Elsa Mangue: Uma voz afrodisíaca numa terra sem machos

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Por Dadivo José
Fiquei muitos meses com a página aberta, apenas com o título. Quis muito escrever sobre esta diva, mas sentia que não podia ser qualquer coisa. Na esperança de ter coisa valiosa por escrever descobri que o tempo se ia e, eu mesmo, corria o risco de ser ignorado pela História.

Um aspirante a escrivão sobre as artes em Moçambique não pode se dar ao luxo de não escrever sobre a Elsa Mangue.
 
Meio mundo já se referiu as potencialidades vocais dela. O Manjacaziano de Mutisse, por exemplo, já disse que ela tirava a voz com a mesma facilidade com que respira. De facto, naquela voz que saia com o som nasalado (na minha língua dizem xinopfo) parecia estar a murmurar qualquer coisa. Sim, ela era muito melancólica e melodramática. Assim chego a conclusão de que não foi ela que escolheu a linha temática que tanto explorou (amores e desamores desta vida), mas a vida a escolheu para ser a intérprete deste drama.
 
Vi Elsa Mangue duas veze ao vivo e sempre terminou a actuação banhada em lágrimas. Ela sentia o que cantava, carregava as personagens que tanto retratava no drama por ela criado. Talvez, ela foi a intérprete dela mesma… Quem sabe? Quero assumir aqui que percebo os ditos da Elsa Mangue como histórias que ela retrata na primeira pessoa, afinal de contas, o artista gosta de ser Jesus Cristo, que aceita carregar o fardo dos outros e que, sacrificado na cruz foi, por todos.
 
A personagem que mais sobressai na Elsa Mangue é aquela que aparentemente fácil nos homens, que todos a levam para cama e depois já não a querem.  Uma mulher sempre maltratada nos tantos lares que construiu, mas de duração efémera. Aí está a confusão entre a personagem e a intérprete, porque, de facto, no pouco do que sei da Elsa, ela esteve em mais que dois lares. Pela opressiva educação tradicional para com a mulher, diríamos que estamos perante uma Elsa de má conduta e que gosta de muitos homens, mas eu prefiro dizer que Deus não conseguiu fazer um homem com capacidade para amar, cuidar e tratar bem da nossa diva. Talvez se eu fosse da geração dela…
 
Tal como Gabriel Muthisse, tive o primeiro contacto com esta senhora em 1988, quando ela invadiu os meus ouvidos com o tema “fim da estrada”. Nini mihloti ku sukela a nkama lowu ungani txukumeta/ uku a unilavi hi kusa ni um Gaza– (caem-me lágrimas desde o tempo que me abandonaste por eu ser “selvagem”). Aqui traduzo o termo “mu Gaza” para selvagem, como uma forma de mostrar que não era directamente proporcional ao ter migrado de Gaza para Maputo, usando o Nkondjani de Xitonhana (Oliveiras transportes e turismo), mas era o adjectivo mais comum, para qualificar a todos aqueles que não se encaixavam nos paradigmas comportamentais dos marongas “donos da terra”. Até porque a bela da Elsa vinha de Zavala, lá onde foi descansar, transportada numa Isuzu, que indignou o mundo, depois da sua missão.
 
Voltando ao “fim da estrada”, Elsa cria sempre o lado vingativo, não na maldade, mas no prazer de fazer engolir ao marido abandonador o lado de arrependimento. Nhamutla u rendzeleka ni doropa u famba uni lava– (sim, aquele homem que ontem desprezou e abandonou, hoje quer a reconciliação), mas a Elsa já definiu o fim da estrada para essa história e quer partir para outra.
 
O fim da estrada do amor não correspondido não era novidade para a diva Elsa. Ela vinha de Inhambane, numa família alargada, filha de um grande régulo, no meio de tantos irmãos. No tema Chaka la mina, ela revela o facto, afirmando que nesta grande casa os familiares não gostam dela, dai que prefere sair pelo mundo, mas que um dia voltará. “loku uli chaka la mina hita tlela hi vonava”. Talvez esse tenha sido o marco da sua aventura de Zavala para o estrelato em Maputo, onde se apresentou com o tema wa gwira masseve wa mina.
 
As composições da Elsa Mangue obedeciam ao ritmo da fila para gravação nos estúdios da RM, acompanhada por grupo M2. Talvez seja por isso que ficaríamos quase 5 anos para voltarmos a ouvir uma nova produção musical dela.
 
Foi em 1993 que lançou dois singles: “Ni lava ku muka kaya”e “Juchua”. No primeiro mostra uma Elsa cansada daqueles que nada fazem se não julgar os outros. Ela quer desistir e voltar para casa porque a mãe lá em casa, pelo menos a entende. Já os outros são capazes de lhe acusar de doida varrida, até parece que lhe viram a vaguear sem destino.
 https://www.youtube.com/watch?v=6MbAacobxx4
Linda Elsa, não são pessoas que são estúpidas. Estúpidos são os homens como Juchua que só lhe procuram de noite para lhe enganar. Um homem que procura uma mulher só de noite transforma a mesma em espécie de pronto socorro e ela, precavida diz: “U zama zama ku ni pazamisa ka umbiri hi mahleku ya wena”/ (estas tu tentando me enganar pela segunda vez com o teu sorriso). Ela já caiu a primeira vez, como caiu com o romance do fim da estrada e tantos outros, até decidir adaptar uma canção do velho Fany Mpfumo- “Tindjombo”- para mostrar que os homens, com ela só queriam uma vez e, logo depois do acto dizem “vá embora.” Eu digo que são homens sem poder para tomar conta da beleza daquela mulher, porque ela era uma original, por isso mesmo aconselha o filho para ir procurar uma original lá de terra, porque as que pululam por aqui já estão velhas, gastas, delinquentes, furadas e disfarçadas por uma txuna baby. As de Massinga são originais, só estão dentro de uma capulana e mesmo assim vê-se que esta tudo no ponto, a beleza é natural, sem maquilhagem, extensões e pomadas para clarear a cara.
 

Elsa dizia o que lhe ia na alma, reclamava da insensibilidade daqueles homens que não aprofundavam a sua abordagem conjugal. Ela andou tanto a procura do parceiro ideal até encontrar Xindzecuana. Com este, ela mesma confessa “ni randzili ni ze niya fika magumu”/ (amei ate atingir o limite), porque Xindzecuana era insistente, não se cansava, transpirava e era igualmente insaciável. A isso acrescia o tamanho dele que parecia de uma cobra mamba. Isso também era um castigo para ela. Definitivamente, nunca houve um macho a altura para esta mulher que era abandonada por homens na mesma proporção que os atraia, dada a beleza da sua voz. Ao ouvi-la cantando, os homens ficavam excitados e com desejo de possui-la, mas logo em seguida reduziam-se a sua insignificância, reconhecendo que não estariam em condições de faze-la feliz. Claro, esses dormiam ao relento – “mpfana malala paipene”, ou dormiam nas barracas. Isso magoava a nossa diva.
 
 
 

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