Carlos e Zaida Hlongo- Um furacão que fustigou o país por 10 anos (concl)

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Por Dadivo José

Engane-se quem pensa que ela era uma escandalosa incorrigível. Depois das críticas as calcinhas, ela usou ceroulas, quase seis meses depois das vozes levantadas. Cobria as partes íntimas e depois compunha um tema com o título ceroulas, 

criticando a maneira como senhoras de família, talvez movidas por um sentido exacerbado de auto-estima, ignoravam as banhas dos seus corpos e se entregavam as ceroulas, se esquecendo que era apenas um equipamento para educação física… ou para vestir bailarinas que não se poupavam em palco.

Este tema, num ritmo raggae, como que a se deixar influenciar pelos sons da Jamaica que vinham com Shaba Ranks, de moças com mexas cumpridas e botas, Zaida mostrava que já queria ser uma estrela pop a moda moçambicana. Na verdade, as influências sempre estiveram presentes no trajecto desta banda. Exemplo seria o tema que ela tira no mesmo pacote com o Ceroula, com o título Xicalamidade, uma marrabenta com ritmos sul-africanos de gazankulu. No tema xicalamidade, a Zaida mostra-nos que não precisa ter ido a escola para perceber que os dirigentes devem cumprir com as suas promessas eleitorais. Ela retrata o drama dos jovens que viram bandidos por serem desempregados, as meninas que já enchiam a rua de Bagamoyo por causa de desemprego. Coitada da Zaida. Se fosse viva dava-se conta que as meninas já ocuparam toda zona baixa da cidade.

Voltando a música, ela que tinha feito campanha para o candidato Joaquim Chissano e 1994, pediu ao mesmo para mostrar serviço, porque ele prometera um futuro melhor.

As editoras viram que estavam perante uma mina de ouro. A vidisco pegou no casal, começou a lançar álbuns, um atrás do outro. O primeiro foi Sibo, que mostra um casal Hlongo já maduro e com diversidade rítmica e temática. A marca registada estava lá. A dança e o erotismo do casal.

Depois de Sibo, o casal nos presenteou com toma que te dou. O país acabava de firmar o contrato com a Mozal, uma indústria instalada na província de Maputo, especializado na extracção de matais e não só. As implicações sociais resultantes da montagem de uma fábrica industrial de dimensões mundiais não passaram despercebidos para a Zaida. Crescia a diferenciação social e os homens, que recebiam quinzenalmente, tornavam-se objectos de adornos para as moças de vida fácil.

Era tudo toma que te dou, numa prostituição patrocinada pela vontade de curtir com um trabalhador da Mozal. Estes trabalhadores viviam tão bem que recebiam visitas constantes dos familiares. O tema mali (dinheiro) que também lança neste álbum, mostra o como um individuo pode virar importante de noite para dia, dada a fartura no bolso. No mesmo trabalho discográfico, o marido fala da pobreza do homem, porque não tem como se prostituir como a mulher que vai àquela empresa caçar os homens. Carlos, meu amigo, experimenta ressuscitar agora. Os homens também já podem… por isso há muito goigolo por ai.

Depois de toma que te dou, veio drenagem, que deu título ao álbum, no qual mostra mais uma vez a questão da nossa educação sexual, saúde materna reprodutiva, planeamento familiar, etc. Há um comportamento de risco que leva as pessoas engravidarem sem ter planeado. Depois atiram na primeira caixa ou deranagem que apanham. Entretanto, como diria Avelino Mondlane, há gente que anda em todos sítios procurando filhos e nada. Contraste!

Zaida estava sempre focada nos problemas das massas. Foi a Ressano Garcia e descobriu que ali na fronteira, uma nova classe operária se transformava numa elite. Os alfandegários.

Em 2001, quando trouxe o álbum Alfandega para o mercado, o país já tinha visto muitos escândalos de entrada de drogas, carros e tantas outras coisas. Os alfandegários tinham se calado. Entretanto, aquela mama que vai buscar cenoura e repolho sul-africano (já que a revolução verde no nosso país sempre foi um projecto falhado) é maltratada.

Hi rwalili ku tika sim, chora num dos versos da música, mas nas alfândegas não passa nada do que é carregado por estas senhoras que só querem alimentar os filhos. Passa o que é nocivo, o alimenta os barões da droga. A lei é igual para todos? Sim pode ser verdade, mas ela é generosa para os grandes e severa para as senhoras magwevas. Esse espírito não tem que existir, reclama a Zaida. No mesmo álbum, Carlos pede a todos os que o desejam mal para o eliminarem duma vez por todas. Todos os dias o homem tem que esquivar gente que quer lhe arrancar o que com tanto sacrifício construiu e conseguiu, incluindo a linda e sexy esposa dela, de sorriso fácil e comunicação rápida. Gozaram alguns pelo facto de não se comunicar bem em língua portuguesa, mas falava lindamente em xangana e isso é que interessa.

Depois daquele álbum, houve tempo para recebermos ma take away e sifa si lhili. Os dois últimos álbuns do casal, já com Zaida cantando Beliwe e se deixando filmar para o vídeo toda magra, mas com o mesmo fulgor. Provavelmente estava nas nossas cabeças o fulgor dela, porque na verdade, emagrecia a cada dia que passava. Eu mesmo confirmei a decadência física dela num espectáculo realizado em 2004, no pavilhão do Desportivo. Até tentou dar o ar da sua graça, mas era o princípio do fim. Foi a última vez que a vi em público. Depois, entre rumores e especulações, a moça morreu no Hospital Central de Maputo, a 4 de Junho de 2004.

A cidade de Maputo parou para prestar a última homenagem. O marido, como que a aprovar que sem as nossas esposas não passamos de nada, não resistiu à solidão e, um ano depois, decidiu partir também. Assim desaparecia um casal legendário, lendário, que ficará na memória da música popular moçambicana.

Álbuns do casal furacão

  • Sibo
  • Toma que te dou
  • Alfandega
  • Ma take away
  • Sifa se dlili

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