‘‘Maputo Nakuzandza assistido pela primeira vez em Maputo’’

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A Sala Magna da Escola de Comunicação e Arte da Universidade Eduardo Mondlane (EÇA – UEM) ficou escura. As paredes claras perderam o brilho e as luzes apagadas criaram um ambiente que remete a uma sala de cinema propriamente dita. Era para ver, ontem, na 13a edição do Kugoma, a estreia nacional do filme ‘‘Maputo Nakuzandza: Um dia em Maputo’’, da brasileira Ariadine Zampaulo e da moçambicana Maria Clotilde Guirrugo.

Através da longa-metragem, é possível sentir os cheiros e sabores, mas também conhecer destinos e pessoas que partilham do mesmo espaço a que se chama Maputo.

o filme apresenta, como traços característicos da capital do país, as cores, os hábitos e costumes, bem como as musicalidades.

“Maputo Nakuzandza: Um dia em Maputo’’ mostra ao mundo, de forma escancarada, as diferentes realidades que coabitam a capital, na ideia de partilhar os vícios e qualidades que a cidade apresenta.

A estreia nacional foi assistida por estudantes e professores da ECA-UEM, bem como outros amantes de cinema.

As portas da Sala Magna sequer foram fechadas, como tem sido habitual, e as palvras nelas afixadas – ‘‘Não bata na porta, estamos a gravar’’ – perderam sentido. No exterior, as nuvens emprestavam uma tonalidade cinzenta ao dia frio que sugeria ir ao cinema. As cadeiras ao centro, todas voltadas à parede grande, e um raio de luz por onde o filme caminhava até chegar à vista do público, decorravam o cenário.

A projecção começou com um ligeiro atraso. A organização precisou de cerca de 20 minutos além da hora combinada (15) para, finalmente, mostrar a longa-metragem. Enquanto aconteciam os últimos acertos, mais pessoas iam chegando e, timidamente, ocupavam os assentos.

‘‘Maputo Nakuzandza’’ é uma narrativa que se inicia ao nascer do sol, momento em que a maioria das pessoas se fazem à rua para mais uma jornada, e vai até ao fenecer do dia, onde a luz eléctrica continua a iluminar os caminhos dos munícipes, evidenciando que a vida não pára.

Por um lado, uns procuram o transporte para casa e outros seguem o sentido contrário, para as noites badaladas. Os personagens pouco contracenam, entre si, mas dão corda ao fio condutor da narrativa.

O foco do enredo é a cidade em si, e boa parte do que nela existe. Da Mafalala, Chamanculo, Xipaminene e noutros pontos periféricos, a película arrasta-se ao espaço urbano, enquanto vai deixando marcas indeléveis da experiência diária de quem, todos os dias, toma o transporte com destino à cidade. Visita, também, a Fortaleza de Maputo e a história nela contida, através da poesia e o diálogo de vozes que descrevem episódios pouco conhecidos da história, a tentar levantar o tapete que esconde os outros lados.

A partir do chapa, mas também da rua, de casa, do bar e outros ângulos, Maputo vai sendo mostrada em forma de filme, ao som de emissões radiofónicas de notícias insólitas, bem como de vozes a declamar poemas de autores nacionais.

O desporto, a religião, a arquitectura e a dança contemporrênea também têm destaque.

Parte de experiências pessoais do quotidiano de pessoas anônimas para (re)constituir cenários da vida em Maputo. Um deles é a Mafalala, bairro histórico que contém fragmentos do passado de Maputo e do país, em geral.

De volta à origem

Em 2017, Ariadina Zampaulo estudava cinema em Maputo. Nasceu no Brasil, mas chegou à Moçambique movida pelo interesse de conhecer o cinema africano de expressão portuguesa.
Do interesse pelo cinema, surgiu a afinidade pela cidade. Para materializar o sentimento, Zampaulo uniu seus saberes às habilidades dos estudantes de teatro na ECA-UEM e realizou o filme “Maputo Nakuzandza: Um dia em Maputo”.
“É um poema em forma de filme, pois traz histórias singulares para contar uma mesma realidade”, explicou Ariadina Zampaulo, durante a sessão de conversa que procedeu a exibição da película.

O filme já foi visto na França, Brasil e noutros países e festivais de cinema.

Para as realizadores, mostrar o filme no Kugoma, especialmente na ECA-UEM, significa devolver a película a sua origem, que é onde ela encontra a realidade em que se espelha.

“Traz fragmentos que dão uma ideia deste todo, que é Maputo”, continua Ariadina. A também realizadora Maria Clotilde Guirrugo acrescenta que o filme é, ao mesmo tempo, um documento histórico, pois apresenta imagens e histórias que se perdem ao longo do tempo.

“Mostra elementos que perdemos, desde 2017, como a Continental e o prédio que estava em frente ao Continental, que já não temos”, esclareceu

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