Sigaúque caiu (?)

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Obra de Matheus Sithole

Os colegas do escritório ainda cochichavam nos corredores e em conversas privadas sobre o vídeo de uma mulher de cócoras e um homem atrás [😍😅🥰😘🤤😋😟😫😌🥺🥹] com a legenda: “vai ensaiando”, enviado pelo Banze, Contabilista que responde pelo Comercial, ao grupo de Whatsapp do job.

O Banze, dobrou os joelhos e pediu desculpas, até parou com os cigarros que vinha fumando na varanda frontal do edifício onde funcionam os nossos escritórios. A conversa ainda rolava. Nalguns casos servia de mote para quebrar um eventual silêncio consequente de qualquer falta de assunto, natural em pessoas que, nalguns casos, são forçadas a conviver, como acontece com alguns colegas de trabalho.

Agora chegou outro vídeo de um humorista. Sigaúque que responde pelo Controlo de Stock, por engano, enviou, instantes antes do início da reunião extraordinária convocada para avaliar o status quo no transporte de carga, core business desta empresa de logística.

Ao eliminar, Sigaúque, com os dedos trémulos, acabou apagando apenas para si. Engoliu a seco, num gesto falho, atirou a mão ao copo a sua frente que caiu e a água jorrou pela mesa de madeira terminando num gotejar que atravessa a braguilha das calças jeans (ganga) que veste. Arregala os olhos. E esses olhos desesperados, embora mudo naquele instante, são eloquentes de que algo não está bem. Luandly, sua esposa, inspeciona a cozinha, enquanto a empregada se prepara para ir embora, depois de mais um dia de trabalho.

A Administração Financeira optou por fazer o encontro com a Direcção-geral no WhatsApp para acomodar aos que têm dificuldade de aceder ao Google Meet. Também para a contenção de custos. Com a pandemia, a Tesouraria propôs, e foi aprovado, o teletrabalho.

Como é habitual, os opinion makers do grupo esgrimem-se em ensaios sobre o quanto aquele novo vídeo viral é engraçado. Alguns argumentam que é um conteúdo um tanto complexo.

Síntese do vídeo: um humorista, simulando a fala de historiadores e psicólogos, tenta explicar a relação do medo com a incapacitação motora de um indivíduo, num misto de paranóia fundamentada por uma guerra que já dura séculos.

Luandly entra para a sala de estar a pedi-lo para ir buscar as crianças quando a carrinha chegar, ia entrar para as panelas. O semblante de Sigaúque é fúnebre. Sentado, nas suas costas cortinas fechadas, lâmpada apagada, seu rosto é iluminado pela luz do ecrã do smartphone nas suas mãos tremulas. O suor cai igual numa cascata farta e faz o seu caminho pelas rugas que se formam no rosto de Sigaúque. Os receios da consequência daquele vídeo pesam-no.

– Somos bárbaros, comenta o Mausse, licenciado em Relações Internacionais. Director do Departamento de Relações Externas. A História, acrescenta, prova isso, somos bárbaros.

– Se até o ministério da educação vive endiabrado com as estrelas do Instagram e Tik Tok, os tudólogos armados a gate keepers só podem aplaudir – comenta o Mirole,
Director dos IT. Está sempre em contramão. Tem opiniões contrárias por hábito ou por defeito (?).

– É só uma piada 😂😂😂, não tens senso de humor. Tens que ter uma mulher, pah! Ou estás a espera daquela que virá de uma humanidade tão cristalina ou do Matrix? Sorry😅 – reage o Banze (dos mais cotados no mercado), destacando ainda mais o video, na esperança de se reabilitar. O Contabilista e Auditor nunca mais tinha escrito no grupo.

E olha, responde o Mausse ao Mirole, imaculada, nem a narrativa sobre Cristo é.

Provavelmente com os copos vespertinos a atingirem o climax na fermentação, intervém o Dimande, Director dos Recursos Humanos, a reagir, igualmente, ao comentário do Mirole: Alto lá. Então não te ponhas a intelectual e crítico de ocasião, como te é congénito.

O tom 😊, adverte a Penélope, Recursos Humanos. É só um vídeo de mímica, acho graça 😂, comentou.

– Peço desculpa pela minha estupidez – respondeu o Mirole – e já agora, li um artigo de opinião, possivelmente no “Carta”, de um condutor que questionava a possibilidade de nós, os cidadãos, as empresas do ramo dos transportes (pessoas e bens), criarmos uma Inspecção de Estradas? Leigo em Direito, ignorei a legalidade disso. Me parece relevante, em Democracia.

O Dimande respondeu ao comentário do Banze. Sim, esse tipo faz mímicas incríveis e parece mais veloz que os algorítmos, nem?

Respondendo a sua própria mensagem, o Mirole escreve: O mais provável, infelizmente, é que esse movimento ficaria só na pátria Facebook, na melhor das hipóteses vão laikar, partilhar e nos comentários serão só aplausos. Aplausos. E um silêncio espesso, escuro.

O Mausse faz um tag ao Mirole no Instagram na conta de outro TikToker, que performa o mesmo espectáculo que o vídeo que entrou no grupo. Na sequência comenta: isto é viral. Já viste o número de visualizações🫢? Já? 😳Ainda…seja mais humilde 😅.

Dimande, mencionando o Mirole, envia ao grupo um screen shot do post do humorista no Facebook: 4 mil likes, 6 mil comentários e mais de 3200 partilhas.

A guerra nunca foi objecto de museu, reconhece Mirole, a responder ao comentário do Mausse quando disse que os Homens são bárbaros. De alguma forma, prosseguiu, sempre vivemos nela, ou próximos dela, ou com ela. Entretanto, esse humorista viral trata o assunto como se fosse algo excepcional e escolhe os excertos mais banais.

Laura Panguana, secretária do Administrador Financeiro (AF), recorda aos colaboradores o propósito do encontro.

– Os colegas terão visto a reportagem do Afonso Chavo sobre as condições da N1?, perguntou o Albazine Benfica Malhazine, AF.

Sim, reage Mausse, que viu excertos da matéria na conta do Instagram da estação de televisão que divulgou a matéria. Foi uma reportagem bem conseguida, reconhece. Um banho naquela team de (pseudo) jornalistas que nos roadblocks prestaram-se a papéis ao custo do estrelato na galáxia Tik Tok (detalhe: já não são 15 minutos de fama, apenas 30 segundos que escorrem como água nos stories do Insta, Face, Whatsapp, Telegram…)

Com o lobby das gasolineiras a conseguirem subir o preço dos combustíveis que, mesmo depois do mundo naturalizar essa guerra que está a justificar tudo o que falha nestes dias, não baixará os preços, temos de encontrar um caminho de reduzir os nossos custos – intervém Albazine Benfica Malhazine, o AF.

– Essa reportagem, toma a palavra o Mirole, pode ser um bom argumento para exigirmos que se baixem os impostos, de modo a garantir a sustentabilidade dos nossos salários, da empresa e do sector. E sustenta a hipótese de uma inspecção de estradas independente.

Sigaúque, habitualmente interventivo, nada escreveu, desde que a sessão iniciou. Luandly, entra para a sala e o vê petrificado. O que se passa? O que se passa? A resposta é um olhar agora vago algures em parte incerta. A carrinha dos miúdos bosina. Ainda na incógnita, ela desce as escadas para ir buscar as crianças.

– Pois, pois – reage o administrador à intervenção do Mirole – porque pelo andar da carruagem, há sérios riscos de termos de despedir alguns colaboradores e desfazer algumas direcções. Porém, como todos os presentes sabemos, não é esse o nosso objectivo. Com a pandemia tivemos de diminuir o pessoal do Armazém, da Gestão de Stock e da Administração, só não mexemos no departamento de Controlo de Stock, até ao momento.

Aos pulos e conversa animada, os seus dois rapazes sobem as escadas, o eco dos corredores chega a sala de Sigaúque. Ouvi-los incita-o a escrever qualquer coisa como “outro aspecto que escapou, meus caros, é o valor que os motoristas levam para a polícia que regula o trânsito. Poderia ser um elemento a arrolar no argumento da carta que faremos ao ministério de tutela e outras organizações de interesse na área”.

– Só agora subo a conversa e vejo que estavam com um debate aceso sobre este vídeo viral, justamente no momento em que a reunião deveria começar, comentário do administrador que entrou alguns minutos atrasado para o grupo e logo iniciou a sessão de facto.

Da cozinha, onde servia o lanche das crianças, Luandly ouviu o estrondo do impacto do avantajado corpo de Sigaúque ao chegar ao chão numa queda livre.

😂😂😂😂😂😂😂 o gajo é louco, reagiu Albazine Benfica Malhazine.

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É licenciado em Jornalismo, pela ESJ. Tem interesse de pesquisa no campo das artes, identidade e cultura, tendo já publicado no país e em Portugal os artigos “Ingredientes do cocktail de uma revolução estética” e “José Craveirinha e o Renascimento Negro de Harlem”. É membro da plataforma Mbenga Artes e Reflexões, desde 2014, foi jornalista na página cultural do Jornal Notícias (2016-2020) e um dos apresentadores do programa Conversas ao Meio Dia, docente de Jornalismo. Durante a formação foi monitor do Msc Isaías Fuel nas cadeiras de Jornalismo Especializado e Teorias da Comunicação. Na adolescência fez rádio, tendo sido apresentador do programa Mundo Sem Segredos, no Emissor Provincial da Rádio Moçambique de Inhambane. Fez um estágio na secção de cultura da RTP em Lisboa sob coordenação de Teresa Nicolau. Além de matérias jornalísticas, tem assinado crónicas, crítica literária, alguma dispersa de cinema e música. Escreve contos. E actualmente, é Gestor de Comunicação da Fundação Fernando Leite Couto.

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