É tomado por uma cólera. Como perder a carteira? Ok. Calma. Relaxa. Inspira, suspira. Terei esquecido em casa? Não, verifiquei ao sair.
Limpa os sapatos a reconstituir o seu percurso. Despertou meia hora antes do alarme. Estava marcado para as 5 e trinta. Levantou-se ansioso para o dia. Engomou novamente a roupa que ia vestir. Fez um duche de água fria. Tomou chá, que fervia enquanto se aprumava. – Ouve cá, nunca mais sais daí? Estou mesmo apertado – queixa-se do lado de fora da casa de banho do Restaurante Coimbra, alguém em tom autoritário.
Peço um instante – responde, faz uma pausa de alguns segundos para medir a reação – Zero minuto – acrescentou. Saiu às pressas como um ladrão em fuga após um flagrante. Reparou apenas os mucaças azul escuro e calsas jeans de quem aguardava do lado de fora.
Já fora, vasculha a mochila, sem perder o cuidado de não amalfanhar o envelope com as cópias dos seus certificados em advocacia forense, direito e meio ambiente, a legislação cibernética. Os cursos foram gratuitos. O issue era com a mola de megas. A carteira não aparece. Devolve a mochila às costas. Está pensativo, qualquer um diria, cruzando com o moço magro ali por baixo do sol.
Escorre suor no rosto arredondado do Matias e se precipita para a camisa branca. Caminha de volta a paragem onde desceu, no Mercado Mandela. Estarrecido por tal lapso, vai num passo rápido.
Voltando a reconstituição desde que acordou. Depois do banho e já vestido, sentou-se a mesa, agradeceu a Deus pela refeição com o sinal da cruz e uma oração. Escutou, na Antena Nacional, “Urombo” de David Mazembe depois de “João Gala Gala” de Chico António.
Não olhas para frente, caraças! – ouve de uma senhora com quem esbarrou, já próximo a paragem. Embaraçado, desculpa-se. – Desculpa o quê, estragaste-me o dia, caraças!
Por sorte, o mesmo chapa que tomou na vinda, estava já a voltar, perguntou ao cobrador, que o conhecia, se havia encontrado uma carteira.
–Talvez um passageiro – respondeu. – Mas vê aí onde estavas sentado – sugere. – Mas se apanhares é sorte, carteira é dinheiro – comenta. – Mas mesmo eu, não sei se te devolvia, se fosse eu tinha apanhado, está mal isto – atira. – Mas não faria isso a ti, doctor.
O regresso para a Machava lhe levará, pela hora das 11, com menos engarrafamento, uns 35 minutos. A caminhada para casa mais uns 15 minutos, o que dá 30 na ida e volta. Nunca se sabe se vai apanhar chapa logo que chegar a paragem. A entrevista está para está para às 14h.
Com sorte, muito na tangente e pelo milagre de Deus por intervenção da Virgem Maria Santíssima, vai chegar a tempo. De qualquer modo não havia outra opção. De contrário não tem como entrar naquela instituição sem B.I.
Entrou no quarto as correias e revirou-o todo. A tia, assustada ao vê-lo de volta, perguntou se estava tudo bem, o que tinha acontecido. Envergonhado do lapso, não respondeu logo. Vencido pela busca sem resultado e pela pressão da tia na porta do quarto.
-Tia, não estou a encontrar minha carteira, não sei onde deixei, terá visto? – perguntou – Você é um irresponsável Matias, como perder carteira numa situação dessas? Assim é para fazermos o quê? – respondeu. Eu não vi, disseste a quem que vais a entrevista? Esses invejosos vão te lançar mau olhado. Vem vamos rezar. Oraram. No final ela disse vai.
–Não posso, lá eles cobram B.I.. Vai, ordena a Tia. Explica-lhes o que aconteceu. Deus está contigo, vai. Já no portão a tia chamá-o, volta-se a ela e a senhora percebe a maquiagem borrada no peito da camisa. Ham, a moça do caraças, pensa Matias consigo mesmo.
A tia engoma outra camisa, cinzenta. Não era esse o plano, grita uma voz interior. Entra uma chamada, treme, não sabe se atende ou não, nove horas e cinco minutos. Se apressa a vestir e retorna já na rua. Não lhe é atendido.
Recebe uma mensagem: Bom dia, Ilustre entrevistado, ainda está distante? – teme que se responder que sim eles irão assimi-lo como irresponsável. Ainda indeciso entra outra chamada. Chegava já a paragem. – Bom dia, ilustre. As nossas sinceras desculpas, já não poderemos fazer a entrevista hoje. Iremos remarcar e oportunamente entraremos em contacto.
Os chapas, na paragem, estão todos parados. Num deles lê: a Paciência é irmã siamesa da Esperança.