XIQUITSI: Quatro anos de desafios e alegrias

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Deu os seus primeiros rebentos em 2013 e nunca mais parou. O projecto Xiquitsi hoje está firme, pelo menos ao nível da cidade de Maputo, seu local de origem, embora queira se expandir para outras províncias de Moçambique.

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Durante esses anos, enfrentou/enfrenta dificuldades, mas também teve/tem seus momentos de felicidades. No decurso da Primeira Temporada da Música Clássica de Maputo 2017, a directora do projecto, Eldevina Materula com firmeza declara: “esse projecto vale a pena”.

Num dia desses, daqueles que fazem calor intenso na capital do país, estávamos no cine teatro Gil Vicente, a espera de uma directora do projecto de música clássica em Maputo que estava a orientar ensaios da orquestra local. Não fosse outras ocupações que ela tem de “suportar”, talvez nossa conversa tivesse acontecido por volta das 19 horas, já que não havia previsão do término do ensaio. Não é para menos, vai iniciar a temporada de música clássica de Maputo, 2017.

Edelvina, ou simplesmente Kika, como carinhosamente é chamada, estava lá, aguardando pela nossa equipa de reportagem, mas também orientando outras diligências que fazem o dia-a-dia do Xiquitsi: “temos um compromisso, aguardem por uns dez minutos, como sabem estamos perto dos concertos, é preciso acertar tudo ao detalhe”.

A música clássica na cidade de Maputo tem, quase que de costume um ar de cultura para as elites, como se cá na pérola do Índico estivesse a desempenhar um papel de missionário e, em parte, Materula lembra-se desse desafio quase que todos os dias. Um estilo que não cabe de forma simples na cabeça do simples cidadão. Kika tem noção disso, ainda que um pouco vaga e têm esperanças de dias melhores sobre esse fenómeno. “Estamos também para mudar o curso normal desses acontecimentos”, comenta.

Estamos nas cadeiras do Gil Vicente, onde ela, juntamente com um conjunto de professores orienta as aulas. Professora Kika tem ideias no lugar, fala firmemente e com alguma velocidade um pouco peculiar. Sentados como se quiséssemos assistir a um concerto dos alunos de Xiquitsi, ajeitava o cabelo, enquanto dava as primeiras respostas às nossas perguntas. “Isso é trabalhoso, só para a realização de uma temporada, estamos a trabalhar desde Dezembro do ano passado, mas no fim o sentimento é de dever cumprido”.

Do Festival Internacional do Kulungwana ao Xiquitsi

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Três alunos do Xiquitsi participaram este ano no Festival Internacional de Música da Primavera de Viseu, Portugal

A paixão pela música está dentro dela desde que nasceu. Iniciou seus estudos na escola nacional de Música, na cidade de Maputo. O sonho se alargou, teve oportunidade de viajar para Portugal, a fim de continuar com os estudos. Toca oboé, fruto da Licenciatura feita na terra de Camões, embora tenha se iniciado na música tocando piano.

Viajou para vários países. Teve contacto com inúmeros projectos, mas sua passagem pela Venezuela e Brasil marcou sua vida. Durante seu percurso, teve vivências, experiências e conheceu projectos quase idênticos com o Xiquitsi.

Por outro lado, existia o Festival Internacional de música, organizada pela kulungwana, de 2005-2012. Kika conta que naquele momento pretendia voltar a Moçambique, e isso coincidiu com o convite daquela associação para dirigir o festival.

Respondi que sim, mas que tinha de ser numa nova vertente, porque sentia que há uma grande necessidade na formação profissional. Lhes propus que ao invés de fazermos um festival internacional durante uma semana com grandes músicos, porque não trazemos esses músicos para passarem a trabalhar com nossos alunos? Assim nasceu o Xiquitsi, na continuidade de um festival”.

Hoje, o projecto tem mais de 200 alunos nas áreas de violino, contrabaixo, violoncelo, canto, piano e composição. Não há um número fixo dos que são admitidos por ano para serem parte daquela família. “Depende de necessidade, não se sabe ao certo quantos alunos iremos precisar no próximo ano”, explica Kika.

Escola para inserção social

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O projecto possui alunos de vários quadrantes sociais. A ideia é contribuir para a inserção social de jovens moçambicanos, através do ensino da música. Esperançosa, Materula acredita no sucesso daquela escola, da mesma forma que tem noção da responsabilidade que carrega nas costas ao dirigir um projecto em que os alunos estudam de graça.

Uma das grandes preocupações que tenho é o estado da nossa juventude. O xiquitsi vem abrir portas, criar oportunidade para que jovens possam ter um futuro melhor. As pessoas precisam conhecer a música. Em outros sítios, há garantias de acesso ao ensino de música gratuita e mesmo quando a pessoa segue outras áreas, possui melhores conhecimentos e por isso se dá bem em sua área específica de formação”.

Como ela mesmo faz questão de frisar, o projecto também funciona como uma luz no fundo do túnel, para todos aqueles não tem mais esperanças de vencerem na vida, de possuírem um salário e um emprego melhor. Materula acredita que as pessoas com capacidades de interpretar partituras musicais possuem uma mente mais evoluída e grosso modo em probabilidade de vencer na via.

Queremos proporcionar melhor futuro aos cidadãos. Na música estudamos para ser bons músicos e isso é importante. Com um instrumento não se quer saber se tem dinheiro, mas sim se toca bem ou não. Aqui é de igual para todos”.

Para já, há planos de expansão da escola em escala nacional. Não avança sequer uma data, alegando esperar pelo financiamento, mas garante que as ideias vão se materializar no seu devido momento. Outros desafios tem a ver com a manutenção do espírito de trabalho entre professores e alunos, porque acredita “que a proximidade, o espírito de trabalho” pode fazer o grupo crescer ainda mais.

Kika não olha para o Xiquitsi do ponto de vista financeiro, ela não pensa no dinheiro e nem no seu próprio umbigo quando idealiza qualquer acção para a escola. Na verdade, a música clássica é, em si, uma indústria, mas que muitas vezes encontra se negligenciada porque o público ainda não se faz em massa aos concertos.

É um projecto social, e é claro que me importo com o que as pessoas falam lá fora, com a projecção do grupo. Mas estamos mais preocupados com as pessoas, há situações muito duras e difíceis. Estamos a procura de proporcionar bons momentos aos nossos alunos. A projecção é importante porque precisamos de pessoas que possam assistir aos nossos concertos e essa necessidade satisfaz-se”.

E continua: “há muitas barreiras, mas há muitos sucessos e perspectivas. Dentro desses quatro anos acho que já se realizamos uns trabalhos fantásticos, temos estudantes a viajarem, a conhecerem o mundo e a tocarem com os melhores, privilegio de trabalhar com bons músicos e professores. Quando era estudante não tive essa sorte quanto os xiquitsianos”.

Primeira Temporada da Música Clássica de Maputo 2017

A temporada de música clássica iniciou na terça-feira (09 de Maio), num concerto realizado no Centro Cultural Universitário. O evento marcou a estreia das músicas do jovem compositor Estêvão Chissano. Os mesmos vão se estender até dia domingo (14 de Maio). Os espectáculos contarão com vários grupos corais da cidade de Maputo, num total de 130 artistas.

São cinco músicas que compõe de “Missa de Chissano”, como é chamado nos corredores do Xiquitsi. Aluno daquela escola desde 2014, sua música de estreia foi Kyrie, uma oração na qual se pede a Deus para que tenha misericórdia do mundo. Foi escrita em 2015 e interpretada pela primeira vez pelo coro em 2016.


Publicado originalmente no Jornal Domingo.

Prétilerio Matsinhe
A revolucao sempre perseguiu os meus dias. A escrita me fez acreditar, com a ideia de mudar o rumo da sociedade abracei o Jornalismo. Trabalhei em projectos de assessoria de imprensa e actualmente escrevo para o jornal Domingo. Desde 2014 que faco parte do Mbega e, tenho para mim que a escrita é revolucao.

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