Malangatana com os maiores surrealistas do mundo no “Tate” em Londres

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Captura de ecrã do story, no Instagram de Thiago Fonseca

O mestre Malangatana está em Londres, no museu Tate Modern, até 29 de Agosto, na mostra “Surrealism Beyond Borders”, que em 2021 esteve no Metropolitan Museum of Art de Nova Iorque.

Ao lado de nomes como Salvador Dalí, Marcel Duchamp e Pablo Picasso, o artista moçambicano tem duas peças expostas numa exibição que conta ainda com os portugueses Cruzeiro Seixas, Marcelino Vespeira, António Pedro, Fernando de Azevedo, José-Augusto França.

Conforme o jornal britânico “The guardian”, uma das obras do mestre, é pintura a óleo sobre cartão duro, de 1967, sem título. Todo o plano da imagem desta tela está coberto com figuras contorcidas densamente compactadas que são delineadas em preto e pintadas em tons brilhantes de laranja, amarelo, azul e vermelho.

“As figuras se sobrepõem, aparentemente se fundindo umas com as outras e derrubando qualquer senso de perspectiva ou hierarquia”, lê-se na notícia que estamos a citar.

A publicação britânica continua descrevendo o quadro se referindo aos dentes brancos rangendo, mãos em forma de garras e olhos arregalados de humanos e animais dominam a cena.

Kerryn Greenberg, curadora de arte internacional no Tate Modern, a respeito da exposição escreveu numa nota breve que como a maioria das pinturas de Malangatana desse período, a obra retrata as preocupações e lutas das pessoas comuns, as violências e barbaridades sofridas enquanto seu país natal.

No final da década 60, recorda a curadora, Moçambique lutava pela independência de Portugal.

A outra obra do mestre exposta no “Tate” é um desenho, cujo traço sugere tratar-se dos esboços que foi fazendo no período em que esteve preso pelo regime colonial por causa do seu envolvimento com a causa da libertação nacional.

Exposição pretende mostrar o impacto do surrealismo no mundo

A exposição, de acordo com o jornal português Público, de mais de 150 trabalhos pretende mostrar a dimensão internacional do movimento surrealista para além de uma época ou lugar, abrangendo 80 anos e 50 países como Moçambique, Egipto, Portugal, Argentina, México, República Checa, Coreia do Sul ou Japão.

“Surrealism Beyond Borders” (Surrealismo além-fronteiras) põe em destaque o inconsciente e os sonhos em vez de imagens do que é conhecido ou do quotidiano, as obras surrealistas são vistas como poéticas e até humorísticas, como o Telefone Lagosta, de Salvador Dalí, ou o comboio de René Magritte a sair de uma lareira.

Desde 1924, quando apresentado pela primeira, através do “Manifesto Surrealista” de André Breton, em Paris, a expressão surrealismo foi também usada por artistas como uma arma na luta pela liberdade política, social e pessoal em épocas marcadas por regimes políticos opressivos e colonizadores.

“O surrealismo não é um estilo – mas um estado de espírito”, lê-se numa breve nota sobre a exposição no site do Tate Modern, em Londres. O objetivo, prossegue, é subverter a realidade. Para encontrar o estranho no cotidiano. Para explorar nossos desejos inconscientes e dar vida aos sonhos.

“E para muitos artistas ao redor do mundo, tem sido uma maneira de desafiar a autoridade e imaginar um novo mundo”, lê-se ainda.

Histórias anteriores, avança a contextualização do museu, de surrealismo se concentraram em Paris na década de 1920. Com base em extensa pesquisa, esta exposição alcançará todo o mundo e mais de 50 anos.

A expectativa do museu londrino é mostrar como artistas de todo o mundo foram inspirados e unidos pelo surrealismo – de centros tão diversos como Maputo, Buenos Aires, Cairo, Lisboa, Cidade do México, Praga, Seul e Tóquio.

Malangatana, por exemplo, foi uma figura proeminente no país, no continente e no mundo. Igualmente desempenhou um papel importante na imaginação de uma estética africanista mais ampla na Europa e na América.

A sua obra, como se pode compreender nos estudos de Alda Costa, António Sopa e artigos, entre outros de Júlio Navarro, está intimamente ligada à política nacional e reflecte as condições sócio-políticas de Moçambique, quer durante a luta pela independência (conquistada em 1975) quer posteriormente durante a guerra civil (1977-92).

Pela primeira vez no Reino Unido, de acordo com a media portuguesa, está um desenho em modo de cadáver esquisito, Long Distance, iniciado pelo norte-americano Ted Joans e criado em conjunto com 132 colaboradores de todo o mundo, incluindo Mário Cesariny, Malangatana, Allen Ginsberg, William S. Burroughs e Octavio Paz.

Exposta em 2019, em Lisboa, a obra de 11 metros de comprimento levou quase 30 anos a completar, entre 1976 e 2005, unindo artistas de variados países.

 

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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