À procura do texto

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Esta coisa de escrever. A musa, por vezes, tranca-se no Olimpo. E o escritor míngua a procura do texto. Inspiração?

O semblante do escriba contrai, deitado no colchão com resquícios de já ter sido azul. O ecrã do telemóvel ilumina o rosto. Levanta e vai para a casa de banho. No corredor, sem lâmpada por que desde que queimou nunca foi substituída, acompanha a conversa dos ratos que correm no interior oco das paredes de gesso.

Volta para a sala, senta-se numa das duas cadeiras plásticas emprestadas, que têm em casa. Uma folha A4 em branco, uma bic azul, repousam na mesa branca sem toalha. O texto não quer vir a lume. Nem se quer existe! É assim, há meses. Não suporta, não assume, não reconhece a condição. Não há texto nenhum.

A música vulgar do Mangati -uma barraca das proximidades -, perfura as paredes, aproveita-se da janela com o vidro partido, a tranca viciada e da parte do tecto que cedeu, para distribuir-se pela dependência no terraço. E faz eco no vazio da casa. E faz eco na folha em branco. E faz eco na frustração.

Então o escriba, que não tem computador, verte a tinta azul da caneta, neste esboço:

Descobre-se sentado no chapa, a caminho da baixa. Pela janela, contempla um muro vermelho que promete tudo bom, na zona do Zé Macamo, deixando Luís Cabral para trás. Desmancha um sorriso. Devaneia. Retorna a si quando, depois da subida íngreme da avenida 24 de Julho, nas bombas, enquanto o chapa “TNS” abastece, na Versalhes, lê: O VALOR É TEU, num machimbombo do tipo TPM que baza, revelando-se assim as luzes a cair, da Ponte Maputo-Katembe. Está sem carga no smartphone.

Indignado, o escritor não vislumbra poesia no que acaba de escrever. Amarfanha o papel. Atira contra a parede, junto a garrafeira, que sorri com uma garrafa de Amarula, há muitos meses vazia. No chão, no limite do carpete plástico, txuela, amontoam-se papéis.

Sabe? Caro leitor, dói na alma não conseguir escrever. Até a manhã seguinte tem de entregar o texto ao editor. Tem de sair, impera uma voz interior.

Levanta-se, a ansiedade lhe leva de volta a casa de banho. No regresso, é tomado pelo branco intenso que reflecte no chão de uma parte do corredor. É o contrapicado da lâmpada da sala. Dali vê o limite da luz. No cotovelo da parede está mais incisiva, e vai cedendo com alguns fios de luz que se perdem a menos de um metro da dobra contígua à sala. Um lençol semi-escuro forma-se na parede esquerda. E dobra-se até perder-se. São 21:48, sinalizam os números digitais com design analógico, no relógio de parede, noutro extremo escuro da dependência.

Nesse instante, queria ter o poder de um Sérgio Raimundo. Mas sabe que só poucos iluminados são capazes de do nada inventar um mundo. Mas ok. Tentando voltar ao texto, que não existe: ateu que é, pelo smartphone reproduz “Inta Mutlhangela”, de Ivan Mazuze. Volta ao papel.

Título: O Mundo ainda não acabou de ser inventado

Os irmãos Albazine, os Ruis, a Noémia, o Zé, o Luís, o Gulamo, o Aníbal. Enfim, não fizeram tudo o que é fazível. Quando penso na Bíblia, a lounge, do Leko, logo concluo que ainda pode-se dar outro sentido. O problema maior, entretanto, é que os escritores, os artistas, é que dão sentido ao mundo. Mas sabe? Nós também não sabemos.

O Nádio e o Rui batem o portão, abandona o papel e lá vai ter.

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