Um livro de boas intenções

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A ARTE, não poucas vezes, serviu de veículo de ideologias de caris político. Leon Trosky é esclarecedor nesse sentido. Depois do advento da doutrina de que tomou posição na linha da frente, outra que dividiu o mundo e cuja história nalguns pontos se assemelha ao cristianismo – o tal platonismo do povo, nas palavras de Friedrich Nietzsche -, ao ter, igualmente, um Davi (Bolcheviques) que derruba um Golias (Czar), muita tinta, vermelha mesmo, rolou.

O Brasil foi, noutro momento histórico, na década 60 palco no qual os actores do teatro do espaço público se usaram da arte para confundir o regime, que reprimia o uso público da razão. Foi, como se diz, a idade de ouro da Música Popular Brasileira.

Porque não há grades para os ventos. Eles rumaram, na mesma época, para Moçambique. Nessa altura, o proto-nacionalismo fervilhava, com Luís Bernardo Honwana a fazê-lo com os seus desenhos, tentando matar o cão tinhoso. João Ayres, Sílvia Bragança, com os pincéis faziam o mesmo. De resto, já se sabe: Craveirinha e Noémia em diante. Até terminar no Marcelino, Rebelo e outros poetas de combate.

O propósito deste introito é o texto “Mulher Sobressalente”, do jovem escritor Dany Wambire. Não que seja movido por questões políticas, mas, igualmente, com a preocupação pela mudança do estado de coisas.

Com efeito, esse livro, que sai sob a chancela da Fundza, é uma colectânea de contos que têm a intenção de chamar a sociedade a reflectir sobre situações micro, com as quais lidamos no nosso quotidiano.

O escritor foi buscar as vivências da cidade da Beira e arredores, bem como do interior de Sofala, para construir esta obra. E nessa empreitada ele inclui, com as suas nuances, todos nós, dando-nos ainda textos curtos que, ao ritmo do “Karingana ua Karingana”, nos fazem lembrar os convívios em noites de lua cheia e à volta da fogueira.

A partir desses relatos, tal qual reportagens de fundo, Wambire investe numa escrita de pendor moralista, na qual conduz o leitor a tomar a posição que o sujeito poético tem sobre o assunto a ser tratado.

Nesse sentido, assumindo que a literatura tem que trabalhar como caminho e nunca destino, o contista peca nesse ponto, limitando o leitor de viajar por outras possibilidades, que não aquelas.

Entretanto, é preciso reconhecer a habilidade que Wambire tem de descrever quem nós somos, a nossa forma de pensar e estar. O substracto cultural, da desejada moçambicanidade, corre pelas veias do pensamento deste jovem.

Com recurso a uma linguagem simples, com algumas inversões na ordem gramatical, num exercício que, de certa forma, demonstra que Mia Couto pode ter sido uma forte influência para Dany Wambire, às vezes cai em lugares comuns sem, no entanto, estar despida de poesia e de inteligência.

No geral, “Mulher Sobressalente” não sai dos padrões, e a investir em contos com finalidade previsível não consegue nos causar indignação, como, por exemplo, acontece com o assassinato de Santiago Nassar. Ou impressão, como no último discurso de Ngugunhane.

Portanto, à semelhança dos russos e, mais tarde os brasileiros e nós mesmos, sem, no entanto, interesses de cunho político, este livro é guiado por uma consciência questionadora que poderia ter ido mais a fundo no que à literatura diz respeito.

O escritor, a concluir, já demonstrou nas obras anteriores, “O curandeiro contratado pelo meu edil” e “Quem manda na selva”, tratar-se de um cultor da palavra de valores de que esta nova vaga de escritores e a literatura ainda vão se gabar.

lEONEL2

Acredito que pequenos gestos podem mudar o mundo. Encontrei no Jornalismo a possibilidade de reproduzir histórias inspiradoras. Passei pela rádio, prestei assessoria de imprensa a artistas e iniciativas. Colaborei em diversas página culturais do país. Actualmente sou repórter do jornal Notícias. A escrita é a minha arma”.

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