MOREIRA CHONGUIÇA E MANU DIBANGO O “Leão de África” rugiu ao lado do nosso saxofone

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Por: LEONEL MATUSSE JR
AOS finais de semana o seu pai, farmacêutico, ouvia música em som alto. A preferência era sobretudo o jazz, devido ao gosto que nutria pelo saxofone. O camaronês Manu Dibango ocupava lugar de destaque no repertório. Embora estivesse no quarto, “Soul Makhossa” invadia a audição e vibrava com a alma de Moreira Chonguiça. Hoje esse eterno ídolo emprestou o seu sopro para um álbum conjunto, “M&M”, lançado no último Cape Town Jazz Festival.
Cape Town Jazz
No ano 2000 quando Moreira despoletava, depois de ter deixado o agrupamento Ghorwane para estudar música na Cidade do Cabo, África do Sul, contou ao “Notícias” que o seu pai era um admirador de jazz.
“Na minha casa ouvíamos muito saxofone, Charlie Parker – sua maior referência, na altura -, Manu Dibango, são alguns exemplos”, dissera na ocasião.
Dali para o primeiro CD passaram-se alguns anos. Em 2005 lançou o seu primeiro projecto, “The Moreira Project: The Journey”, depois de em 2003, o lendário saxofonista norte-americano Najee, que já tocou ao lado de um Dizzy Gillespie, ter-lhe oferecido um saxofone novo, em reconhecimento da promessa que o jovem era.
No “The Moreira Project: The Journey”, o mesmo soprou flauta na música introdutória, “Sida Mata”. Percebia-se então que caminho seguiria.
Moreira Chonguiça sempre negou que toca jazz. Até porque desde o primeiro álbum que apostou na fusão africana do jazz, funk e, às vezes, roçando o hip hop, recheado de elementos como dança tufu e timbila.
Moreira
“Eu faço música do mundo” garantiu o antigo estudante da conceituada Universidade do Cabo, na África do Sul.
Da estreia a esta parte constam outros projectos, a destacar “Citizen of the world”, “Moreira Project – Reloaded” e “Khanimanbo”. Neste último homenageou algumas das maiores referências da música popular moçambicana, como Wazimbo e recriou o sucesso “Tetego”, de Chico António.
Com a sua iniciativa More Jazz  traz ao país estrelas de craveira internacional, do universo do jazz e do afro-jazz. Este programa arrancou no ano 2013 e até perdura. É ainda, desde 2006, presença regular no Cape Town Jazz Festival.
Confira o vídeo de Moreira Chonguiça

O cruzamento
MOREIRA conhece Dibango desde a infância, através da sua música. Pessoalmente, só há 17 anos. Na África do Sul. “Pedi-lhe o seu número e porque não usa telefone celular, deu-me o fixo da sua casa”, narrou Chonguiça, que acrescentou não ter parado de ligar, “mesmo se passassem seis vezes sem que fosse atendido”.
 
A relação aí começou e o contacto foi-se tornando habitual, até que em 2006, no Cape Town Jazz Festival, partilharam o cartaz. Fruto do acaso ou por ironia propositada de Manu Dinbango, no masterclass que orientou há dias no auditório do Banco Comercial e de Investimentos (BCI), na cidade de Maputo, vestia uma camiseta cuja estampa era do eterno Ray Charles, que homenagearam naquela edição de um dos 10 maiores festivais de jazz do mundo, que se realiza na vizinha África do Sul.
 
Voltando ao ponto, três anos depois, em 2009, Chonguiça dá um passo rumo ao que sempre defendeu: fazer “música do mundo”, ao lançar “Citizen of the world”, no qual Manu Dibango emprestou o seu saxofone na faixa “West South Side”.
 
O “Leão de África”, como Manu Dibango é tratado, ainda trocou o conforto e o requinte de Paris para escalar Maputo, em 2012, a fim de participar no More Jazz, realizado no recinto da Facim, em Ricathla, Marracuene. Nessa edição “sopraram” alguns inéditos e os mais atentos dali previram um álbum conjunto.
 
Por motivos de doença de Manu Dibango, este álbum não foi gravado há cinco anos. “De repente recebi uma chamada a dizer que Papa Dibango tinha duas semanas livres para gravar comigo”, recordou Chonguiça.
 
Em Março de 2015 o saxofonista moçambicano arrumou as malas e rumou a Paris, depois de em Fevereiro ambos terem começado a elaborar a lista das músicas. Apenas cinco coincidiam, das dez faixas que constituem o álbum.
 
Devolver o barco
ao solo africano
 
NO disco “M&M”, a bateria esteve a cargo de Jacques Conti Bilong e coube a Guy Nwongang fazer percussão. O piano-teclado foi conduzido por Justin Bowen e Guy Akwa fez o baixo. Valérie Belinga responsabilizou-se pelos coros. São todos camaroneses, da banda do autor de “Soul Makhosa”.
Confira Manu Dibango

Do solo francês, participaram Patrick Marie-Magdelaine, guitarra, Isabel Gonzalez, nos coros e o costa-marfinês, Paco Séry, na mbira. E assim nasceu o disco “M&M”, gravado no Forber Studios, em Paris, sob direcção do engenheiro Guillaume DuJardin. A masterização coube a Murray Anderson, no Milestone Studios, na Cidade do Cabo.
 
Moreira Chonguiça produziu e tocou saxofone tenor, enquanto Dibango se encarregava pelo vibrafone, saxofone e alguns arranjos.
 
O projecto recriou, na quinta faixa, “Unga Hlupeheki Nkata” de Fanny Mpfumo, celebrado como um dos maiores compositores moçambicanos. Esta balada romântica ganhou uma roupagem de afro-jazz.
 
“Queremos colocar a nossa música ao lado das maiores do mundo”, justificou Chonguiça, fazendo alusão ao facto desta colaboração ser maioritariamente composta por recriações de clássicos do jazz norte-americano.
 
Manu
Entretanto, o símbolo do jazz internacional “Night and day” (Cole Porter -1932), eternizado pelas lendas Fred Astaire, Bill Evans, Ella Fitzgerald, reveste-se no “M&M” de elementos, com evidências, ainda que distantes, de rumba.
 
A dupla mergulhou no baú do jazz e foi resgatar, de 1928, “Softly, as in morning sunrise” do cunho de Sigmund Romberg, com inclinação para a música clássica. Na sua versão abre com baixo a impor-se, percussão presente que é encaixada com sopros subtis, como que a respeitar a relíquia que é esta obra.
 
“Este álbum é uma releitura africana da música feita nos Estados Unidos de América: o regresso do barco ao solo africano”, expressou Dibango.
 
A ousadia de adaptar “standards” para fraseologias africanas, numa articulação que passa pela fluidez de um jazz fusion não pára.
 
No “In a sentimental mood”, cuja versão original foi escrita por Duke Ellington, em 1935 e teve a sua melhor versão na colaboração com John Coltrane, respeitou-se a sua harmonia estável, tendo-se introduzido órgão, tocado por Dibango.
 
“Sinto-me bastante honrado pela oportunidade e criações criadas pelo Papa Manu para eu expressar e experimentar, por vezes, de forma bastante abrupta, ritmos e grooves, acordes e melodias que nunca tinha escutado”, agradeceu Chonguiça.
 
Por se tratar de uma homenagem ao Continente Africano que Dibango acredita ser o futuro do mundo, não poderiam deixa de comemorar o arcebispo sul-africano Desmond Tutu que lutou contra o segregacionismo do apartheid. E para tal, recorreram ao tema de Miles Davis, “Tutu”, onde de África exploraram as frases de percussão e da mbira, que soaram diante dos espaços que não eram preenchidos pelo saxofone.
 
Os 56:28 minutos que o álbum dura contam ainda com uma nova versão de “Soul Makhossa”, o maior hit de Dibango lançado em 1973. Outros temas são “Nonto Sangoma”, “West south side” e “Blues for Africa”.
 
Neste trabalho Moreira torna ainda mais sólido o seu discurso artístico e a sua intenção de conquistar o mundo.
E não é que o “Leão de África” rugiu ao lado do saxofone do Chonguiça?
Capa do CD.jpg
*Publicado no Jornal Notícias de 12/04/2017

2 COMENTÁRIOS

  1. […] O repertório de standards nã esgotava, de tal forma que ainda houve a vez do eterno saxofonista e compositor norte-americano, Charlie Parker (1920 — 1955) e a despedida foi com “Hit The Road Jack”, do pianista, igualmente dos states, Ray Charles (1930 – 2004). A sua saída, em pé, a plateia aplaudia a performance dos pupilos de Moreira Chonguiça. […]

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