Artistas expõem arquivos na Fortaleza

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Foto de Yasmin Forte


O arquivo audiovisual tem vida, tem forma e é uma entidade que conta um pedaço do passado. Com a ambição de usar a arte para resgatar e reutilizar parte do material audiovisual dos países africanos de línga portuguesa, na semana passada, a Fortaleza de Maputo vestiu as cores dos PALOP e abriu-se para mais uma UPCycles.

O propósito era usar a arte como chave que abre espaço para a compreensão e conhecimento mútuo dos povos. Pela terceira vez, a Associação dos Amigos do Museu do Cinema reuniu artistas emergentes dos PALOP em 2 meses de uma residência artística voltada a produção de obras inspiradas na ideia de revitalizar os arquivos.
No início da noite da última Sexta-feira, o Jardim da Fortaleza de Maputo foi tomado por pessoas alegres e ávidas em ver, ouvir e experimentar as sensações transmitidas pelas obras da exposição ora inaugurada. Mas também havia gente animada pela cerveja e o vinho servidos no bar aberto.

A mostra é corporizada por obras dos moçambicanos Amarildo Rungo, Filomena Mairossi e Mateus Nhamuche, bem como as cabo verdianas Stephanie Silva, Grace Ribeiro e Moreyia. Todos os trabalhos são resultado do trabalho de recolha e catalogação de elementos depositados na sua memória pessoal e colectiva, sob o olhar atento de Ângela Ferreira e Rita Rainho.

O maior ganho é o intercâmbio cultural

Ângela Ferreira conta com um longo históricos de estudos e criações em torno da ideia de patrimónios e arquivos. Investiga o colonialismo e suas consequências na sociedade contemporrânea, tendo como referência as relações interculturais entre o ocidente e a África.
A artista plástica descreve as obras mostradas na UPCycles como sendo o testemunho do “imenso talento e interesse” pelas artes, que é comum na comunidade dos países participantes.
“Esta é uma residência exigente e os trabalhos são de grande qualidade. Os artistas dos diferentes países adoram vir à Moçambique, porque encontram muitas empatias”, descreveu, a apontar a troca de experiências de artistas de vários contextos como o principal proveito da exposição.
A também artista plástica empresta os seus saberes à curadoria da UPCycles desde a sua primeira edição, em 2019. De lá a esta partida, já colaborou com mais de 27 jovens artistas, todos provenientes dos PALOP’s, a quem orientou na produção de peças centradas na ideia de restituir a memória presente no património, nas migrações, identidade, género, ambiente, sustentabilidade e vários outros traços comuns dos povos falantes da língua portuguesa.
“Ajudamos os artistas a identificarem os arquivos com que devem trabalhar, como e o que devem procurar. Damos diretrizes sobre como devem proceder, poruque trabalhar com arquivos requer que a pessoa peça a autorização para usar os materiais”, explicou, a detalhar que “alguns dos artistas que particparam nas antesriores edições já estão noutras exposições, livros ou publicações conhecidas”.
O artista plástico moçambicano, Amarildo Rungo revela que a dedicação, confiança e paixão pela arte sejam os ingredientes que compõem a fórmula que abriu as portas da UPCycles para os seus “Xingufos”.
“Cheguei a duvidar. Tive receio porque considero os artistas que participam da UPCycles pessoas mais abalizadas”, esclareceu. Em meio a incertezas e hesitações, Amarildo Rungo concorreu e foi apurado. Dúvidas decepadas.
“Considero as pessoas que participam da UPCycle como pessoas abalizadas. Decidi concorrer como quem não queria ficar com a culpa do Se eu tivesse”. Sabemos que, se é dos PALOP’s, muitos países concorreram”, avança, a explicar que ser seleccionado para a UPCycle “é uma coisa que me superou. Julguei a mim mesmo pela dúvida que tive na submissão do meu projecto”.
Acrescentou ainda que a sua participação na UPCycles está a ser uma viagem que, entre tantas coisas, está trazer a noção de que ainda tem um caminho longo por percorrer.
”Para mim, é uma viagem. Como artista, tenho a resposabilidade de continuar firme e com a ideia centrada na promoção da minha obra. Cheguei a não acreditar que estaria a altura de um artista emergente que podia ser seleccionado para estar nesta exposição”, finalizou



Por sua vez, Filomena Mairossi partilhou que decidiu candidatar-se à UPCycle por influencia de pessoas próximas e artistas que participaram de edições anteriores. O seu projecto é voltada na conservação das sementes e hábitos alimentares como parte da consciência colectiva. O trabalho foi aprovado e está, agora, exposto numa das salas da Fortaleza.
“Foi bom ter espaço para imaginar a versão materializada do projecto, com a assistência das tutoras e os inputs dos outros colegas”, afirma.
Trata-se de um conceito com que Mairossi tem trabalhado há anos, movida pela pretensão de apresentar na UPCycle.
”É, para mim, uma oportunidade de desenvolver a minha ideia. Estou a trabalhar nela desde o início da pandemia, sou uma artista que se dedica a minha arte e confio nas minhas ideias”.
De Cabo Verde, Stephanie Silva trouxe um projecto que sugere as experiências de assédio que viveu na praia da cidade de Mindelo. É um lugar belo, mas hostil para as mulheres que por lá passam.
“O meu projecto é sobre uma coisa que tenho reparado. Sobre como sou em diferents lugares. A forma como me posiciono dentro do meu país, em ilhas diferentes. É sobre sensações, paisagens, lugares, pessoas e sentiments”
A artista juntou materiais e criou uma obra mista, initulada “Encontros”, composta por um filme e uma plataforma de madeira, onde os visitantes sobem para acompanhar a película, na qual (re)conta as vivências das ruas de Mindelo, evidenciando os sons, cheiros e cores do local.
Já, Também de Cabo Verde, Grace Ribeiro apresenta o seu histórico em forma de obra de arte. A artista tem a ascendência dividida entre Cabo Verde, Angola, São Tomé e Moçambique.
“Sempre fiz curta-metragens de arquivos. Por isso é mais uma oportunidade de trabalhar o arquivo”, contou, a acrescentar que “dediquei-me com paixão à proposta, pois é um trabalho criado especialmente para a UPCycles”.

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