O desconhecido de Paris

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Olhos grandes, cabelo crespo, largado, no estilo afro, pele clara, lábios carnudos. Rosita caminha pela rua. Veste uma blusa estampada de flores, que remete as vestes dos anos 80, saia cinzenta, cumprida. Na mão esquerda, transporta a pasta do laptop, na direita, segura um envelope caqui, sob o braço carrega uma bolsa preta.
Rosita caminha, desceu do “chapa”, há instantes. Pensa no que vai encontrar ao chegar à casa: louça por lavar e a casa por arrumar. Mas não é o que a incomoda. A razão é outra, João, seu esposo, não a foi buscar ao serviço, porque tinha um encontro inadiável: aquele sagrado copo da sexta-feira, depois do job. Rosita não encaixa bem a ideia.
Ao entrar para o seu quintal, aprecia o jardim, é impecável. Já na sala, reproduz o álbum de estreia do guitarrista moçambicano, Albino Mbie: “Mozambican Dance. A música liberta da sua memória outros futuros que poderia ter tido.
Troca o CD, e sem se aperceber, na pressa, é o poderosíssimo Jaco Maria a cantar. Não tem jeito: hoje é dia de voltar ao passado para visitar outro futuro provável.
Afoga-se, cansada, no sofá e sorri. Só os dentes espreitam, seu rosto se embeleza, brilha com os olhos. Diz aquele nome que não é do João, abana a cabeça, inconscientemente grita: «what are fuck!!». A berraria ecoa na casa toda, de três modestos quartos, uma “sweet”, sala de estar, de visita, cozinha e duas varandas. No quintal há um alpendre coberto de capim, é onde passa as tardes de sábado, a ler, quando não sai e não recebe visitas.
Rosita diminui o som da música, pega no jornal do dia anterior. Na verdade, espanta-se: «o João comprou jornal?» Ri-se e o abre. Vai lendo. Aquele nome não lhe sai da cabeça.
Na juventude, enquanto terminava a licenciatura, conheceu um esquisito que nem ela percebe porquê deu atenção. Porém, em alguns dias, ele já era personagem do texto que ela escreveu com o título “O desconhecido de Paris”.
A paixão entre Rosita e o moço do nome que não lhe sai da cabeça era fulminante e a medida que conversavam, pareciam mais iguais. Feitos um para o outro. Sapato 38 para o seu pé.
Rosita teve medo. Rosita sempre soube onde queria chegar e o que a podia impedir de alcançar seus sonhos.
O esquisito, promovido a “desconhecido de Paris”, não passava de um mero estudante, um universitário que escrevia uns “textículos” e “ntse!” nada para além disso. Ele era um autêntico desleixado, os seus vícios e hábitos não lhe perspectivavam muita coisa, apesar de ter muitos planos e projectos (assim é com todo idiota utópico).
Rosita ajusta-se no sofá, a sua enorme bunda, que parece que Deus pegou na lua cheia e repartiu em metades para montar nela, não lhe permite movimentos rápidos. Então ela se acomoda, devagar.
Foi na altura deste cujo nome não sai da sua cabeça, que ela passou a prestar atenção numa paquera antiga, um persistente pretendente. Meio sem porquê embarcou na dele, deixando para trás o “desconhecido de Paris”. O carro impressionou-a. O futuro parecia risonho. Rosita sempre soube onde queria chegar.
No fundo, o moço cujo nome, Rosita, não tira da cabeça, sabia que aquilo era esporádico. Coisa passageira. Não se via com estrutura para manter a relação. Não obstante a paixão que evoluía dentro dele, guardada em algum lugar.
De súbito, pareceu que o volume aumentou, Jaco se impõe no “Munga lili” (não chorem, traduzindo do guitonga para a língua do Camões). As lágrimas que jorram dos seus lindos olhos grandes, já molham a blusa, Rosita ignora, o seu orgulho é superior a esse sentimento.
A casa é apetrechada, nada lhe falta. A empregada saiu de férias, por isso há louça suja. Só não tem ao lado alguém para “aquela conversa” que só a sua metade entende, mesmo que o diálogo seja mudo, com olhares. Os remotos controlos estão na mão, baixa a temperatura do Ar Condicionado, 16°.
Rosita volta ao jornal. Lê. A cada parágrafo balanceia mais, sente algo familiar naquela escrita. Parecia um texto dirigido à si. No final da leitura a dúvida desmorona: o louco escreveu-lhe uma carta e publicou no jornal. Boquiaberta, ficou presa nestas últimas palavras «se der, um dia nos cruzamos por aí, quando eu voltar de Paris.»
lEONEL2
Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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