A dor, muitas vezes, não se anuncia em voz alta. Ela se acumula nos silêncios, camufla-se nos gestos automáticos do dia a dia, transforma-se em cansaço imperceptível. Mas o que acontece quando a voz reprimida se torna apenas ruído no caos de um mundo que se recusa a escutar?
No livro de poesia, Grito o Mundo Gagueja, Alcione Thulani Amós nos coloca diante desse dilema. Sua poesia materializa o sofrimento, tornando-o palpável, como se cada verso suportasse o impacto daquilo que muitos tentam esconder. No poema Tal Como Morrer, a autora traduz a angústia do desencontro com o mundo:
“Mentalmente, já estou morto,
Pois a morte chega muito antes da corda
Ou dos pulsos cortados.”
Nesse contexto, Alcione Amós desmonta a ideia de que a morte acontece apenas quando o corpo deixa de funcionar. Seus versos revelam que, para muitos, o fim começa bem antes — na erosão da vontade de existir. A depressão, conforme expressa na obra, transcende a noção de mera tristeza passageira, configurando-se como um processo de esvaziamento subjectivo. Trata-se de uma dissolução da identidade diante de uma condição que se mantém implacavelmente indiferente, reforçando a sensação de reclusão e a ruptura com o próprio existir.
Essa indiferença social também aparece em outros versos, como em:
“De tanto carregar a chuva
E de me esconder aos alpendres para
Não molhar,
Acabei por construir minha própria
Neblina,
E agora chove mais.”
A metáfora da chuva sugere o acúmulo de sentimentos reprimidos — dores que, por medo ou vergonha, são contidas até transbordarem. A poetisa denuncia um mundo que empurra os indivíduos para a solidão emocional, onde o silêncio sobre a dor não a dissolve, apenas a transforma em um fardo ainda mais inexorável.
Outro aspecto marcante da obra é a crítica à maneira como a sociedade julga e minimiza o sofrimento alheio. No poema:
“Se por ventura não sois vós quem
Manuseia a faca
E nem tendes experiência de corte,
Não diga aos outros como cortar.”
A poetisa desconstrói a postura autoritária de quem se sente no direito de prescrever respostas para dores que nunca viveu. A metáfora da faca evidencia como a sociedade, em vez de acolher, tende a ditar regras para o sofrimento, tornando-o ainda mais solitário e invalidado.
Noutra perspectiva, em determinados momentos, a recorrência de representações análogas pode diminuir a força individual de cada poema, tornando-os previsíveis. Ainda assim, paradoxalmente, essa escolha pode ser lida como um reflexo da própria experiência da dor — cíclica, persistente, difícil de escapar.
No entanto, o mérito da obra está justamente na sua urgência. Grito o Mundo Gagueja não só é um livro de poesia; é um apelo para que os clamores oprimidos sejam ouvidos. Se o mundo gagueja diante do grito da poeta, talvez seja porque ainda não aprendeu a escutar. Alcione não escreve para ser apenas lida — sua poesia exige reflexão, empatia e, acima de tudo, um mundo menos surdo para o sofrimento humano.
