A figura do militar pode ser fascinante — a do herói.
Pode ser fustigante: matou pessoas! Na literatura, por exemplo, o Comandante Sem Medo, de Pepetela, é um líder do movimento guerrilheiro que combate o regime colonial português em Angola e representa valores como a coragem, a determinação e as complexidades de um conflito bélico.

Por sua vez, Mia Couto, na trilogia As Areias do Imperador, apresenta-nos o gentil Germano de Melo, um sargento português colonial enviado para a região de Gaza, envolvido na tentativa de subjugar o Império de Gaza, que acaba por se apaixonar por Imani, uma nativa negra.

Já com António Lobo Antunes, no romance autobiográfico Os Cus de Judas, temos um médico militar português durante a Guerra Colonial em Angola, que reflecte profundamente sobre a guerra, o impacto psicológico do conflito e o absurdo do colonialismo.

Nestes três casos, surgem diferentes facetas dessa figura controversa, oferecendo perspectivas distintas sobre a condição de ser militar. É certo que, tendo como denominador comum o colonialismo, tal contexto condiciona a percepção que deles se tem.

Todavia, num conflito cujas razões se desconhecem, ainda a derreter a cortina de ferro que cobre o teatro de operações — a notícia sobre a guerra não é a experiência da guerra —, encontramos, igualmente, Mélio Tinga, neste segundo romance, Névoa na Sala.

Sem nome — tal qual em Antunes —, o protagonista e narrador da primeira das três partes do romance está internado num hospital psiquiátrico, a tentar reabilitar os escombros que sobraram das ruínas que a guerra erigiu no seu ser — na sua existência.

O comando ordenava: matar o inimigo. Ele apenas obedecia, às cegas, sobre esse Outro. Nas entrelinhas, ecoam as perguntas: Quem é o inimigo?
Porquê?
Quem dá as ordens?

As vozes dos que matou não cessam de gritar nos seus ouvidos. É um homem sem norte desde que voltou do Norte, onde matou muita gente. As vozes penetram nos seus sonhos noite adentro, sem hipótese de fuga ou rendição.

Enquanto lia este último romance, reactivando a memória sobre o Comandante Sem Medo, Germano de Melo e o Oficial sem Nome, pensava em como os militares são tão vítimas das guerras como os refugiados ou os raptados.

Por acaso, nas cercanias de onde moro, há um fulano que habita numa realidade outra, em relação à comum. Vê-lo deslocado é angustiante para quem o conheceu antes de se juntar ao conflito em Cabo Delgado. Perdeu-se o moço porreiro e de conversa fácil.

É de perguntar: Quem mata não morre um pouco?

Os militares também são vítimas da guerra, apesar de instrumentos da mesma, tal qual os tanques e outros tipos de equipamento bélico.

A propósito, recordei-me de uma leitura antiga, do teólogo e escritor brasileiro Rubem Alves, redigindo a intenção de fazer um jardim para os seus mortos.
Cada morto, uma planta. Mas os seus mortos são queridos. Um militar nem sabe a quem mata.

Nos Estados Unidos da América, por exemplo, desde Setembro de 1943, há programas de reabilitação de militares da guerra, pós-Segunda Guerra Mundial. Uma tentativa de lhes restituir algum sentido — o humanismo perdido.

Fora a questão literária de Névoa na Sala, a sua pertinência neste momento também se deve a esta pauta que é a guerra em Cabo Delgado — conflito sob o qual há uma névoa impenetrável.

Há teorias que sustentam tratar-se de retaliação dos locais pela falta de benefícios na exploração de recursos fósseis e minerais. Outras apontam para a manifestação contra o status quo, em que falta tudo.

Há vozes que a associam à expulsão dos garimpeiros ilegais em Namanhumbir, enquanto outros mencionam a intervenção de traficantes de droga e os interesses capitalistas de superpotências.

Outros acreditam tratar-se de um plano de despovoamento da área, aproveitamento externo, ou até a influência do Estado Islâmico.

Há ainda teses que afirmam ser o resultado da conjugação dos factores supracitados, agregado a uma eventual relação de tensão entre os Mwani e os Makondes — supostamente, os segundos têm maior acesso aos recursos.

Enfim, nada está comprovado. Um dado é consumado: há guerra no Norte — o romance não tem pais.

Por força deste exercício de pensar, tenho dificuldade em isolar os eventos.

Da Europa ao Médio Oriente, a chapa está quente.

Em África, infelizmente, é comum — por forças externas e internas — colocar-se em cheque a nossa capacidade de reflectir e projectar um futuro comum enquanto continente.

Na Ásia, por sua vez, as mais mediáticas são as eminências de um ataque da China a Taiwan e a permanente ameaça da Coreia do Norte, com os seus ensaios e testes nucleares.

Com as injustiças em relação ao olhar sobre a morte de humanos, há, na actualidade, duas em particular que gravitam nos interesses das superpotências e, consequentemente, na geopolítica mundial: Ucrânia/Rússia e Israel/Palestina.

Sobre a segunda, por exemplo, Jimmy Carter, 39.º presidente dos EUA, no livro Palestina: Paz, sim; Apartheid, não, escreve que há palestinianos que não aceitam a existência do Estado de Israel e vice-versa.

Com a desproporcionalidade de forças, a questão ganha outros contornos. Tal desavença justifica a falta de entendimento desde a Resolução 242 da ONU, em 1967, até aos dias que correm.

Em meio a isto — com relativa causa e efeito —, forças terroristas de fundamentalismo fortificam-se, sustentam as suas narrativas e espalham-se pelo mundo.

O Estado Islâmico já reivindicou alguns dos ataques em Cabo Delgado — a globalização do terrorismo.

Olhando para a Ucrânia e a Rússia, encontramos igualmente um conflito interminável, sem comparação de tempo. A questão é que, em ambas, a geopolítica influencia e os jogos de interesse, com efeito em todo o globo, decorrem.

A carne para canhão é sempre o militar, objectificado pelo poder que o governa, carregando armas para descarregar sobre o Outro.

Obviamente, em cada contexto há uma realidade distinta — das variáveis tecnológicas aos serviços de contra-inteligência, até resvalar na economia.

É como nos esclarece a reflexão sobre a esquerda contemporânea.

No debate sobre a velha e a nova esquerda, há que estar ciente de que a social-democracia e a terceira via vão variar do Norte para o Sul Global — assunto que merecerá outra reflexão sobre a política doméstica.

Equivocado não estava Nietzsche ao concluir:

“É o soldado que mais despreza a guerra, e justamente aquele que deve suportá-la.”

Os soldados são vítimas. Mélio Tinga recorda-nos disso.