aproximar-se do leitor com um estilo que não exige muito exercício por parte de quem lida com a narrativa.
 
Romance não combate ONGs
A narrativa desenvolve-se à volta de uma organização nacional não governamental, denominada Visão, por sinal título do seu romance. Mas a ideia é mesmo para levantar questões em relação à cultura de trabalho e as suas respectivas políticas de actuação. O autor convida o leitor, numa escrita leve, a mergulhar nos jogos de interesses envolvidos com estas organizações.
“O marketing de muitas ONGs promete o que, na verdade, não estão em condições de fazer”, explicou o escritor. Na sequência acrescentou que não pretende combate-las, apenas levar a observar a sua forma de actuação.
Em 192 páginas, o narrador discorre este enredo que se desenrola na cidade da Beira. Conhecedor dos corredores das ONGs moçambicanas, uma vez que trabalha com estas entidades há 10 anos, Manuel Mutimucuio explora, de forma peculiar, o contexto a volta delas e o que determinas as decisões e os resultados finais.
“O cidadão tem que exigir que haja prestações de conta e ter consciência que há muita política envolvida no processo, pois quem financia e quem autoriza o seu trabalho são políticos”, convidou.
Até porque a narrativa ironiza com esta relação ao ilustrar que as intervenções públicas e o sucesso que Enoque alcança com o seu trabalho suscita inveja no seio dos políticos, que vão engendrando esquemas para trama-lo. As trafulhices políticas têm efeitos directos sobre o beirense, o que ilustra a interdependência.
A poligamia é neste texto visto em pelo menos duas perspectivas de análise. Uma que tem que ver com a forma como ter mais de uma família afecta ao decisor. Outra com as razões que o levaram a apostar na vida dupla.
Por outro lado, a questão económica não é um factor relevante no triângulo, uma vez que ambas parceiras têm a sua situação estável. É trivial a medida em que em meio ao caos o amor ainda brota.
Em função das regalias e mordomias, tais como casas e carros de luxo, em zonas de elite que fazem o quotidiano de funcionários estrangeiros, fica-se com a impressão de que a vida faustosa que levam é-lhes sinonimo de felicidade.
O autor desta obra desmente tratar-se de um caso unânime, pois a directora da AfriMozAid não gostaria de estar no país, não obstante tantas regalias. Este ponto, à semelhança de como descreve outros personagens, são marcas de uma obra que exprime dimensão humana dos mesmos.
 
Escrever para o século XXI
Manuel Mutimucuio assumiu que a leitura é uma espécie de terapia que o alivia no quotidiano. A escrita, por outro lado, passou a ser uma necessidade biológica, pois “acaba sendo uma forma de oxigénio”, disse.
O facto de estar-se a assistir cada vez mais publicações de jovens escritores é, para si, para se celebrar, uma vez que na primeira década do século XXI o país atravessou um deserto. Novos livros apareciam a conta-gotas.
O escritor observa que, por outro lado, não deixa de ser paradoxal que tal ocorra numa sociedade em que se lê pouco. Neste sentido, de forma a atrair mais leitores, sugere que os escribas busquem melhores formas de se comunicar.
“Temos que começar a escrever para o século XXI para colocar o livro na mão dos leitores, observando que as pessoas estão sempre com auriculares, pode-se pensar em gravar áudios com narradores profissionais”, exemplificou Manuel.
*Publicado na edição do Jornal Notícias de 23/08/17

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