Cruza com um jovem que traja uma camiseta preta, na qual, a cor branca lê-se: A luta continua! Perde-o de vista entre os tantos outros transeuntes que vêm em sentido contrário ao seu.

As calças chino caqui creme que veste, habitualmente confortáveis, tornam o seu caminhar demasiado lento porque pesadas devido à humidade do ar.

O peso da camisa ensopada de suor por baixo de uns trinta e nove graus suga qualquer um. Ainda assim, algures na Avenida Alberto Lithuli, Matias inala e expira com singular dedicação o fumo antes de atirar a beata para um contentor de lixo. Veste uma camisa de mangas compridas, desses tecidos sintéticos da China, azul.

Recupera a marcha. Desce em direcção à 25 de Setembro. Está a pé. Andar ofegante, corpo cansado. Um metro e oitenta e sete, jogou basket por um tempo, na infância e adolescência. Desistiu repentinamente. Perdeu o encanto, como o fez com muitas outras paixões.

— O brother está levar da weather — comenta um moço com os seus companheiros, na intersecção com a Josina Machel.

O jurista, a frequentar a segunda fase do estágio na Ordem dos Advogados, faz-se indiferente à provocação.

Segue, ciente de que, nalgum momento, terá de parar numa sombra ou casa de banho pública para limpar os sapatos castanhos da poeira da Machava, onde mora, e dos, a seu ver, incautos que o pisotearam no chapa. Vai a uma entrevista de emprego.

Desde a licenciatura em Direito, há três anos, que não se consegue integrar. Na Machava, nos quarteirões de quintais de não me toque e ruas estreitas com muito areal, é respeitado pelos vizinhos. A dondzile luia. É o maza. Assim igualmente lhe chamavam os colegas no tempo da Universidade Eduardo Mondlane.

O primeiro a entregar os testes. Melhores notas da turma. Já sabíamos que seria um grande líder. Pela habilidade na escrita e oratória, que mescla tecnicismo, domínios legislativo e académico do objecto, redigia notas de culpa, autos e tal para ex-colegas de carteira. Daí sai o pão que contribui na mesa de casa. Alguns trocados.

Na conversa com uma das suas vozes interiores, promete que o primeiro salário, caso consiga o tal trabalho, será para comprar terreno e começar o quarto para escapar à renda. Sair da casa da tia, que o acolheu quando chegou a Maputo para frequentar a faculdade.

Está a residir no município da Matola há sete anos. Desde que chegou, nunca conseguiu juntar a quantia de passagem para a terra. Vê os irmãos nas videochamadas no smartkika.

Mensalmente, manda o que pode para a mãe, em Chibabava. Em meses bons, até deposita uns 2000 meticais para o “Confirmado” da velha.

Outra responde:

— Ainda terás de aturar o time de terminar de meter blocos no terreno que serão roubados e, quando fores à Polícia, não terás nenhuma resposta; matrecadas de pedreiros a fazerem coisas das cabeças deles na tua casa, a gastarem o material; subornos para o fulano do município para o DUAT; o vizinho invejoso.

Surge uma a impor silêncio à que ouvia anteriormente:

— Vais conseguir, sim. Na verdade, é só uma questão de posse. Lembras que o pastor, no culto de domingo, disse que alguém iria conseguir emprego esta semana? Estava a falar de ti. É só posse, Deus já escreveu o teu destino.

Outra voz disse:

— Lá está, ainda nem foste entrevistado e já estás nessas? Sabes que todos que vão lá ajoelharam e oraram antes de ir, ou tomam o banho no João, na calada da noite. E, para piorar, responda: com apelido Nhantumbo, quem vai te contratar? Aquelas vagas já têm dono, não esquece!

O wake up call foi a buzina nervosa de um carro que, a alta velocidade, subiu o passeio a esquivar um buraco no meio do asfalto. O coração bate-lhe como se fossem aqueles os instantes derradeiros da sua existência. O driver do Toyota Ractis esquiva-o por milímetros e baza.

A mãe aguarda expectante, em oração, pela potencial boa nova do seu primeiro filho licenciado. Na verdade, é o primeiro da família. O seu irmão, taxista de mota em Quelimane, está ansioso para se gabar junto aos colegas que tem um irmão que usa gravata e trabalha no escritório, no ar condicionado em Maputo. A caçula ora para que ele consiga e a vá buscar para estudar na universidade, quer fazer Medicina.

Próximo do Restaurante Coimbra, para. Saca do bolso uma nota de 100 meticais. 10 meticais serão para a casa de banho. 35 para as ligações do chapa, na volta. Sobram, graças a Deus, uns 55 meticais. Dos quais, 20 para cigarros. Está-se bem, contas feitas. Dá a respectiva moeda ao guarda do restaurante, que o deixa entrar para a casa de banho.

O espelho revela-lhe a barba cuidadosamente cuidada, juba ajustada. Preventivamente, levou outra camisa. A troca. Estava na mochila e não amarrotou graças a uma técnica chinesa de dobrar que viu, por acaso, no Facebook. Esta é branca.

— O que será que me irão perguntar? Será que não estou demasiado formal? Serão homens ou mulheres, ou ambos, a conduzir a entrevista?

Roçou o bolso num acto falho. Apalpou para confirmar. O seu rosto dobra-se em contornos de preocupação. Afunda a mão esquerda no bolso esquerdo e a direita no direito. Não está lá a carteira.