MR. BOW É UM «MONSTRO» NA MÚSICA MOÇAMBICANA – ENTENDA AS RAZÕES!

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Por:Inocêncio Albino / docente e jornalista

«Aquele que não aprecia o som do silêncio, jamais saberá distinguir música de qualquer ruído!»

Três anos depois de, em 2017, ter fracassado como um dos melhores storyteller deste país, dado o nervosismo com que abordou o caso do seu divórcio, com a ex-parceira, na música «Timaka ta ma Ranger[1]», MR. BOW voltou em grande na cena da música moçambicana e, em consequência disso, mais do que nunca foi preciso, é, mais uma vez, motivo de uma nova narrativa. É evidente que em um ano marcado por uma série de peripécias conjunturais – assumindo protagonismo, nalgumas das quais – MR. BOW não reúne atributos suficientes para ser visto de forma consensual. Ainda assim, com a sua nova obra, um verdadeiro estrondo artístico, BOW conseguiu reafirmar a sua grandeza como um verdadeiro storyteller. Um verdadeiro «monstro» da música moçambicana, assumindo, ainda que timidamente, a sua grandeza.

Comecemos por recordar que todo o tipo de produto ou serviço (uma obra de arte, um bem ou uma experiência de um concerto musical ou uma palestra, por exemplo) que se destina a determinada audiência (público, consumidor, cliente ou utente) não escapa à influência do Marketing. Quanto mais se ansiar que tal produto seja bem-sucedido, devendo permanecer no imaginário social das pessoas e na memória das audiências como sendo «a escolha número um», o Marketing tenderá a exercer uma influência efectiva e permanente.

Não é obra do acaso que, muitas vezes, se associa a utilização da técnica do storytelling ao Marketing e à Publicidade, embora a sua aplicação vá muito além destas (duas) áreas. Eis a razão desta insistência em falar do storytelling no campo da música, tendo como referência de um bom exemplo de storyteller o artista moçambicano MR. BOW.

Mas, então, o que é o storytelling? Comecemos por clarificar tal questão basilar: «é a arte de contar histórias usando técnicas inspiradas em roteiristas e escritores para transmitir uma mensagem de forma inesquecível» – relata o analista de Marketing DIMITRI VIEIRA[2] cujo raciocínio é corroborado por FILIPE OLMOS[3], para quem trata-se da «arte de contar histórias para atrair e engajar clientes,  funcionários ou um determinado público de interesse».

Seja qual for a definição, existem dois aspectos fundamentais quando se fala sobre o storytelling: a história ou a mensagem (story) que se pretende transmitir e a forma como essa mensagem será transmitida (telling). Parece evidente que uma narrativa forte tem mais probabilidade de ser bem-sucedida, no seio das audiências, mesmo tendo um fraco telling. No entanto, o sucesso não é garantido a uma história ruim. Talvez, em parte, a força da narrativa da obra aqui em referência, só em si, explique o êxito da nova música de MR. BOW. 

Embora, objectivamente, a música de MR. BOW capte a dinâmica (estamos a evitar a expressão «vida e obra») de um jovem campesino que, em meio a dificuldades, «abandona» o campo – a sua zona de origem – para a cidade, onde «luta» pela vida até concretizar a utopia de se tornar um rei (pelo menos, no âmbito da música moçambicana; o King Bow) esta obra perpassa a história de um músico de sucesso uma vez que – por influência da empatia – gera uma co-identificação/co-identidade[4] que se bifurca entre vários sujeitos sociais, desde aquela mãe (que cria os seus filhos em um ambiente difícil); os filhos (que experimentam uma série de dificuldades); e todos aqueles que, cada um em seu contexto objectivo, quotidianamente, lutam para singrar na vida.

E estes sujeitos sociais, agentes da acção, estão espalhados em Moçambique, na África Austral, no continente africano no seu todo, no contexto da comunidade dos PALOPs, e, por que não, no mundo inteiro. Estes indivíduos ao reverem-se na narrativa expressa em «story of my life» co-identificam-se com ela. Eis a razão de ser MR. BOW, hoje, um músico não apenas de âmbito nacional, regional, da comunidade dos PALOPs, continental, mas também e acima de tudo, um músico a ter em conta no mundo. Um artista de que Moçambique se deve orgulhar. 

É de importância vital que artistas que possuem uma história de vida com uma natureza i) desafiadora; ii) de superação; e, finalmente, iii) de sucesso, como é o caso de MR. BOW, despertem nos desvalidos desta vida, sobretudo quando estes constituem parte significante das suas audiências, o gatilho mental necessário não somente para restaurar a crença de que a transformação social é possível, mas, acima de tudo, lutar para que ela ocorra não obstante as dificuldades paralelas. É isto o que MR. BOW faz através da sua recente obra story of my life, às vezes realizando apelos emocionais noutras, usando um discurso persuasivo contra o marasmo e o conformismo – os grandes aliados da estagnação e da miséria.

Deste ponto de vista, sempre atento à autobiografia de MR. BOW, agora musicalizada, localizado o público-alvo a que se pretende influenciar, é possível, a partir daí, afirmar seguramente o storytelling como um antídoto que vai de encontro aos anseios, às expectativas e desejos a realizar por parte das audiências. 

Para uma melhor argumentação do ponto de vista aqui apresentado, aceitemos esta pequena, mas necessária, digressão conducente a uma melhor compreensão dos alicerces a que se assenta a grandeza da obra de MR. BOW. Vamos em partes:

  1. Moçambique é um país pobre, mas é, acima de tudo, o país do «a luta continua!» Este discurso – diríamos até, esta filosofia – é secular. E, se assim for, do que nos vale esta pobreza? O que devemos fazer enquanto ela prevalecer? Simples: «a luta continua!» Combatemo-la. Aquando da proclamação da independência nacional, em 1975, inspirada em tal discurso (que ouvira pela primeira vez na nossa terra), MIRIAM MAKEBA começou a cantar Moçambique «a luta continua!», exaltando Moçambique como uma grande nação.
  2. Certamente, eu não conheço com exactidão o contexto da vida de EDUARDO MONDLANE, o arquitecto da nação moçambicana. Sei porém, que MONDLANE originou-se no interior da província de Gaza, sul de Moçambique, de onde partiu para os Estados Unidos da América, no início da segunda metade do século XX, a fim de se preparar até tornar-se douto o suficiente para «Lutar Por Moçambique». 
  3. No terceiro quartel do século XX, mesmo sem ‘saber pronunciar nenhuma palavra’ dos idiomas nativos dos países de chegada, alguns moçambicanos foram enviados a países como China, Rússia, Alemanha, Cuba, a fim de (frequentando formações em diversas áreas estratégicas para o desenvolvimento) se preparem melhor para dar continuidade ao projecto da nação moçambicana. Eles aceitaram o desafio de estudar, não obstante as adversidades.  
  4. Há três anos (2017), eu mesmo escrevi uma mensagem densa no Facebook sobre a música «Dondza» (estude) de ROBERTO CHITSONDZO, definindo-a como a melhor obra do autor, se calhar, em toda a sua carreira. Como era de esperar, vozes apareceram dizendo que eu estava equivocado; outras, ainda, impeliram-me a argumentar o meu ponto de vista, o que prometi fazer em ocasião própria. Infelizmente, ainda não consegui – falta-me alguma coisa para fazê-lo (chamemo-la inspiração).

Um facto irrecusável é que quer a situação de MONDLANE quer a situação dos demais moçambicanos que assumiram estudar, nos mais adversos contextos, não foi fácil. Imagino! Infelizmente, ainda hoje, persistem pessoas que não entendem que entre estudar em baixo de uma árvore frondosa, sentado no chão, que não estudar – a primeira alternativa (com todo o sacrifício implicado) continua a ser a melhor. Há alguns anos, certo ministro propôs a ideia de se adaptar um conjunto de autocarros com avarias irreparáveis de modo que funcionassem como salas de aula. Muita gente, sem entender o seu mérito, desviou-se da proposta e do debate central. Em resultado disso, praticamente, nada mais aconteceu.

Entretanto, em 2017, ROBERTO CHITSONDZO publica o primeiro trabalho discográfico a solo, intitulado Kwiri. E dentre as 14 faixas musicais que o compõem, CHITSONDZO incluiu a grandiosa obra Dondza por meio da qual, de forma sábia e esteticamente bela, consegue sintetizar a mensagem sobre a urgência de (se) estudar para melhorar as condições da vida. E chama essa obra primorosa Dondza (estude!). Canta-se em xiChanga em tal música, ainda assim – ela reúne condimentos suficientes para se tornar um hino nacional a ser entoado em todas as escolas moçambicanas, a fim de fazer perceber às crianças o sentido de missão quando se vai à escola.

Mas como a música fala sobre a escola, a educação, quase que ninguém se deu conta da sua grandeza e, consequentemente, muito do que se podia explorar nela – mantêm-se em potencial. Em Dondza, ROBERTO CHITSONDZO enumera as dificuldades que milhares de pessoas enfrenta(ra)m à busca de conhecimento, reafirmando que nunca foi fácil e jamais será. Ainda assim, sentenceia: Dondza (estude!). É um imperativo irrecusável, elaborado de forma eticamente correcta, encantadora e filosoficamente defensável. Ou seja, não há lei contra a educação da mesma forma que não há lei contra o bem.   

Em Dondza, entre outras virtudes, temos: um discurso intemporal; uma obra de arte para a eternidade, para gerações, povos, culturas, nações e civilizações. É um belo trabalho gerado por um artista moçambicano, expressando a sabedoria moçambicana, que agora encontra extensão em MR. BOW na música «story of my life», porque, não obstante as adversidades que enfrentou, MR. BOW não abdicou de ir à escola. E isto está claramente expresso no discurso e no vídeo da obra de arte em alusão.

Felizmente, apesar de não ser especialista em nada, muito menos do assunto de que falo aqui, quero acreditar que, como pessoa, pronunciei as minhas primeiras palavras de vida em xiChangana. Por isso, por me considerar um falante nativo desta língua; por não acreditar muito na força da tradução (não obstante reconhecer o seu mérito na ampliação do acesso à informação falada/escrita por parte das audiências falantes de outra diferente); e, acima de tudo, por algo dizer-me que a ideia do «go to school at night in search of a better life» pode não ter captado o alcance e a essência da mensagem de MR. BOW; vou concentrar esta parte final do texto para desenvolver esta ideia.

Primeiro, sempre reservando algum benefício à duvida, penso que a acção praticada em «go to school at night in search of a better life» é simples e quase simplista, já que pode dar a entender ao ouvinte a ideia de «estudar à noite para melhorar a vida» ou de «ir à escola à noite para melhorar a vida». Apenas isso – embora, pelo facto de o sujeito «ir à escola à noite» ou «estudar à noite», possa ficar subentendido que o sujeito desenvolve outra actividade ao longo do dia, sendo que só à noite pode «ir à escola» / «estudar».

MR. BOW fala sobre «ir continuamente», numa mensagem enfatizada pela palavra GIDELA. Afirma ele: «Usikwini ‘niGidela’ a xicola na nilava a wutomi[5]». Entretanto, a acção traduzida pelo verbo GIDELA, aqui destacado, não é apenas do «ir» ou «go», como se traduziu em inglês. Mas é do «ir continuamente» ou «keep going».

É por essa razão que vou insistir na ideia de que o contexto enriquece a compreensão da mensagem, admitindo a hipótese de tal contexto – expresso no vídeo – estar traduzido pelas cenas do próprio filme.

Como estamos a falar sobre música, usando uma comparação muito rápida, diríamos que o contexto que enforma a narrativa de BOW é uma situação de escassez, de carência ou de todas as insuficiências materiais vivenciadas pelas pessoas a quem ROBERTO CHITSONDZO – na música «Dondza» – aconselha/inculca a acatar a ideia de «irem à escola». Isto significa que trata-se de «um ir não obstante as adversidades»; «um ir perante adversidades»; «um ir para fazer face (ou vencer) às adversidades»; e, por fim, um ir que se convence de que deve acontecer não obstante – como cantara JEFF MALULEKE na música «sala» – o custo de vida / a miséria. É um ir que não quer ir, mas que tem de ir uma vez que é impelido pelas circunstâncias, qual miséria perseguindo a pessoa do sujeito poético arauto de tal mensagem.

Do ponto de vista da arte, da técnica e da ciência do storytelling – antes mesmo de encerrar esta conversa que já vai longa – vou assumir a ousadia de afirmar a obra «story of my life», aqui debatida, como uma superprodução, mas não só sob o viés do investimento tecnológico, porque em Moçambique já se fazem videoclipes de excelente qualidade há quase três décadas. Em «story of my life», há um passo adiante dessa mesmice. Há um conceito sólido, embora em fase seminal (ansiando, por isso, um útero para se desenvolver e tornar-se um ser/ uma existência efectiva!). Esta obra capta de forma sincronizada – e, por essa razão, perfeita – os quatro elementos de um bom storytelling: a mensagem, o ambiente, a personagem e a trama ou conflito que anima tal personagem. É uma obra, inclusive, auto-comunicativa para qualquer audiência (ou seja, não precisa de nenhum tradutorpara explicar o seu sentido).

Com esta obra, MR. BOW conseguiu concretizar o grande feito de calar a boca de vários blogueiros – que nascem feito cogumelos, neste país – viciados em escândalos, envolvendo pessoas famosas, sobretudo cantores, dando-lhe um trabalho diante do qual faltam-lhes e faltar-lhes-ão por muito tempo «miolos» para abordar como deve ser. Mais importante ainda, com a sua criação, este artista conferiu um lufar de ar fresco aos jornalistas culturais, há bastante tempo, desejosos de matéria-prima, no campo da música, para um comentário semelhante ao presente ou porque não de uma recepção crítica.

Enfim, é com esta obra esteticamente bem concebida e executada; eticamente defensável; e filosoficamente fundamentada, que temos matéria-prima para reafirmar uma crença: «aquele que não aprecia o som do silêncio, jamais saberá distinguir música de qualquer ruído!»

Inocêncio Albino / docente e jornalista.


[1] Veja o texto A disfunção do storytelling na música Timaka Ta ma Ranger» de Mr. Bow, do mesmo autor, publicado na Plataforma Mbenga – Artes e Reflexões, através do link https://mbengamz.wordpress.com/2017/09/08/a-disfuncao-do-storytelling-na-musica-timaka-da-ma-ranger-de-mr-bow/.

[2] Encontre detalhes sobre a sua matéria, visitando o link https://comunidade.rockcontent.com/storytelling/.

[3] Informação adicional sobre a perspectiva deste autor, disponível em https://loudandclear.xyz/blog/storytelling-e-storydoing-qual-a-diferenca/.

[4] Vale enfatizar aqui que o termocapta a dimensão da linguística saussuriana, em que identidade significa igualdade de um elemento em relação a ele próprio, ainda que estejam em situações diferentes; ou da lógica filosófica em que a identidade seria a qualidade através da qual um ou mais objectos possuem propriedade iguais, ainda que designados distintamente. Deste ponto de vista, eu – ou o estimado leitor – rever-me-ia na experiência de MR. BOW, narrada em «story of my life», não obstante nunca ter vivido numa zona rural. Lembremo-nos de que nas zonas urbanas há também gente de condição humilde, ansiando por melhores condições de vida.

[5] É possível que, do ponto de vista de grafia, eu não tenha escrito devidamente as palavras da língua xiChangana. Razão pela qual quero avisar ao leitor a não se fiar cegamente nesta grafia.

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