Não é de Indústria Cultural que precisamos

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Por Leonel Matusse Jr.

Estar contra a corrente é um risco que os marinheiros sábios evitam. A razão é simples: o risco de naufrágio é grande. Não obstante, talvez por não ser marinheiro, muito menos sábio, apenas alguém atento e preocupado com as nossas culturas (não as vejo singular) e artes, vou mergulhar contra a corrente.
A razão que me leva a este escrito é o debate que vai se tornando cada vez mais presente quando se fala da sustentabilidade das artes e culturas no nosso país, que é a necessidade de termos uma Indústria Cultural, ao nível da ocidental.Este debate é legítimo, sobretudo, a olhar para a condição decadente que muitos dos nossos artistas vivem, não obstante alimentarem as nossas pobres almas. O que se pretende, de acordo com os ferrenhos defensores, é a comercialização dos artigos de arte de forma rentável para os seus produtores. Outrossim, é a necessidade de nos expor e conquistarmos um espaço de respeito no concerto das nações.
O que se assiste no país, infelizmente, são artistas que vivem sem dignidade, paupérrimos e reféns de alguns copos e cigarros pagos pelos seus admiradores ou, o que é pior, por mercenários que querem tirar proveito das suas habilidades.
Os artefactos produzidos por estes, ou seja, os livros, quadros, esculturas, performances, cds e por ai vai, tendem a estar disponíveis com preços considerados proibitivos. Não que sejam de todo, porque a questão que muitas vezes se coloca é se alguém não tem dinheiro para comprar arroz, vai comprar livro? Respondo a essa pergunta com outra: e as pessoas que tem arroz, caril, frutas e leite fresco, compram livros?
A partir destes questionamentos começamos a entrar para a minha tese. Ora vejamos se não ter dinheiro para comprar um saco de arroz é o que faz com que não se compre artigos de arte, porquê que então quem tem não compra?
– Não compra porque não percebe. Investir dois mil meticais num par de sapatilhas ou numa peça de roupa tem os ganhos imediatos, que são de domínio de todos. No nosso contexto, o de ostentar um status social, um certo nível de vida, que impressiona aos demais. O mesmo não ocorre com as artes e culturas por se desconhecer os ganhos que dela advém, repare, caro leitor, que a média dos preços dos livros nas nossas livraria é de 550/800 meticais.
Neste sentido podemos perceber que alguma coisa está a falhar e porque cabe a educação ensinar, distribuir conhecimento, ela é que não está a desempenhar as suas funções em pleno.
Para a percepção de uma obra de arte há um conjunto de factores que estão no mesmo pacote. É preciso conhecer o mínimo de estética, possuir sentidos apurados e conhecimento do status quo, o contexto que o rodeia, a história e sociologia. Era só para apontar alguns exemplos.
Num nível mais profundo, mas não exactemente necessário, as técnicas usadas na composição da obra, as correntes artísticas a que a obra pertence. Mas estes elementos só são possíveis, tendo uma qualidade de educação a sério.
Então, há que se perceber que o conceito de Indústria Cultural é uma crítica lançada por Theodor Adorno e Max Horkheimer a sociedade que estava a consumir obras de arte que eram produzidas de forma estandardizada, distribuída em série, com utilidade funcional e, sobretudo, acrítica.
Estes teóricos da escola de Frankfurt herdaram um conceito de arte que a afirma como um elemento que nascido da cultura, a problematiza, a questiona, provoca debate, para além, claro, de mexer com os sentidos.
Nesta perspectiva, o que eles atacavam era o facto de estar-se a produzir obras iguais, com formato pré-definido para o consumo efémero, desprovidos de estética, pobres sob ponto de vista cognitivo, que não provocam debate nenhum, apenas lazer.
Entretanto, os artistas, intelectuais, inclusive o Ministério da Cultura e Turismo, de Moçambique abraçam a causa das Indústrias Culturais.
Abraçar esta causa é contribuir para a imbecilização dos indivíduos, é desprovê-los de capacidade de reflexão, uma vez que as obras ai criadas não estimulam a consciência de ninguém.
Ora, conforme avancei no início, é de conhecimento de todos que muitos dos nossos artistas acabam na indigência, o que ocorre por falta de conhecimento do seu valor por parte do receptor da obra. O caminho que se deve seguir para que as artes sejam rentáveis é educar a sociedade, desenhar-se um projecto de educação cuja arte faz parte, de tal maneira que os mais novos se apropriem desta logo cedo.
Porém não termina por ai, o artista tem também que desempenhar o seu papel. A arte funciona melhor quando é o retrato de um presente, pode até buscar subsídios no passado e se aventurar para o futuro, mas não se esquecendo da sua esteira que é o hoje.

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