Fragmentos do fim (II)

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Obra de Matheus Sithole

O menino que se animava pousando para os relâmpagos em dias de tempestades, crente de estar a ser fotografado por Deus, que fica no céu, como aprendeu na catequese, pousa numa fotografia a preto e branco numa das gavetas da memória. É noite, 21.30, talvez. Hoje, já adulto, revisita a infância num ápice daqueles que repentinamente conduzem a consciência a uma imagem, um pensamento…Está na sala de estar – que também é de jantar – com uma TV que já nem naquele arco-íris chega, termina no nome em mandarim da marca. Indiferente a aquela presença avariada e inútil, Cossa navega no museu que foi edificando ao longo da vida.

Leia aqui o Fragmento do fim (I)

Mais velozes que os status de WhatsApp e sem a organização de uma galeria de fotos num smartphone, vem nessa sequência desordenada o dia em que a viu de costas, as traseiras volumosas no interior de umas jeans que a mochila cor de rosa e preta Charmza não escondiam como o faziam as mechas de linha ao seu rosto assim que virou para o cumprimentar sob orientação da amiga que o Cossa já conhecia. Passaram-se anos e a imagem permanece nítida. O registro é cristalino. Tão claro que aquela tarde de mais de 10 anos passados, parecia um episódio do dia anterior.

Hesita, enquanto pensa “pena que apenas o maço de cigarros vem com a advertência: Fumar Prejudica a Saúde. A própria vida também deveria ter a mesma informação, pois ela se propõe a fazê-lo, num tropeço algures ao curvar da esquina”. Com o coração arrasgado repentinamente, ignora o cell que vibra na mesa com a chamada do Duduftido. Modo vôo.

Quer combater a procrastinação. Há três semanas que não conseguia terminar de redigir o relatório anual do departamento que dirige. Lentamente reergue a cabeça e devolve o olhar para a mesa vazia, aquela voz interior sopra: “ela podia, mesmo num estado sonâmbulo, estar aqui, sentada na cadeira da parede”. A mesa não têm bases, não têm jarras de água, sumo Pêra Rocha, não tem uma garrafa de 2l de Coca-Cola. Não têm tigelas de arroz e de caril, não têm copos, não têm pratos. Só o vazio e o laptop.

Aleatoriamente, no fundo, o Spotify reproduz “Para Lennon E McCartney”, de Milton Nascimento, de 1970, numa colaboração com Som Imaginário. É uma música cheia, com a secção metálica numa harmonia quase divina que preenche esse rock tropical embebido no jazz e na bossa nova. A dado ponto da música, Milton canta: “todo dia, é dia de viver”.

Edson, irmão caçula do Cossa a partir do quarto, queixa-se do volume da música, que afinal nem escutava. – Eu quero dormir – apelou! E acho que o Sr deveria fazer o mesmo, amanhã ainda é quarta-feira, – recordou-lhe. Nem parece que Cossa ouve aquela voz quase desesperada pela indignação de ter perdido um sono que custou a encontrar.

Volta-se para a mesa. Já é ritual chegar em casa depois da separação mergulhar em devaneios. A ida dela parece ter libertado o seu lado mais selvagem, já não pensa nos outros. Parece ter pedido o norte. A vida tornou-se uma farra para afogar as mágoas em copos e fumo. As noites e os dias são quase iguais, fora a ausência de sol. Baixa o volume ligeiramente e, aleatoriamente, reprodu-se a nova música de dois ex-Young Sixties, Hernâni e Laylizzy. Numa vibe já distante, como é óbvio pela distância do tempo, de “Come e limpa boca”.

Está numa busca de si próprio, o que sobrou de apenas seu, genuinamente seu, depois de 12 anos de um relacionamento que viu desmoronar não propriamente num ápice, que nunca é. Mas foi coisa repentina.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. Foi Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto. E actualmente, é Gestor Cultural do Centro Cultural Moçambicano-Alemão

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