Carlos Gove e Jimmy Dludlu celebram vitalidade do Chamanculo

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Dois homens que nasceram com o dom de dedilhar a guitarra cruzam os seus caminhos num palco pela primeira vez para celebrar o lugar que os viu nascer e crescer. Trata-se de Carlos Gove (baixista) e Jimmy Dludlu (guitarra solo), que, no próximo dia 19 de Agosto, prestam tributo a Chamanculo, através de um concerto musical intitulado “Celebrando Chamanculo”, a realizar-se no Centro Cultural Franco-Moçambicano (CCFM).

Jimmy e Gove carregam as mesmas raízes desde o distrito de Inharrime, província de Inhambane, lugar onde as suas famílias surgiram. Quis o destino que ambos fossem nascer no bairro do Chamanculo, na cidade de Maputo.

O primeiro contacto com a música foi nos grupos dinamizadores, logo após a proclamação da Independência Nacional, em 1975. Depois, os dois guitarristas cresceram e estudaram nas mesmas escolas, com destaque para a Primária João de Deus (hoje Escola Primária 24 de Julho), vista então como o lugar de concentração de crianças amantes da arte.

Foi naqueles ambientes que Jimmy aprendeu a cantar antes de se interessar pela guitarra. Nos mesmos palcos, Carlitos, como Carlos Gove é chamado pelos mais achegados, aprendeu também a tocar guitarra, antes de encontrar no baixo o seu “gémeo”.

Como não podia deixar de ser diferente, ainda pequenos, foram sendo influenciados por artistas de sucesso que nasceram no bairro, como é o caso dos guitarristas Nanando, Jaimito Machatine, Tchika Fernando, entre outros. A casa de Nanando, considerado um génio da música, foi a principal escola para estes dois embondeiros da arte de tocar a guitarra.

Por isso, regressar para o bairro onde nasceram é mais do que estar em palco. É celebrar o percurso recheado de influências artísticas.

O concerto que se avizinha será dividido em três partes. Na primeira, Carlitos Gove sobe ao palco com a sua banda, composta por instrumentistas nacionais jovens para se recordar dos bons momentos e de todo o percurso que marcou a sua vida artística.

Através do seu baixo, vai contar a sua história. Ainda está a trabalhar sobre o repertório, mas, para além dos temas dos artistas que o ajudaram a crescer, vai tocar músicas do seu álbum “Massone”, que é um regresso a Inharrime, mas também uma homenagem ao famoso bairro.

Na segunda parte, Jimmy Dludlu vai subir ao palco para também narrar a sua história e tudo o que o liga ao bairro mítico. Além de tocar, Jimmy vai lembrar os seus primeiros anos de aprendizado, brindando o público com a sua voz. Este guitarrista está também a trabalhar sobre o repertório, mas vai ao palco com uma nata de instrumentistas moçambicanos para recordar o seu lugar de nascença através de vários projectos musicais seus que o ligam ao bairro, com destaque para “In The Groove”, um dos seus álbuns que mais homenageia Chamanculo. Segue-se a parte final do concerto, onde os dois músicos juntam-se no palco para cantar, tocar e fazer a festa em nome daquele lugar histórico.

Para este espectáculo, são esperados, acima de tudo, actuações de muita harmonia e cumplicidade no palco. Estarão ilustres figuras que se conhecem há mais de 40 anos.

“Somos irmãos. Nascemos no mesmo lugar e crescemos juntos. As nossas casas estavam no mesmo quarteirão.
Os nossos pais conheciam-se.

Abraçámos a música na mesma altura. Por isso, vai ser muito mais do que um concerto”, esclarece Carlitos Gove.

Para Jimmy, vai ser um espectáculo para partilhar a esperança de um dia ver o bairro onde nasceram a melhorar.

É neste contexto que “Celebrando Chamanculo” vai ser um momento para igualmente mostrar o lado bom daquele lugar histórico.

“O bairro é uma referência e agora que entrou no turismo muita coisa vai melhorar. Nós estamos para levantar a bandeira, deixar legado, apoiar e partilhar o que era um sonho quando éramos miúdos. Os embaixadores da cultura do nosso bairro estão aqui, nós temos de ser exemplo, levar a chama da unidade e passá-la aos moçambicanos”, diz Jimmy Dludlu.

MENSAGEM DE ESPERANÇA

Este é igualmente um concerto para passar a mensagem de esperança às novas gerações para que cresçam conscientes de que Chamanculo é um bairro que tem de estar no topo quando se fala de lugares que deram e continuam a dar grande contributo no crescimento e desenvolvimento do país, fornecendo quadros de todas as áreas de actuação.

Companheiros de longa data, Jimmy sempre ia atrás de Carlos Gove para assistir aos ensaios e actuações do grupo “Xingutsa vuma”, do qual o baixista moçambicano fez parte.

Por se tratar de um concerto que visa celebrar as raízes, Jimmy Dludlu e Carlos Gove não vão convidar artistas de fora do país, mesmo porque “esta é a nossa história e deve ser contada por nós. Também já somos estrangeiros, a nossa origem é Inharrime, mas tivemos a sorte de ter nascido e crescido ali no Chamanculo”, detalha Jimmy.

A festa está a ser organizada para que, enquanto decorre o espectáculo, o público possa visualizar imagens que vão passar no fundo do palco e que contam as vivências de um bairro que também vem sendo marcado por pobreza, desemprego, desordenamento territorial, criminalidade, entre outros desafios.

Mais do que um simples espectáculo

“Celebrando Chamanculo”, para além de ser um espectáculo musical, é também espaço para fazer o bairro crescer com a ideia de preservação do lugar que tem valor histórico.

É por isso que, dentro do contexto do turismo que se está a desenvolver na zona, há casas especializadas, com todos os elementos que fazem o local e que contam a história do distrito municipal.

O objectivo é que dentro dos próximos 10 anos nasçam naquele lugar escolas de música para perpetuar a veia artística, mas também bibliotecas como um mecanismo para preservar o seu bom nome.

Igualmente, há um plano de se levar “Celebrando Chamanculo” para o bairro, com convites endereçados a alguns músicos locais. A ideia é que o concerto decorra no Kape Kape.

Este espectáculo é também um exercício de reivindicação, um grito para ver aquele lugar a melhorar, sobretudo dentro do conceito do turismo que foi introduzido nos últimos tempos.

“Estamos a fazer isto para que este lugar não seja mais negligenciado, para que não seja esquecido”, esclarece Jimmy Dludlu.

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