“Não foi Goethe quem fez Fausto, foi Fausto que fez Goethe” Carl Jung
A guerra cruza, inesperadamente, o caminho de um homem – o soldado sem nome. Um quisto impõe a impossibilidade de uma mulher gerar – Lili. E outra vítima (?) das circunstâncias – Analiza – contracenam no romance “Névoa na sala”, de Mélio Tinga
É o segundo. O primeiro foi Marizza, com o qual venceu, em 2020, o Prémio Eugénio Lisboa. A este propósito chamarei o patrono desta galardoação para percorrermos esta prosa de longo fôlego, nalguns pontos, juntamente com Foucault e Ranciere.
Atrás do inimigo no teatro das operações no norte[1], Cantinho é atingido por uma bala na garganta. Tombou definitivamente ao lado do soldado sem nome, seu amigo e companheiro de trincheira, no pelotão.
Lili, a semelhança de Marizza igualmente protagonista no romance anterior, escreve poemas. Um quisto a meio da sua primeira gestação a impossibilita de ser mãe e como nos nossos clássicos comportamentos e narrativas quotidianas o “gajo” que era seu companheiro, baza”, a abandona.
Ela aprendeu a escrever com o pai que lhe oferecia livros e revistas, antes de falecer cedo. Torna-se cúmplice do assassinato do quarto 17 feito pelas mãos do soldado sem nome. Ambos fornicam depois de se livrar do cadáver. Dos corredores, às vezes chegam as vozes de Benjamin e outras pessoas vivendo com transtornos mentais, no Hospital psiquiátrico em que estão internados.
A arte contemporânea, sugere, Ranciere saiu do espaço museológico para o real. Como quem diz que se deslocou do lugar em que podia/era mera abstração ou manifesto do político, ela se envolve no âmbito das nossas relações, digamos, mundanas, do quotidiano. E as patologias desse tipo marcam o nosso tempo, em que, de acordo com a OMS, 1 em cada 8 pessoas é portadora.
Neste sentido, o Autor (artista) – que é a acepção que me conduz neste exercício – ser aquele que acrescenta, como Eugénio Lisboa, descreve[2], recorrendo ao crítico e ensaísta espanhol Ortega y Gasset, que esclarece a origem da palavra. Os generais romanos que conquistavam novos territórios assim eram designados.
Dado igualmente explorado por Foucault, na discussão que desenvolve em “O que é o autor?”[3]. E recentemente outro intelectual francês contemporâneo Jacques Ranciere[4] reflecte, nesta linha, o autor enquanto um indivíduo capaz de ampliar o mapa do perceptível.
A divagação acima foi para apontar a luz para os traumas, trazidos por Mélio Tinga, que o casal ao qual os holofotes estão apontados enfrentam. Os laços familiares, os acasos do destino e as suas ironias. Para o ponto já referenciado relactivo às doenças mentais.
Névoa na sala tem três narradores. Analiza, Lili e o soldado sem nome. Todos auto diegéticos, relatando os eventos a partir da sua própria perspectiva, que nos permitem aceder aos seus estados de lucidez, permeiar os seus devaneios e sonhos. E nisto permitindo, o que cientificamente ainda não se conseguiu, que é entrar para o território o humano ainda indecifrável dos sonhos e da loucura. Apesar dos dois últimos não serem preocupações intelectuais recentes, ainda não tem uma explicação fundamentada.
Nem Freud[5] nem Foucault foram capazes de resolver este problema. Ainda continua uma incógnita essa luz tão intensa quanto a realidade que nos toma no estado de absoluta inconsciência e ganha vida de tal modo que sentimos, nessa experiência, as nossas sensações afloradas até ao cheiro.
O soldado sem nome tem sonhos e ouve vozes dos que matou na guerra cujos inimigos desconhecia a razão de ser senão o facto de assim serem designados pelos comandantes e os actos de comando para o abate. E, entretanto, recorrentemente é visitado pelo cadáver que conduziu ao óbito aos olhos cúmplices da sua amada Lili. Esse único finado o persegue de forma particular e insistente, dando ordens e fazendo apelos e pedidos de desculpa.
Não deixa de ser interessante recordar que Foucault, ao discutir a linguagem, considerou que a literatura é das artes a mais próxima da loucura. Lili escreve poemas.
À medida que nos aproximamos do fim, it ‘s like makes sense (?) que o soldado sem nome seja o mais lúcido pelo nível de detalhes que com o que vê nos conta, embora mais poético e musical que a escritora, sua amada.
Sendo a literatura a representação[6] de um tempo, seus dilemas, enfim, da vivência humana, não deixa de ser flagrante estarmos na sombra de uma guerra, como que a nos lembrar que ainda não sabemos viver sem elas – nunca soubemos. É parte do nosso ADN (?). A eterna barbárie nos caracteriza enquanto espécie[7].
Continua, neste romance, uma obsessão – involuntária, talvez – de Mélio Tinga com a morte. É um objecto constante do seu percurso desde os livros de contos[8]. Não enquanto – normalmente – espectáculo trágico ala Ungulani Ba Ka Khosa[9], mas enquanto condição incontornável da existência humana. Em Marizza, por exemplo, é uma possibilidade iminente para a esposa de Motta, um dos protagonistas. E em Nevoa na Sala há um assassinato em torno do qual parte da narrativa gira.
Por via de Névoa na Sala, somos confrontados por várias questões existenciais, num caminho feito pela desestrutura – na designação e numeração – dos capítulos que, segundo o escritor, obedecem a uma lógica matemática. É de uma escrita simples – não simplório – na qual se nota um salto qualitativo na oficina de Mélio Tinga. É, sobretudo, um espectáculo perturbador vivido em três actos.
Notas de rodapé
[1] Um norte incerto, mas porque a geografia não é objecto do texto, o topos de Bakhtin se anula? Nobody Know!
[2] No seu ensaio “Artista é sempre plural”, de 1962, impresso na colectânea “Crónicas da peste”
[3] Traduzido do francês para português, entre outros por Elisa Monteiro e Fernando Almeida, pela editora Forense Universitária.
[4] No ensaio o “O paradoxo de arte arte política”, integrado na colectânea “O Espectador Emancipado”, traduzido por José Miranda, na edição de 2010.
[5] Sigmund Freud, o fundador da psicanálise, ofereceu uma explicação detalhada para os sonhos em seu livro seminal “A Interpretação dos Sonhos” (1899). Segundo Freud, os sonhos são manifestações do inconsciente e desempenham um papel fundamental na compreensão da mente humana.
[6] Não na acepção da quotas
[7] Talvez o Old Major de “Animal Farm” (O Triunfo dos Porcos, em português) da fábula política escrita por George Orwell tenha razão no seu discurso inaugural. Me distanciando, nesta referência, das interpretações que o comparam a Marx e Lenin.
[8] Voo dos Fantasmas (contos, 2018) e engenharia da morte (2020)
[9] A crueza da descrição dos meses derradeiros de Damboia em “Ualalapi” e o caos que perpassa “Os sobreviventes da noite”.
