Dji Nafita: um artista do Xipamanine

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Chove em Maputo. Pelo vidro entreaberto do chapa, penetram pingos que se esmigalham nas minhas mãos. São gelados, gigantescos e de um peso que revela a força com que violentam a cidade. Esfrego, sobre os meus braços pálidos, os estilhaços da água vinda dos céus e fecho a janela embaciada. Olho para o celular, é quase meio-dia e a chuva não cessa desde as primeiras horas. Nas artérias da cidade formam-se torrentes de águas negras que lavam o asfalto, a transportar resíduos sólidos e lama de um ponto para o outro.

Xipamanine é o meu destino. Abandono o transporte num salto enérgico que me projeta para o passeio. O meu corpo murcha, logo que fica exposto ao frio e à agressão das gotas que caem com ainda mais intensidade. Nos pés, as sapatinhas pretas são atingidas por tangerinas, tomate, pimentos e outras mercadorias arrancadas das pequenas bancas improvisadas – a dividir o passeio com os transeuntes – pela correnteza das chuvas. Atrás dos produtos vem uma senhora magra, o corpo protegido por uma capulana e um saco plástico a cobrir o cabelo. Recolhe, um a um, cada produto, mete-os numa sacola e volta a amontoá-los sobre um saco estendido no chão, onde são vendidos.

O celular toca, é Dji Nafita a dar as últimas instruções sobre como chegar à sua casa-atelier. Caminho com cuidado e sempre de cabeça baixa, o olhar fixo à possíveis formas de evitar os charcos de água. Faço o trajeto indicado, com o artista em linha telefónica, até que a uma distância avisto um homem encapuzado, as roupas cheias de tinta, os sapatos brancos, com pontinhos coloridos, e andar saltitante. Reconhecemo-nos e levantamos as mãos, a exibir os celulares.
Vou até ele, está de frente a sua residência, no Xipamanine. Convida-me a entrar e, juntos, contornamos uma enorme poça que se formou no quintal, que se estende até a porta da casa. Adentramos. O cheiro à tinta é indisfarçável e quase tudo no local carrega uma marca do pincel de Dji Nafita. Abre-me a porta da sala principal e me surpreendo com o que vejo. Uma mesa de madeira cheia de pinceis, frascos de spray e tabuleiros de tinta. Nas paredes, todas tingidas, algumas grafitadas, outras cobertas de jornais, pendem telas de diversos tamanhos e traços.

‘‘FOCA’’ é a palavra constante entre tudo o que se vê ao meu redor. Pergunto a respeito e Nafita é curto e directo na resposta. ‘‘É algo que digo a mim mesmo, para me motivar. Tipo, quando percebo que estou num mau momento, olho para a parede e ela me diz FOCA.’’

De altura baixa e iluminação multicolor, o compartimento está dividido em duas partes. A primeira, onde me encontro, é a área de produção. Essencialmente, vejo ferramentas, tintas e nada acabado. A outra, mais para o interior, é repleta de obras. Uma cadeira ao centro, a suportar uma tela de grandes dimensões, ladeada por vários outros trabalhos encostados às paredes, formam o que mais se parece a um armazém.

Sou convidado a me sentar num sofá de esponjas, de frente para a entrada. Posiciono-me, com todo o cuidado, de modo a não tocar numa camiseta, ao meu lado, na qual Dji Nafita está a terminar de pintar um belo rosto feminino, quando começamos a conversa.

Ser artista não é um sonho
Ser artista é o destino que a vida traçou para Dji Nafita. Muralista, grafiteiro, desenhador, entre outras coisas, Dji Nafita vem de um meio familiar onde se tem a arte como um valor. Visionário, assume-se como um ser que procura se reinventar e adaptar a sua arte aos tempos.

Nasceu em Maputo, a 21 de Setembro de 1997. Teve os primeiros contactos com a arte em casa, onde começou por fazer traços em papel, bem como em utensílios domésticos, e ainda, herdou do pai o espírito de apreciador.
Dji Nafita está descalço e a caminhar pelo recinto, a procura por alguma coisa. ‘‘Nasci num espaço onde existe um histórico de apreciação de arte na família, tanto da parte do meu pai, quanto na da minha mãe, por isso eu escolher arte para me comunicar passa a ser algo que a minha família apoia directamente’’.

Com o apoio da família, o artista nunca perdeu o foco. Aliás, logo que os seus primeiros rabiscos foram descobertos pelo progenitor, ainda com sete/oito anos na altura, Nafita foi levado a conhecer o Museu Nacional de Artes, onde interagiu com grandes artistas e, logo, criou referências.

‘‘Meu pai, aos meus sete anos de idade, me perguntou o que eu queria ser. Assim, pela inocência, eu disse que queria ser artista. Ele levou-me ao Museu Nacional de Artes, onde participei de um Workshop intensivo de arte infantil. Lá, apaixonei-me pelas artes plásticas e fui desenvolvendo’’, recorda, Nafita, sobre como conheceu, muito cedo, ícones como Malangatana, Naguib, Victor Sousa, Naftal Langa, Noel Langa e outros que o influenciaram ainda no início do processo de produção.

Dji Nafita se considera um artista moldado pela curiosidade e espírito investigativo que há em si desde a infância e detalha que sempre foi movido pela necessidade de traduzir, com mais clareza, um pouco de tudo o que lhe passa pela mente.
‘‘Meus pais dizem que nasci já com o hábito de rabiscar. Qualquer instrumento ou ferramenta que pudesse incidir sobre um sólido e criar um risco era o meu favorito. Quando comprávamos carrinhos, eu já queria abrir e saber o que tem lá dentro’’, conta.

Ser artista, avança Nafita, não é um sonho. ‘‘Arte é uma inclinação. Faço com muita naturalidade, por isso nunca tive tempo de sonhar em fazer isto’’, afirma, a clarificar que ‘‘o que eu sonho, se calhar, é representar as artes plásticas nacionais, internacionalmente. Motivar mais jovens, alcançar mais jovens, que não tenham conhecimento nem informação sobre as artes. Isso é meu sonho’’.

Um pano escuro e esfarrapado, usado para limpar gotas de tinta que se derramam durante os trabalhos, era o que o artista tanto procurava. Achado o material, Nafita coloca sobre a mesa uma caixa branca, sem escritas, de onde retira dois pares de sapatilhas.
Sapatilhas para quem as quiser ver como tal. É que ganharam nova forma, cores e vida nas mãos de Dji Nafita, que olha para o calçado como quem vê telas imaculadas, prontas para receber tinta e produzir arte. Com o pedaço de tecido, o artista retira, cuidadosamente, excessos de tinta nas bordas das sapatilhas, enquanto explica que, com a arte, procura contar histórias reais.

A arte como ferramenta para motivar os jovens

Nafita vive dos trabalhos que desenvolve como artista. Trabalha com pintura em tela e arte pública, em especifico o grafite, pintando paredes no seu bairro e em boa parte dos locais por onde passa.

Também é formado pela Escola Nacional de Artes Visuais (ENAV). Reside na cidade capital (Maputo), onde nasceu e trabalha em causas sociais, urbanas e algumas individuais, com o objectivo de inspirar jovens a definirem os seus propósitos de vida e aprenderem a rentabilizar os seus talentos de forma consciente.

‘‘No fundo, sou um comunicólogo. E a maior mensagem que tenho a levar para a juventude é essa parte motivacional, pois quero fazer as pessoas perceberem o quão elas valem’’, descreve.

Para tal, Nafita acredita ser necessário que se impute o elemento humano nos produtos artísticos, que se faça arte com base em histórias reais, de modo que mais pessoas possam se identificar com os trabalhos.

‘‘Todos gostamos de histórias, sobretudo de histórias reais. Eu mostro a parte real da coisa, porque não vivo a arte de forma ilusória. Mostro a minha história, como um jovem sem condições, mas que dá o melhor de si em tudo o que faz. E isso de alguma forma toca, porque a maioria tem habilidade’’, refere.

Muitas vezes, acrescenta Nafita, os jovens ficam a espera de ajuda, enquanto podem fazer acontecer. ‘‘Dizem, por exemplo, que, para abrir um atelier, precisam de milhões de Meticais, mas eu não. Vivo num atelier que não tem lá muitas condições. Tem problemas de acesso e saneamento, por estar num bairro suburbano, de goteiras de chuvas, mas isso não nos impede de desenvolver.’’

Hoje transformada em atelier, a casa onde Dji Nafita trabalha foi o lar de várias gerações da sua descendência. Torná-la num espaço onde se faz arte é para o artista um acto de grande responsabilidade, pois materializa um gosto cultivado por toda a família ao longo do tempo.

‘‘Esta é a casa onde os meus avôs viviam. Com eles, todos os onze irmãos da minha mãe passaram por aqui, mas hoje já são crescidos e têm suas casas e famílias.’’, conta, a sintetizar que ‘‘por ser uma casa de família, onde passei momentos agradáveis, na minha infância, desenvolver aqui uma habilidade que toda a família suportou é, para mim, uma questão de muita estima’’.

O espaço é, ainda, uma oficina, um estúdio fotográfico, videográfico, onde também têm sido gravados videoclipes, filmes e documentários, além de reportagens e outras matérias jornalísticas.

Sou um artista competitivo

À veia artística, Nafita emparelhou o espírito competitivo, que obteve durante um tempo em que praticou desporto, no atletismo e noutras modalidades. O desejo de ganhar o acompanha até mesmo fora das pistas.
O quotidiano de Dji Nafita é marcado pela procura de formas para, a cada dia, tornar-se melhor naquilo que faz. ‘‘Eu sou muito competitivo. Gosto da ideia de procurar melhorar e querer ser mestre, porque desenvolve-me e faz-me pensar, sempre, na ideia de precisar procurar por clareza todos os dias’’.

Nesta ordem de ideias, o artista procurou, também, acrescentar saberes ao fazer arte, o que, segundo explica, tem-lhe rendido, para além de forma de expressão, boa parte da renda com que garante o sustento.

‘‘Precisei inteirar-me sobre o empreendedorismo, onde percebi que todo o negócio tem basicamente, a mesma estrutura. Isso é que faz de mim um artista comercial’’, detalha. Apesar de todo o apetrecho, Nafita reconhece debilidades que enfermam a vida dos artistas plásticos no contexto moçambicano.


‘‘Como disse antes, sou alguém competitivo. E, quando faço comparação dos meus trabalhos e dos artistas internacionais que estão no nível em que eu gostaria de estar, vejo que há uma debilidade em termos de material, acessibilidade aos trabalhos e disponibilidade de murais’’, refere o artista, que também acredita que ‘‘as dificuldades não nos devem impedir, mas antes devemos tomá-las como oportunidade para desenvolver.
Sobre as dificuldades, Nafita explicou que sempre as teve, desde o começo do percurso artístico, que já dura há cerca de 19 anos.

‘‘ A lata de spray, por exemplo, era muito cara para mim, no início. Então, lutei, comprei um compressor. Aquilo que os outros faziam com spray, eu fazia com pistola, que muitos usam para fazer pintura em automóveis. Este é só um exemplo, entre várias e outras coisas que tive que aprender a improvisar e, mesmo assim, chegar a um nível profissional’’, finaliza…

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