O “Recolher Obrigatório do Coração” do Taruma

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Álvaro Taruma

Álvaro Fausto Taruma é dos jovens que faz acreditar que Moçambique é realmente um ninho de poetas. Depois de tecer vibrações “Para Uma Cartografia da Noite”, obra publicada em 2016, a vez de “Matéria Para Um Grito”, chegou em 2018, e  em 2021, brindou os leitores com “Animais do Ocaso”. Este ano, 2022, volta com o “Recolher Obrigatório do Coração”, mil exemplares de um livro que sai sob chancela do Alcance Editores.

A obra, que chegou ao público quinta-feira última e apresentada pelo escritor Marcelo Panguana, em 71 páginas é uma versão reduzida do Animais do Ocaso, lançado em Portugal. Os poemas que Taruma apresenta são o culminar de um exercício feito durante a pandemia, num exercício sensível combinação de palavras em que o poeta mergulha no âmago das principais preocupações dos moçambicanos, mas também abarca a noite, a insónia, o medo, o amor. São dizeres e prazeres da alma narradas pelo escritor. Acompanhe!

Quem lê o título às pressas pode pensar que este livro remete a ideia de fuga aos sentimentos, e que também nos leva a um período da pandemia. Mas quem lê encontra outras linhas.

Eu diria que nem uma nem outra. Recolher Obrigatório do Coração é, em primeiro lugar, um livro que se desenvolve como uma resposta às dificuldades de colocação de Animais do Ocaso à venda em Moçambique. Quero aqui recordar que no ano passado publiquei o livro ‘Animais do Ocaso’ em Portugal. O preço ao qual o livro está a ser comercializado naquele país mostrou-se insustentável para o colocarmos nas nossas livrarias, fazer chegar ao leitor de forma acessível.

Sucedeu que nesse período a Alcance Editores havia me feito um convite para publicação de um projecto inédito.

Então, achei que esta fosse a altura certa de mostrar aos meus leitores aquilo que eu havia publicado em ‘Animais do Ocaso’, mas trabalhado dentro de um novo conceito que foi a metaforização do recolher obrigatório a que fomos impostos em algum momento, por causa da pandemia da covid-19. Isto é, em suma, a história do livro.

Porquê “recolher obrigatório”?

A alusão ao “recolher obrigatório” foi feita de forma circunstancial e oportuna, para criar uma curiosidade ao leitor, uma vez que esta palavra tornou-se, de certa forma, num vocábulo corrente na vida de muitos moçambicanos. No entanto, os textos que fazem parte do livro para além da aura cinzenta ou melancólica, típica dos tempos que vivemos, pouco têm a ver com os tempos pandêmicos no sentido literal do termo.

Como é esta coisa de fazer do óbvio um elemento criador de perplexidade?

Porque a arte pode ser um fingimento, uma distorção ou uma representação exagerada da realidade; um oxímoro…. Portanto, há e sempre houve esta necessidade de trazer os factos de uma maneira que permita o leitor “viajar” no sentido de que tem que se guiar através de cada verso e cada frase para reconhecer e reconhecer-se nos factos narrados. Nada mais do que isso.

Mas podemos sentir que há sempre este olhar tenso do poeta, como se estivesse em conflito individual e permanente com a realidade…

A realidade pode ser algo doloroso… ou não. Depende muito do olhar e do ponto de vista do sujeito poético, assim como de factores circunstanciais em que ele se encontra. Chega-se num certo momento em que se olha uma pedra e o que se vê é pedra, mas momentos há em que se pode ver na pedra um pássaro, uma lembrança, um bloco levantado, uma casa construída e por aí em diante. Tudo isso tem que ver com o nosso estado de espírito, e neste livro, em particular, há textos que me acompanham desde a minha primeira publicação que foi “Para Uma Cartografia da Noite”, em 2016, cujo momento pessoal era outro. Mas, também há textos de “Animais do Ocaso” que foram temperados com outro tipo de saberes e experiências pessoais.

Há marcas de insónia como um lugar de tortura. O poema acaba sendo este último lugar do existir, de relaxamento.

De certa forma, sim. Muitos dos textos que escrevi partilham o facto de olhar para a vida e para a sociedade de um ponto de vista céptico, para não dizer pessimista, onde quase tudo é angustiante. Entretanto, os meus poemas vêm para dar o efeito contrário que é de acender esperanças e abrir um novo caminho e uma nova visão de futuro. É como algo motivacional que mostra que é preciso sair-se do fundo, mostrando o fundo em que estamos.

Os textos surgem da insubordinação, do desassossego. É este também o papel da poesia, que se mostra mudar. Já não é uma poesia que evoca o ambiente do passado, mas uma poesia social, que toca os problemas de hoje…

Exactamente. Até porque para mim é essa poesia que diferencia os verdadeiros poetas de meros escreventes. Um poeta tem que ser um Homem de causas ou pelo menos acreditar nelas. Temos que ter a possibilidade de sonhar uma realidade diferente, de alertar para mudanças, de fazer premonições e de sermos uma espécie de farol. Por exemplo, este celebramos o centenário de Craveirinha, mas se é celebrado é porque conseguiu retratar como ninguém os conflitos do seu tempo e também impingiu em nós a ideia de futuro e de esperança. Cada poeta também tem que ter um Craveirinha, à sua maneira, dentro de si e colocar a nú os problemas de hoje.

Nota-se também um exercício um tanto que autobiográfico. No fundo um livro de sentimentos.

Sempre foi, pelo simples facto de escrever as coisas que eu próprio vivo e observo. Contudo, não é isto exclusivo deste livro senão dos primeiros que são “Para Uma Cartografia da Noite” assim como “Matéria Para um Grito”. Acho que estes dois se enquadram mais ou menos dentro de uma literatura ou poesia autobiográfica que quase acompanha os meus movimentos, ou seja, os movimentos do sujeito de enunciação. De resto, posso também apontar uma tendência de quebra dessa tradição que já mostra uma dissociação com esse tipo de linguagem. Diria que este livro é um livro de experimentação de uma nova tendência de fazer poesia.

Na sua busca para encontrar um lugar para reflectir sobre estes fenómenos todos, a poesia acaba sendo esse ponto de equilíbrio?

Pelo menos dá-nos essa ilusão, mas o verdadeiro equilíbrio encontramos no trabalho, na família e na nossa independência plena. Há quem disse uma frase bonita como esta: a poesia não salva ninguém.

Este livro na verdade aparece em “Animais do Ocaso”.

Uma edição moçambicana com alguns inéditos e sob um novo conceito. É pela primeira vez que chego à fasquia dos mil exemplares e também conseguimos com a editora colocar o livro a um preço que permite uma maior acessibilidade do livro, que uma das minhas grandes preocupações.

Há aqui elementos como a noite, o silêncio, a luz e o corpo feminino que cozem os textos…

São os elementos transversais do meu labor poético.

A dor está lá. É uma marca?

Não é uma marca. Acredito que sejam momentos inerentes à criação. Ao longo do tempo não permanecemos os mesmos e igualmente as nossas visões, expressões e maneiras de sentir mudam. Não chamaria a dor uma marca da minha escrita, seria demasiado reducionista.

Talvez não existam livros fáceis ou difíceis. Mas como foi escrever este livro?

Não se trata de livros fáceis ou difíceis. Trata-se de livros que acrescentam, ou nem por isso, alguma qualidade ao panorama literário moçambicano. Temos que ter a consciência de que mais do que um objecto de arte, estamos a produzir cultura e quem trabalham com cultura tem que exercer o seu ofício com responsabilidade.

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