DISTINÇÃO “ACÁCIA RUBRA”: Quando a música volta a ser um assunto sério

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Por Leonel Matusse Jr.
A MÚSICA é uma manifestação cultural. Através dela se identifica um povo, uma sociedade ou mesmo um grupo sócio-linguístico. Faz parte das artes e, como tal, configura o que a sociedade desse espaço é. Ela é retrato de cada uma dessas realidades.
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Foi tendo em conta estes aspectos que o Conselho Municipal da cidade de Maputo reconheceu a música. Distinguiu os músicos que considera terem dado e continuam a dar um contributo para a construção da identidade desta cidade.
Os laureados com o galardão “Acácia Rubra”, a segunda maior distinção da cidade depois da Chave de Ouro, foram os guitarristas Jimmy Dludlu, Xidiminguana, Yana Munguambe, o conjunto João Domingos, a orquestra Djambo e a banda Ghorwane.
Esta é a primeira vez, na história da cidade, que já conta 129 anos, que músicos são homenageados com elevadas condecorações. O evento decorreu no Paços do Conselho Municipal.
De fato e gravata, os artistas e distintos convidados, entre eles o Ministro da Cultura e Turismo, Silva Dunduro, receberam faixas e medalhas das mãos do Presidente do Município de Maputo, David Simango.
Um detalhe que importa referenciar é que apenas a música foi contemplada, quando há nesta cidade todo o tipo de manifestações artístico-culturais, o que pode alimentar a ideia de valorização de parte desta riqueza em detrimento de outra.
A justificação dada pela edilidade é de que, no caso dos conjuntos João Domingos, formado em 1951, e Djambo, criado na mesma década, tem a ver com o seu papel na popularização do ritmo musical marrabenta.
Estes grupos, prosseguiu, influenciaram a música popular urbana e criaram um ritmo genuinamente moçambicano, enriquecendo assim o património cultural imaterial nacional.
Fundamentou que Yana, nascido em 1955, foi distinguido, sobretudo, pelo seu papel no domínio da docência, na área da música e pela sua participação nos mais variados programas orientados para a formação e promoção de talentos.
Por sua vez, Xidiminguana, nascido em 1936, mereceu a honra pelo facto de elevar o nome de Maputo e de Moçambique, através da música. O decano é laureado ainda pelo seu percurso caracterizado por persistência e dedicação à causa da música, com uma forte componente de intervenção social. Com a sua guitarra, diz o município, o músico canta o quotidiano dos moçambicanos e inspira a sociedade para uma convivência harmoniosa. Na presente edição do Top Nngoma foi distinguido com o “Prémio Carreira”.
Já Jimmy Dludlu, que este ano venceu, no Ngoma Moçambique, na categoria melhor canção, do seu último álbum de estúdio (In The Groove), que também foi buscar All Africa Music Awards, o título de melhor afrojazz do continente.
A residir há vários anos na vizinha África do Sul, Jimmy Dludlu não deixou de explorar elementos desta cidade no seu universo criativo. Tal se pode encontrar sem muito exercício nas recriações de canções populares que genialmente ele jazzefica. Nesse universo, o periférico bairro do Chamanculo, onde cresceu, é o maior beneficiário.
Os Ghorwane ou os “Bons Rapazes”, como o saudoso Presidente Samora Machel os apelidou. A maior parte dos fundadores do grupo, criado em 1983,  são provenientes de Gaza, mas apropriaram-se da cidade de Maputo, sob ponto de vista geográfico. A banda “esculpe” o país, obedecendo o cosmopolitismo da urbe, ao contar as histórias que canta nas mais diversas línguas nacionais.
Obra que transcende o comercial
É COMUM nas conversas e debates do quotidiano uma discussão sobre a música que se faz nos últimos tempos. Invariavelmente, a controvérsia desemboca nas questões geracionais.
Os jovens, geralmente, tendem a construir uma forma de estar e de encarar o mundo diferente da dos mais velhos.
A juventude é acusada de estar a cantar sem observar a mensagem que transmite à sociedade, numa altura em que ganha corpo a tendência de consumo efémero do mercado.
Ao usar da palavra, David Simango congratulou os laureados, em particular, porque a sua “obra transcende o âmbito comercial e de diversão, colocando-se ao serviço da consolidação dos mais nobres valores da humanidade”.
Afirmou também que estas distinções são legítimas pela contribuição destes artistas na criação, consolidação e divulgação de uma identidade musical própria.
Como tal, prosseguiu, figuram em patamares notáveis, sendo, por isso, referências incontornáveis no que diz respeito à produção musical.
Consolidação da identidade
EM todas as sociedades há aqueles que se destacam por alguma razão e servem, em algum momento, de guias. Os artistas fazem parte desses privilegiados.
Silva Dunduro, Ministro da Cultura e Turismo, considerou que o gesto do município de Maputo é “nobre porque o país se constrói com identidades e referências, e uma das referências mais importantes de uma sociedade são exactamente os artistas”.
Porque as artes e cultura, em geral, acrescentou, constituem a alma de um povo, espera que a iniciativa se repita em outras áreas, por todos os municípios do país, de forma a consolidar estas referências a nível nacional.
O reconhecimento
OS músicos mostraram o seu agrado pelo reconhecimento do trabalho que vem desenvolvendo há vários anos, algumas vezes sem apoios e noutras sem a devida atenção de quem de direito.
Carlitos Gove, baixista da banda Ghorwane, com um álbum a solo (Massone) assumiu que este galardão aumenta a responsabilidade da sua banda, tomando em consideração que já conta com cerca de 40 anos de carreira.
“Esta ‘Acácia Rubra’ significa que o nosso trabalho é apreciável e não passa despercebido. E é uma recomendação para que Ghorwane continue a trabalhar, pois ainda tem muito a dar ao país”, disse Carlitos Gove.
Já o professor Yana disse sentir-se orgulhoso por perceber que o seu trabalho é levado a sério. “Afinal não estava brincando, estava a trabalhar e a fazer coisas boas”.
Para além de ser músico, Yana é professor de música e das suas mãos já passaram vários nomes que nos dias de hoje vão conquistando o seu espaço na arena nacional.
Este reconhecimento surge graças ao regulamento que o município de Maputo aprovou em 2012. Para os próximos anos, “Acácia Rubra” será também para agentes sociais, económicos e desportivos. Ou seja, todos aqueles que se notabilizarem através das suas acções.

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