Nada é por acaso

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Por Leonel Matusse Jr.
SEM dúvida Moçambique é um país que se pode orgulhar dos seus poetas. Vozes há, várias, que nos apontam como a terra dos poetas. Não é para menos, estes solos poluíram a primeira respiração de verdadeiros monstros como José Craveirinha, Noémia de Sousa, Rui Knofli, Rui Nogar, Eduardo White, Nelson Saúte… A lista poderia alongar-se mais.


E, segundo reza a história, o poeta-mor Luís de Camões, paupérrimo e desgraçado, morou dois anos na Ilha de Moçambique, em Nampula. Haverá, numa dessas noites boémias, de lá ter despejado o suco mágico da sua poesia e este, por sua vez, há de ter escorrido pelo chão até atingir o Oceano Índico, e de lá se distribuir pelas almas desta costa.
Com a música esta bênção também vem dos maiores. Embora a guitarra não seja um instrumento da nossa tradição, ela se introduziu e instalou residência na nossa música. Gradualmente vai solidificando as suas raízes.
Exemplos de excelentes executantes são vários, mas podemos nos referir a alguns nomes como Xidiminguana, Ernesto Ndzevo (Ximanganine), José Mucavel, Jimmy Dludlu, Nanando, João Cabral, Bernardo Domingos, Jomalu, e tantos outros exímios tocadores.
Entretanto, diferente da poesia, Moçambique é que teve que ir se instalar a Detroit, nos Estados Unidos da América (EUA), fingindo-se ser um clube de música para, em 1971, receber o guitarrista Grant Green.
Nesta casa de pasto foi então gravado o “Live at Club Mozambique”, um projecto de jazz ao vivo que anda, nas suas oito faixas e com cerca de 01h:16 minutos, a passear pelo funk.
Esta relíquia do guitarrista Grant Green, nascido em Missouri, ficou arrumada algures em algum baú até que em 2006 a editora Blue Note – onde entre 1961 e 1965 foi o músico que mais gravou, quer liderando quer acompanhando – recuperou e a pós disponível no mercado.
A recepção da crítica foi em apoteose, como, por exemplo, a do norte-americano Thom Jurek, também de Detroit, que considerou esta gravação como desafiadora para o próprio músico pelo facto de ter explorado outros géneros musicais que não somente o jazz. O funk neste caso.
A queda pelo funk, considera, foi influenciada pelos saxofonistas Clarence Thomas e Houston Person, ambos tenor. Para além destes dois, a banda era ainda composta por Idris Muhammad e Ronnie Foster.
Por sua vez, Norman Weinstein considera ser este disco “Live at Club Mozambique”, de Grant Green, uma apoteose tanto do jazz-funk como do próprio jazzista.
Escreveu ainda que “esta sessão ao vivo, que passou 35 anos no cofre, transcende, por unanimidade, todas as anteriores sessões de funk de Grant Green.”
E os aplausos a este álbum, que está disponível no Youtube, são vários. Certamente que, à semelhança de Camões, há-de ser o nome “Mozambique” a receita para este trabalho bem recebido pelos entendidos no jazz. E quem melhor são senão os norte-americanos?
Por conseguinte, embora generoso, tal como foi com o poeta-mor, estes benefícios não poderiam ser gratuitos, pelo que o pagamento foi o empréstimo do seu talento e fragmentos que se agigantaram e andam aí a cantar “A balada para minhas filhas” ou a ganhar prémios como melhor afro-jazz africano.
Confira o vídeo do álbum

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