O VAZIO QUE ENTRISTECE

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São 23 horas. Abro a porta de casa depois de mais uma jornada de trabalho. O lado de fora está frio, a fechadura, gelada, pinga gotas do frio que anuncia a chegada do inverno. Sopra o vento que embala as cortinas e dentro de casa há um silêncio gelado. Do móvel ecoa Tempo da voz inconfundível de Salvador Sobral ao lado de Tiago Nacarato. Cantam sobre ser feliz, numa melodia tranquila da guitarra.

As vozes são melancólicas, dramáticas e ainda bem, porque a felicidade não é sobre o que se diz, talvez seja sobre o que se vive.

Embalo-me ao som daquele jazz. Quando a música termina, percebo  que não existe mais nada senão o silêncio que me rodeia. Cai sobre mim a dimensão do vazio que é essa vida.

Uma lembrança, uma saudade de alguém muito querida me evade a alma. A tristeza é contínua, como se ela fosse uma extensão do ser. As despedidas (não houve um Adeus) talvez sejam o melhor momento para se anunciar a saudade, se calhar de algo que nunca existiu. E é essa dúvida que deprime.

Certa vez li uma reportagem da jornalista portuguesa Helena Bento, sobre insónia, com o título “Ou durmo ou morro”. Aprendi ali que talvez a vida não seja tão valiosa quanto parace, quando vista doutros primas.  É como se ela fosse um fardo e a maior luta é desfazer se dela. Mas o que seria dessa caminhada se não existisse a tristeza? A felicidade é o último ponto a se atingir e que bom que esse êxtase fica no bico do rebuçado, para nos lembrar que os melhores momentos são reservados para o fim, como as gotas de suor que pingam depois do orgasmo.  

Reparo ao meu redor e só noto o vazio. É esse mesmo vazio que está nas entranhas do meu ser, como se do fundo do poço se tratasse. Esse vazio é o que acompanha o resto da humanidade. Reviro a memória e embalo-me nos revesses humanitários que o mundo já experimentou.  

Das crises humanitárias, as duas grandes guerras, do holocausto e da loucura “incompreensível” do Hitler de querer purificar o mundo com a dominação da raça ariana.

Do genocídio de Ruanda que deixou o país em rastos e com o cheiro de sangue, das bombas atómicas dos americanos sobre as cidades Japonesas de Hiroshima e Nagazaki.

A crise existencial é a doença do século. É a depressão que chamam de frescura, é a juventude que quer envelhecer, os adultos que querem ser crianças.

É o mundo que se informatiza e se torna individualista, é a era dos Tablets, dos emojis que substituem as palavras, das abreviaturas irritantes, da ignorância que se esconde por detrás dos smartphones, da vida que se desvaloriza, da morte que se espetaculariza, da solidão que se partilha, das lágrimas que se quer mostrar ao mundo, da tristeza que humaniza, do mundo que anda surdo, da solidariedade que se mediatiza.

É zero hora e a mente está cansada, o corpo está esgotado, mas os olhos não querem fechar-se. Um novo flashback visita e visualizo-me há alguns anos. Uma lágrima cai quando o ego reconhece que algumas lutas valeram a pena. É sonhar que nos faz acordar no dia seguinte. Reconheço que esses males criados pelo homem sempre tiveram um fim último, a concretização dos sonhos, porque eles nos salvam da solidão, do sentimento de fracasso. Acordar para mais uma luta é sinónimo de ter vencido uma batalha.

São 2 horas da madrugada e um sono leve começa a embalar-me . Desligo o computador na esperança de poder descansar. Amanhã há-de ser um novo dia, canta Prodígio. Que esse dia chegue logo, mas enquanto isso, vivo sonhando, porque os sonhos salvam a existência e o sentido da vida, ainda que sejamos motores da nossa própria dor…

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