E andava o menino pela rua, calções furados exibiam a pele negra das nádegas cobertas de pó, camiseta gasta a cor já não se nota. Tão pequeno, é sincero o seu sorriso amarelo, cabelo crespo e despenteado carregado de areia. Olhos castanhos, vermelhos e brilhantes. Anda por entre as pernas das senhoras do mercado, quase que ninguém lhe nota a presença. Ouve sem interesse conversas interessantes, esquiva as poças de água enquanto dirige o seu carrinho de lata e arame. É habilidoso na construção, doze rodas guiadas por um caniço, é possante a sua máquina. Apanha latas e arames em todos os cantos com os quais constrói sonhos, alguns chamam-lhe lixeira, para ele um mundo de possibilidades que só a imaginação pode limitar. Ganha umas moedas das senhoras do mercado, confiam-lhe as trouxas, a cumplicidade de quem da vida só ganhou a própria vida. Tão pequeno, no seu pescoço carrega o peso da vida. Por aqui ninguém fala, mas todos comunicam, por que o falar tem regras e aqui a vida é desregrada. Ao cair da tarde vai à padaria e compra pão e badjias, divide tudo com o amigo, é preciso não ter nada para dar tudo, é tudo de coração.
Já é de noite quando regressa a casa, o seu quintal é igual a rua, não tem vedação. uma casa no meio da imensidão. Por entre o caniço velho revelam-se segredos de quem só tem a esconder o próprio corpo, cinco irmãos, do pai nunca se viu o rosto, há comida na mesa, de onde veio? Ninguém sabe, ninguém pergunta. Divide-se por igual o que é pouco, na certeza de que amanhã haverá mais, de onde virá? Só a mãe e Deus sabem. E há paz em casa, e dorme o menino… na certeza de que amanhã haverá mais, mais alegria, só conhece a tristeza quem já conheceu mundos alegres, é pequeno o seu mundo.