Devia ser meia-noite quando, impiedosamente, fui conduzido ao calabouço. Era uma noite quente e agradável. Apesar de ser madrugada e de estar completamente embriagado, sentia o ar abafado e o suor – um misto de adrenalina, medo e sentimento de injustiça – a escorrer por debaixo da camisa de ganga. A vida é mesmo uma caixinha de surpresas, pensei.

Há apenas duas horas, estivera na Ka Tembe, a deliciar-me com prazeres carnais na casa de um amigo, ouvindo amapianos e raps, enquanto debatíamos as mais diversas banalidades que dão significado à vida, ao sabor de cervejas e dos mais valorosos whiskies. Aproveitei aquele dia para apresentar ao meu amigo e à esposa – que era uma espécie de avaliadora das minhas companheiras – a minha nova namorada. Uma moça de ascendência europeia, mas com traços corporais muito africanos, com curvas e contracurvas capazes de fazer qualquer Fernando Pessoa dedicar-lhe uma prosa e algum Luís de Camões, uns sonetos.

Tinha sido uma noite boa e estava a caminho da casa da minha companheira para um segundo round, como mandam as regras do africano bem-criado. Estava a representar uma raça inteira e não podia deixar os nossos créditos em mãos alheias. Foi na marginal que caí nas graciosas mãos da lei e da ordem. E naquele momento, na 3.ª esquadra do Triunfo, não conseguia pensar em mais nada senão no quão irónica a vida podia ser.

A porta de ferro, pesada, bateu atrás de mim, e ouvi o som das correntes e do cadeado ecoarem pelas pequenas aberturas por cima da porta – as únicas janelas daquele lugar. De imediato, um cheiro forte, mais intenso que o da guerra popular para os lados da Baixa ao final do dia, e uma onda de calor húmido e ardente deram-me as boas-vindas. A agradável brisa do mar ficara do lado de fora; ali dentro, era quase impossível respirar.

O espaço era escuro, e a pouca luz que adentrava por aquelas aberturas mal iluminava a cela. À medida que as minhas pupilas se adaptavam ao novo ambiente, percebi que estava acompanhado.

— Boa noite! — disse eu.

— Boa noite! — responderam, quase em uníssono e sem emoção, vozes que mais tarde percebi pertencerem a quatro jovens de idades diversas.

Dei um passo e toquei no que me pareceu ser um pé. Assustado, olhei em volta e percebi que o cubículo onde me encontrava era menor que a casa de banho da minha casa, que tem 2×3 metros quadrados. Estava confinado entre quatro paredes grossas de betão e um tecto igualmente de betão armado. Para tornar a situação ainda mais caricata, havia uma parede que atravessava o compartimento verticalmente, quase a meio, dando a ilusão de uma espécie de armário do outro lado da cela. O espaço mal dava para um, quanto mais para cinco – contando comigo.

O meu organismo, ainda embriagado, denunciou a necessidade de aliviar a bexiga. Comentei o facto com os meus companheiros antes mesmo de tomar um lugar. Perguntei qual era o procedimento, e de imediato indicaram-me três garrafas PET de um litro e meio, estacionadas à entrada do “armário”, contendo urina pela metade. A visão e a ideia de recorrer àquele meio para aliviar-me causaram-me asco, mas os que lá estavam há mais tempo asseguraram-me que aquele era o procedimento padrão e que a alternativa seria esperar até de manhã.

Vi-me sem alternativa. Resignado, peguei numa das garrafas – a que parecia menos cheia – e, com o orgulho vencido, tirei a masculinidade e deixei escorrer o líquido dourado, acrescentando ao que já lá estava. Prefiro não me lembrar do pensamento que me atravessou a mente naquele momento.

Depois de me sentir emasculado, voltei para a área comum. Os outros dormiam sobre caixas de cartão, deitados uns ao lado dos outros – alguns com os pés por cima dos pés dos outros, outros ainda com a cabeça sobre os pés alheios. Juntei-me à causa: deitei-me ao lado dos pés de alguém, perto da entrada, e deixei que outrem também pousasse os pés sobre mim. Quem olhasse para nós não teria dúvidas: parecíamos uma lâmina de carapau congelado.

O tempo naquele sítio não passava. A minha embriaguez, que ia-se dissipando, não era suficiente para me fazer adormecer. Ouvia gritos na minha cabeça que não conseguia calar, apesar do silêncio dos meus novos colegas – que, tenho a certeza, também não dormiam, mas tampouco se manifestavam. Deviam estar tão perdidos nos seus pensamentos quanto eu.

Não chorava, nem sentia vontade. Talvez porque parte de mim acreditasse que aquele cenário não duraria muito. De vez em quando, ouvia passos e vozes do outro lado da porta, sinais de que havia vida naquele local.

Não sei quanto tempo passou. Ainda estava escuro quando um som estridente ecoou e, logo de seguida, um grito:

— Ahhhhhh! — bradou uma voz grave. — Eu não fiz nada!

— Rasgou-me o sobretudo, este! — retorquiu outra voz. — Agora vou-te mostrar que não se brinca com a autoridade.

— Ahhhhhh! Socorro! Desculpa, chefe!

— Sabes lutar, não é?! — interveio uma terceira voz, num tom agressivo, misturado com indignação.

Ouviram-se então pancadas secas, desferidas com um objecto que ainda não conseguia identificar.

Percebi que estava diante de uma violação dos direitos humanos – mais especificamente, do direito à integridade física.

Um dos agentes decidiu, então, demonstrar os seus conhecimentos sobre direitos humanos e atirou o cidadão para dentro da nossa já populosa cela, fechando a porta com violência. O som do metal a bater ressoou em mim de uma forma que, ainda hoje, consigo ouvir sempre que fecho os olhos e reflito sobre aqueles dias.

E para garantir que o novo detido teria o seu direito ao abrigo assegurado, o mesmo agente gritou pelas aberturas:

— Chefe de cela! Quem é o chefe da cela aí?

Diante do silêncio, completou:

Toma conta desse!