PARA LÁ SÓ SE REFUGIAM DAS BALAS

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Cá no quarto tenho uma mesinha de ferro, coberta de livros e papéis. Na parte de baixo há duas caixas com similares adornos, inclusive jornais.

Procurava, noutro dia, pelo livro do Gabriel García Marques, ao fundo se ouvia Ghorwane, “Guidema”. A lista de reprodução corria mas nada do livro.

De repente, dos confins da terra, ressuscitou John Lenon:

Imagine there’s no countries

 

It isn’t hard to do

 

Nothing to kill or die for

 

And no religion too

 

Imagine all the people

 

Living life in peace

 

(…)

 

Imagine no possessions

 

I wonder if you can

 

No need for greed or hunger

 

A brotherhood of man

 

Imagine all the people

 

Sharing all the world

Me perguntei: será que essa gente não ouve John Lenon?

– Acho que não – respondi-me – se não, talvez, não teríamos sírios, líbios, iraquianos, … tentando refugiar-se no lado de lá.

Coitados – continuei, comigo mesmo. Essas pessoas acreditaram no discurso político de solidariedade humanitária e o resultado é: milhares de crianças desaparecidas e famílias inteiras, na cina, em sentido contrário do que canta Cesárea Évora: “É doce morrer no mar, nas ondas, verdes do mar”.

A céu aberto, azul, se vê a olho nú, naufrágios. Nações se recusam dar dignidade aos refugiados. Quer outro manifesto manifestando que as nações não estão unidas?

As vezes tenho a impressão de não haver ventilação neste quarto. Parece que o ar para, quente. O livro do Marques não aparece. Que chatice!

Esses refugiados são alvejados por humilhações, racismo e xenofobia. Suas almas já aleijadas por não mais ter lugar, são agora crivadas pelo sentimento de ausência, inexistência.

Para onde se refugiam não se fazem as honras da casa quando o hóspede desembarca. Que falta de educação!! Até porque nem se olha para eles como hóspedes, ‘com gente de casa’ não há porquê se incomodar quando chega de longe. Só que não é o caso, esses nem visita são. O tratamento que recebem os despromove a intrusos.

A filantropia internacional anda de mãos dadas com interesses económicos, uma relação invejável. Amizades como aquelas são cada vez mais raras.

Estás a duvidar?

Vê comigo, por exemplo, a Europa é um continente velho, a maioria dos seus habitantes são velhos. Há uma necessidade de mão-de-obra por isso alguns abrem a porta sem muito condicionalismo.

Ah, finalmente achei o Marques, estava bem próximo, por baixo “Os Possessos” de Dostoievsky e por cima do “Xicandarinha” do Calane da Silva. Falando em Xicandarinha, vou fazer um chá.

lEONEL2Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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