O mar torna-se, a cada exposição, o lugar de existência da imaginação de Lizzie Ana Uamusse. O azul e o desconhecido que habitam o horizonte, com os seus mistérios para lá da enigmática linha que o delimita no alcance da vista humana, constituem o palco (ou a partir do qual) ela se faz artista.
“Entre mundos: ecos do cosmos & fluxos celestiais” é o título da actual exposição de Lizzie, sob curadoria do artista contemporâneo e professor de História de Arte, Jorge Dias, patente na Galeria da Kulungwana até 4 de Abril.
No texto de apresentação da exposição inaugural da época (até agora conturbada e imprevisível) de 2025, o curador dá a ler, na sua percepção, que a artista questiona os limites da imaginação e, nesse caminho, propõe uma viagem por fantasias espaciais.
É neste contexto que, para Dias, “Lizzie projecta-se para um espaço e tempo, o desejo de atravessar mundos e encontrar a representação de [um] futuro que está para além da realidade terrestre”.
Pela razão acima exposta, prossegue o texto de apresentação, a artista propõe uma generosidade espiritual, ao enxergar para lá do portal, vivê-lo na perspectiva de encontrar a paz interior e estimular a imaginação. O que culmina no facto de a pintura proporcionar a Ana a liberdade e o desejo de se projectar a espaços infinitos.
Este exercício é executado através de pinturas a óleo, em que o azul é uma presença permanente na cromática das telas, que, mesmo na ausência do mar, insistem em evidenciar-se.
Percorrendo a galeria, pode-se ficar com a impressão de que o acto de contemplar ou de se projectar no horizonte do mar é sinónimo de travessia, através do pensamento e da imaginação, para o infinito de possíveis realidades paralelas a esta que acreditamos viver nos nossos quotidianos.
Imagens e títulos como, por exemplo, “Portal infinito”, o vazio de outros objectos possíveis na tela “Brincando entre estrelas”, para além das duas crianças que a compõem e da composição de cores, ou ainda a embarcação que atravessa o quadro “Reflexos do infinito”.
Explicando as suas opções para “Entre mundos: ecos do cosmos & fluxos celestiais”, Lizzie Ana Uamusse afirma que, nesta exposição, faz “um convite a uma jornada onde paisagens oníricas, energia cósmica e movimento se entrelaçam”.
Nesta colecção, continua a artista autodidacta – como faz questão de frisar –, propõe-se a explorar o delicado equilíbrio entre o visível e o invisível, o tangível e o espiritual, entre o nosso mundo e o infinito além. (Debate caro a Jacques Rancière em “O destino das imagens” e “O espectador emancipado”).
Lizzie Ana, que na exposição anterior, “Murmúrios do Mar”, na Fundação Fernando Leite Couto, em 2023, igualmente mergulhava nas águas do mar e nas suas margens, parece, nesta exposição, questionar se existe o irrepresentável, tentando representá-lo. Insiste na percepção da representação enquanto fundação restrita da infraestrutura da arte, numa abordagem que recorda, rompendo, aquele velho dilema do escritor diante de uma sensação que não encontra na língua equivalente.
Escapa, entretanto, a nosso ver, a dimensão do percepcionável nas descrições que a autora coloca nas legendas das obras, que, de propósito, ignoramos, crentes de que o sensível não precisa ser explicado — se não, qual é o papel de quem vai à galeria contemplar e tentar descortinar a proposta do artista? Talvez, tratando-se de conceitos contemporâneos de arte em que o sentido de representação nos é apresentado como algo absolutamente inédito — o que não é o caso, em termos da linguagem que esta artista nos apresenta. Ainda assim, facilmente podemos enquadrar esta mostra nos padrões modernistas.
