O Assassínio

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Por Alvaro Taruma

As coisas podiam ter sido assim, corridas, como num flash: galgava a rua, subia as escadas, a porta semi-aberta, a casa vazia, a distância quase inexistente entre a sala e o quarto, abria num impulso o guarda-roupas, e no fundo de uma caixinha sacava do revólver, disfarçava-o sob o paletó, e na metade do tempo que levara a tudo isso voltava ao local da perpetuação do crime ou da infâmia.

Estava silencioso o bar, nem os habituais briguentos, nem floc-floc dos salgadinhos, nem aquele tilintar das taças; apenas rostos entreolhando-se da fronteira branca da espuma. Alguém o imaginou a atirar a queima-roupas, o sangue confundindo-se com o entardecer violeta, o projéctil estilhaçando a vidraça do balcão, o baque troando por sobre as garrafas abalando o equilíbrio do líquido que sustem, os corpos agachando-se e as mesas transformadas em escudos, como se em ritual de guerra.

Quando chegou estavam os dois, ele e ela, não deu tempo para a mulher gritar e no rosto era indisfarçável a surpresa do homem tomado pelo medo da morte, a mão dele roçava a algibeira numa atitude de tudo ou nada, os olhos dos bebuns estavam quase que cerrados, cada um procurando a mais próxima parede onde esconder-se. Só eles os dois no meio da sala sem escapatória, entregues à fúria do lobo.

Alguém gritou: “mate-os”, outro: Policia!

Eles não conseguiam pronunciar palavra, o medo engasgava-os, faltava muito pouco para que se liquiscesse em baba diante de todos. Era o fim da aventura, do amantismo, da secreta luxúria, era o fim de tudo. Mas antes que a bala escapasse do tambor escapou aquela inoportuna pergunta. A pergunta de todo o corno. A pergunta que pode transformar o ofendido no vilão da história: “afinal o que ele fez que eu nunca fiz por ti? O quê?”

 A mulher, num espasmo, como se ressurgisse das cinzas, o copo brilhando na mão no reflexo da pouca luz que réstias de sol ainda havia: “Tu não serves para nada Lineu, não serves nem para matares a ti mesmo”.

Não haveria resposta mais devastadora para um homem ferido de dignidade, não haveriam escrúpulos que o agarrassem, alma de Jesus, segurou firmemente no revólver, como nunca tinha testemunhado e gritou: “Para que tudo fique registado por todos aqui, quero ver quem é homem e quem é corno! Disparou dois tiros, um para o ar, outro para a sua cabeça.

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