Ernesto Moamba: A pequena grande ascensão de um jovem poeta

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É um dos escritores contemporâneos que Moçambique viu nascer. Movido pelo sonho de ver seu continente desenvolvido em todas as esferas, Ernesto Moamba estreia-se com o livro de  poesia “Liberta-te, Mãe África”, em 2016, de seguida vieram duas obras voltadas para o público infanto-juvenil, nomeadamente, “O Coelho Fugitivo: Entre a Esperteza e o Medo”, em 2020,  e “O abecedário que finge ser mudo”.

A sua escrita é marcada pela dor, desespero e sofrimento de sua terra mãe. Recentemente, Ernesto Moamba foi galardoado com o prémio “Global Poet 2022 -World Poetry Anthem” pela World Poetry Meetings. O prémio é um reconhecimento e valorização de seu trabalho literário. Sonhador, quer ver as crianças a ler, por isso, deseja um Plano Nacional de Leitura funcional. A plataforma Mbenga entrevistou o jovem escritor que narra ao detalhe o seu percurso recheado de reconhecimentos internacionais.

 

Já foi galardoado com vários prémios, nacional e internacionalmente, mas este último que significado tem para si?

É um dos prémios maiores que são promovidos no Texas. Quando fui anunciado, cheguei a não acreditar. É uma coisa que não esperava, primeiro porque o prémio tem relevância muito grande, são questões culturais internacionais e eu penso que a organização esteve atenta ao meu trabalho, pois, o prémio vem valorizar o trabalho que o escritor faz numa determinada época, em certos lugares. E como a minha literatura é internacionalizada, a organização achou importante prestigiar-me com este prémio que, para mim, é uma grande honra.

Em que âmbito o prémio lhe foi concebido?

Estive envolvido num projecto de idealização do Hino Mundial de Poesia. Fazem parte desta iniciativa mais de 100 escritores de todo o mundo. Cada um tinha que contribuir com sua arte. Este projecto vinhámos a fazer já há bons anos, que eu já não me recordava muito desse projecto, só me lembrei mesmo com o anúncio do prémio.

O “Hino Mundial de Poesia”, é uma obra?

É um projecto, o Hino Mundial de Poesia.

Em que consistia o projecto?

É reunir escritores de todo mundo para elaboração ou produção de Hino Mundial de Poesia.

E para tal, os escritores que quisessem participar da elaboração do Hino Mundial de Poesia, tiveram que se inscrever?

Foi por meio de convite oficial. Mais de 300 escritores receberam a chamada para integrar  ao projecto, destes apenas 103 foram galardoados. Este prêmio, diferente de outros, não homenageia um autor por causa de uma certa obra, mas por causa do trabalho que faz. Então, olharam para a minha participação como ponte para seguir os meus trabalhos.

Quem foi o patrono da iniciativa e qual foi o objectivo da mesma?

É um escritor e presidente da organização, World Poetic Meetings de Texas, Juan Antonio V. Delgadillo, junto com os parceiros locais.

Qual era o objectivo do patrono?

A iniciativa é global, o patrono é altruísta, trabalha incansavelmente para dar voz a poetas talentosos espalhados pelo globo. Sua intenção é motivar o surgimento de mais escritores, pois está consciente de que sem incentivo a arte não evolui.


DEDICADO À LITERATURA INFANTIL

Falemos então, de suas obras, estreiou-se com uma obra poética e depois lançou duas obras infanto-juvenil. O que lhe move a escrever para este público?

Nasci na cidade, fiz os estudos no campo e para frequentar a escola tinha que percorrer uma boa distância. Eu estava numa localidade que não tinha corrente eléctrica. Para além disso, não tinha sequer uma biblioteca que pudesse dar suporte àqueles que gostassem de ler. Essa situação me impossibilitava de ter acesso aos livros de literatura. Os únicos livros que eu lia eram os didácticos.  Então os meus avós contavam-me histórias dos tempos passados. A minha avó materna passou por momentos difíceis na Guerra de 16 Anos, em cada história que me contava, lembro que chegava até a lacrimejar porque sentia uma injustiça nisso tudo. Essas histórias orais, que os meus avós contavam, criaram-me uma revolta. Ali percebi que precisava fazer alguma coisa que pudesse mudar a geração actual.


Percebo que foi influenciado, acha que os pais hoje em dia ajudam aos seus filhos a cultivar o gosto pela literatura?

É um desafio. Cá no nosso país são poucos os pais que incentivam às crianças a praticar a leitura em casa. Eu acho que não tinha que ser só um exercício dos pais, mas da sociedade em geral. O incentivo devia ser a partir das escolas. Eu fico feliz que, por exemplo, no Brasil e Portugal tenha o Programa PNL (Plano Nacional de Leitura), que podia se implementar muito bem aqui em Moçambique.

Em  “O abecedário que finge ser mudo”, o que busca retratar?

Busco trazer a ideia da união. Ainda nos mantemos distantes uns dos outros. Ainda há falta de união e humildade entre nós. E “O abecedário que finge ser mudo” grita para que possamos nos aproximar. A história narrada é igual a de um sujeito que para manter a sua imagem, no auge da fama, usa meios fraudulentos para invocar o mal e aproveitando-se da situação dos seus próximos para alcançar o sucesso desmerecido, o que é muito visível nos dias actuais.

Percebo que o Ernesto é versátil, consegue respirar fora da poesia, os seus livros de infanto-juvenil são uma prova disso, acha que os outros escritores deviam também adoptar essa característica?

Todos os ecritores, independemente do gênero que escrevem, também deviam experimentar esse lado infantil. Devia ser obrigação de todos os escritores escrever para crianças. Eu já assisti a vários lançamentos de livros infantis, que escritores de renome não se fazem presentes à sala porque talvez não dão valor. Esquecem que a literatura parte do pequeno.


AINDA É PENOSA A PUBLICAÇÃO DE OBRAS

Alguns jovens aspirantes a escritores dizem enfrentar vários desafios para a publicação de suas obras. Também enfrentou desafios na publicação da obra que lhe estreou como escritor?

Até hoje enfrento desafios. Na altura tentei mandar as minhas originais para algumas editoras, que não aceitaram. Tenho dito que Moçambique falta esse lado da solidariedade para com outro irmão.  São poucas editoras que olham para novos talentos e são escritores que têm um grande potencial.  Embora actualmente tenham surgido algumas editoras que olham para escritores contemporâneos, penso que ainda se precisa de mais.

 

E é por isso que algumas de suas obras foram publicadas sob chancela internacional?

Exactamente. Eu até digo que sou muito mais lido fora de que cá, talvez por essas referências que eu tenho.


Feliz com o seu percurso literário?

Estou feliz, mas espero mais. Eu escrevo para as pessoas e  quero que  elas estejam atentas àquilo que faço e percebam a mensagem que tento trazer. A minha temática é de expressão da realidade. Tento representar essas vozes que até hoje se mantêm caladas diante de uma situação. Ao vermos uma situação que não está boa, temos que falar, é por isso que a minha poesia é de exaltação e combate.

O que lhe move a escrever, afinal de contas, será esse grito de socorro em todos os seus textos?

Ainda não sinto que Moçambique esteja livre. São várias questões que precisam ser discutidas. Há o desemprego, há crianças sentadas no chão nas escolas.  Ainda se precisa trabalhar e com a escrita tento fazer isso, não irei mudar o muito, mas o pouco irei conseguir. A liberdade insite nissso.

Referências na literatura?

Eu costumo ler tudo que tem a ver com cultura. Antes, eu lia muito Cruz de Sousa, escritor brasileiro, considerado simbolismo da literatura negra do Brasil. Ele já não está em vida. Em Moçambique, gosto dos poemas de Noémia de Sousa, Rui Nogar, José Craveirinha.

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