Vai trabalhar vagabundo

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Por Leonel Matusse Jr.
“Vai trabalhar vagabundo”, sugere a música do Chico Buarque – um dos maiores compositores da música popular brasileira. Este trecho é um convite a, como ainda diriam os brasileiros, pôr a mão na massa.
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Xixel Langa, intérprete e compositora moçambicana, que tem bom ouvido, que eu sei, apenas obedeceu ao chamamento. Mas foi na imaginação que ela pegou e deu asas para que esta, por sua vez, percorresse o seu interior a procura de música. Como resultado, o seu álbum, como ela mesma diz, “aconteceu”.
Já, não sei se com propósito de nos convidar “ao seu dentro”, o resultado dessa viagem, a este seu primeiro álbum de estúdio atribuiu o seguinte título: “Inside Me”. E, está a vender na rua.
Acompanhando a sua página na rede social Facebook, percebe-se que a vendedora ambulante está a conseguir os seus intentos. Detalhe: o álbum ainda não foi lançado.
Importa recordar que esta é uma produção independente e como faz questão de frisar “gravada fora, na Cidade do Cabo, na África do Sul”, numa altura em que os “outros” lamentam a torta e a direita da ausência de produtoras em Moçambique.
Espero bem que o Município, que anda á caça de vendedores ambulantes por estarem em contra mão com a postura municipal, não a tenha como próximo alvo. Até porque no final do ano passado, numa iniciativa de se louvar, homenageou músicos que fazem a diferença na cidade.
É necessário recordar que esta é uma iniciativa que tem como pioneiro, de que se tem registo, o cantor de música popular, Mahel, que arregaçou as mangas e fez-se a estrada, ignorando a chuva e o sol para vender os seus discos.
Num passado recente assistimos ainda ao músico Alfa Tulane, que aposta no jazz para passar a sua mensagem gospel, fazer o mesmo com o seu álbum, “Send me”. Certamente que estes não são os únicos exemplos.
Entretanto, a iniciativa de Xixel Langa, a primeira mulher, por sinal, é polissémica na medida em que, sejamos justos: vivemos numa sociedade machista, primeiro volta a evidenciar que a conversa de sexo fraco é uma falácia; e depois, porque vem mostrar que o crescimento das nossas artes, e tudo resto na vida, não depende de outrem, se não de nós mesmos.
Ademais, a aposta na venda mão-a-mão, cria um espaço de proximidade entre o artista e o público que consome a sua música. É possível neste movimento poder medir de forma mais directa a recepção do trabalho produzido.
Desta forma, a Xixel, vai cumprindo com aquele que é um dos papéis das artes, o de alimentar a utopia.
Tenho dito: vai trabalhar vagabundo.

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