Uma advertência inicial parece-me justa: conheço Hélio Nguane, autor de Lagartos de Madeira e Zinco. Somos amigos, e ele é também um mestre que admiro, tanto na escrita jornalística quanto na ficção. Ciente dessa proximidade, compartilho a reflexão que se segue com a máxima honestidade intelectual, conforme me aconselhou Celso Muianga, editor da obra.

Lagartos de Madeira e Zinco marca a estreia literária de Hélio Nguane, reunindo crónicas que, embora publicadas ao longo dos anos no Jornal Notícias, transcendem a efemeridade do jornalismo. As narrativas tocam o território do conto — atemporais, carregadas de emoção pessoal e traços marcantes da periferia de Maputo.

A crónica, como se sabe, é um género jornalístico que combina elementos de narração, descrição e reflexão, geralmente marcado por um tom pessoal e subjectivo. Tradicionalmente, aparece em jornais, revistas ou plataformas digitais, abordando acontecimentos do quotidiano, temas sociais, culturais ou políticos, quase sempre com uma linguagem acessível e, muitas vezes, com um toque de humor, ironia ou crítica subtil.

Estas do Hélio, porém, transcendem a efemeridade do género jornalístico, roçando em demasia o conto, que é atemporal. Numa linha que segue, no caso de Moçambique, a tradição tecida por um Aerosa Pena, Mia Couto ou Fernando Manuel.

Há uma dimensão pessoal muito profunda nestes textos, pois os eventos retratados decorrem em lugares que marcam a trajectória do autor e, nalguns casos, os personagens são pessoas da sua família (Maria Albertina Valentim Tauzene, p. 58). E, até, quando o narrador se assume, oscila entre Otto — seu nome de casa — e Hélio — nome de registo.

É neste contexto que encontramos os três espaços geográficos (e emocionais) que perfazem esta colectânea de crónicas: a Mafalala, Ka-Tembe e o Hospital (o Hélio sofreu uma operação e teve de frequentá-lo longamente). Os dois bairros são, o primeiro, onde nasceu e cresceu e, o segundo, é para onde foi morar.

Para além da carga pessoal, o autor, ao contar as peripécias quotidianas das periferias de Maputo, entra no mesmo panteão que Albino Magaia e Aldino Muianga. O faz com um certo humor e ironia, além de um excesso sentido de humanidade — que são características do autor.

Através de Lagartos de Madeira e Zinco, acedemos ao universo dos vencidos (O cigarro solitário do tio guarda, p. 13; Newcastle I e II, p. 38 e 41), as tensões e adversidades dos guetos e a capacidade de sobrevivência do ser humano que a pobreza desenvolve ou revela (Sacrifiquem o Bobi, p. 26).

Ainda no caso da Mafalala, à semelhança do que fazia Craveirinha nos seus poemas, Hélio usa expressões típicas do bairro, os nomes muçulmanos e cristãos, além dos nomes de protagonistas de blockbusters que imperam e impactaram no bairro no seu tempo (Bruce Lee, Van Damme e Boyka).

E a Katembe é, muitas vezes, esse lugar que olha para a metrópole doutro lado da margem, imaginando o mundo que as luzes da noite e os prédios altos ao longe — tão perto — projectam. É disso exemplo a crónica “As bolachas do pastor” p. 78.

O narrador é muitas vezes um observador discreto, a quem apenas cabe o retrato do que vê. Não comenta e poucas vezes permite aceder ao seu pensamento. Apenas transborda um enorme apetite de transmitir sensibilidade e inquietação com a realidade capturada do frenesim. O julgamento cabe ao leitor.